Escritores da Liberdade | Eis o trunfo do cinema: mostrar-nos!

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Quem já deu aula e se deparou com situações difíceis vai entender o teor deste texto. Quem já deu aula e se deparou com alunos totalmente desinteressados e perdidos em suas revoltas pessoais e sociais, vai entender a reflexão que proponho aqui.

Bem, apesar de o nosso país ser palco de tanta desigualdade social e consequentemente, exclusão social, há muitas pessoas que ainda pregam com ardor a crença da meritocracia.

Não é meu intuito, porém, discutir nesta coluna, ideologias. Tampouco, ater-me a temas polêmicos. Não tenho tempo para isso, pois estou trabalhando para ser feliz e fazer feliz quem está próximo a mim. Meus interesses giram agora em espalhar o que é bom. E o filme escolhido hoje para ser analisado é digno disso.

No entanto, é impossível não lembrar de um velhinho, conhecido de todo educador comprometido, que teria ficado muito feliz se tivesse assistido ao filme em questão: Paulo Freire. Creio que ele iria sorrir e emocionar-se como eu e tantos outros o fizeram. Porque comprova o que o pensador dizia: respeite o educando pelo que ele é e pelo que ele pode vir a ser. Eu sempre olhei para meus alunos com esperança. Mesmo que trouxessem em seu histórico passagens tristes e funestas.

E para um educador comprometido, formar um aluno não significa apenas “passar” o conteúdo, mas sim, desenvolver novas visões de mundo e cidadania através de práticas reflexivas em sala de aula.

O que adianta ensinar apenas oração subordinada substantiva objetiva direta e zombar de quem não usa a norma culta por aí?

O conhecimento precisa ser construído para somar, conectar pessoas e melhorar o lugar em que vivemos. Não pode ser usado como forma de poder e domínio.

Essas coisas ficam passeando sempre em minha cabeça pra lá de sonhadora. Sei que o sistema, o tal sistema, esse cara invisível que sempre está contra nós, é implacável. Mas não desisto. Prossigo.

Porém, nem sempre foi tudo tão tranquilo assim em minha nada mole vida como professora.

Por vezes, quase submergi nesse mar de incertezas da profissão de educar. Mas sempre há um túnel, uma saída, uma abertura, um alçapão quando se busca a solução.

Foi com uma turma bem difícil que tive, já faz um tempo, que me vi ávida por uma luz, uma maneira de tocar alunos que não sonhavam mais.

Em minha busca, acabei me deparando com o filme “Freedon Writers”(com o título “Escritores da liberdade” aqui no Brasil). Lançado em 2007, estrelado pela brilhante atriz Hilary Swank, este longa consegue ser aquele filme que todo pai, professor, político e formador de opinião deveria assistir. É um filme que inspira e emociona. Baseado numa história real, conta a aventura de uma professora que desejou fazer a diferença na vida de seus alunos.

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Ah, que belo encontro com esta película! Que bálsamo saber que alguém sonhava coisas que eu também sonhava!

Sabe quando você assiste a você na tela? Seus medos e sonhos tão bem expostos ali? No meu caso, eu me senti na pele da professora, impotente diante da realidade de seus alunos, mas tendo que fazer alguma coisa. Eu me senti tocada e, na sala de casa entre lágrimas, acreditei que poderia tocar também meus alunos se eles percebessem que outros, em outro lugar, viviam coisas parecidas com suas vidas.

Porém, não foi somente a mim que a história tocou. A partir da constatação do poder de alcance do filme, resolvi assisti-lo junto com os alunos e coisas fantásticas aconteceram. Vocês não imaginam o que presenciei: jovens antes revoltados, chorando. Alguns foram sentar junto comigo na hora dos créditos. Outros seguraram minhas mãos. Foi uma comoção tão grande na sala que pediram para assistir outra vez. Assim como no filme, concordaram em fazer um diário e não se envergonharam de contar quantos amigos perderam para o tráfico e em outras situações absurdas de violência.

Ali, tornamo-nos amigos. Eles sentiram confiança para contar suas dores e medos. Pude entender o porquê de tanta revolta e hoje, conto feliz a vocês que a maioria desta turma encontrou seu caminho pessoal e profissional. Por isso, não subestime uma história, seja ela de amor ou de superação. As histórias também são feitas para inspirar, fazer acender algo que a sociedade não consegue sensibilizar. Cinema pode ser terapia sim!

Tal história foi mostrada a eles num momento em que suas revoltas ainda estavam em ebulição. Desconfio que aquela simples sessão de cinema conseguiu ser um divisor de águas na vida de muitos daqueles alunos. Muitas conversas sobre o filme foram travadas depois a pedido deles. Alguns daqueles alunos estudam agora em faculdades federais e estaduais. Outros conseguiram empregos e estão conseguindo pagar seus estudos. Quando encontram comigo, sorriem e me abraçam.

Pena que muitos professores ignorem isso, mas o fato de um aluno ver-se em uma tela ou em um texto traz muito efeito e reflexão para sua vida. Assim, quando ele passa de observado a observador de si mesmo na pele de outro, o milagre acontece. Mesmo que este outro seja um personagem. Eis o trunfo do cinema: mostrar-nos!

Erin Gruwell, interpretada por Hilary Swank, que atua com total entrega à personagem, é uma professora recém-formada cheia de ideais que chega a uma escola de bairro pobre, onde até mesmo a direção e demais professores não acreditam mais no futuro de seus alunos.

Esse panorama muda quando Erin, nossa professora heroína, aproxima suas aulas da realidade dos alunos. Ao sugerir que cada um escreva seu próprio diário a partir da leitura do livro “O diário de Anne Frank” faz com que estes alunos reflitam sobre as várias formas de preconceito e escolham escrever outro roteiro para as próprias vidas.

Aos poucos, Erin vai conquistando a confiança dos alunos e colocando-se no lugar deles. E de uma maneira linda, acaba por ganhar o título de amiga dos alunos. Ser considerado amigo dos alunos não é para qualquer um. É para quem entende mesmo de amizade.

E não tem como não chorar em algumas cenas, como por exemplo, quando a professora propõe uma dinâmica para saber quem já perdeu um parente ou amigo próximo por causa da violência e da falta de tolerância. Há cenas em que nosso coração dispara. Quem é professor e ama o que faz, derrete-se em bicas.

escritoresdvd“Escritores da Liberdade” é a inspiração para aqueles que acreditam na arte de educar. Volto a repetir o que já afirmei em outros textos: Cinema e Literatura, apesar de apresentarem linguagens diferentes, são artes que conversam entre si e podem atuar como elementos de salvação para pessoas cujos destinos parecem estar traçados rumo à derrota.

“Escritores da Liberdade” é uma lição para a sociedade que julga antes de saber os fatos. Além disso, o filme nos presenteia com várias cenas comoventes e excelentes interpretações. Trata-se de uma história real de superação que tem o poder de nos mostrar como é possível devolver oportunidades e créditos a quem a vida não conferiu sequer o papel de figurante. É um filme que merece ser visto por todos! Um abraço feliz e até nosso próximo encontro aqui no “Godivas”.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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