O Estado e o estado das coisas

"As Vantagens de Ser Invisível"
“As Vantagens de Ser Invisível”

 

“A cultura nas mãos do Estado é algo constrangedor. Cultura tem de estar nas mãos do povo, o Estado é um Midas ao contrário: onde ele coloca a mão vira merda.”

Plínio Marcos

Obviamente a frase de um dos nossos grandes mestres de teatro Plínio Marcos, mais do que tentar criar uma regra sociológica, aponta para um descompasso, uma desafinação entre os governos e a população que ele serve. Não podemos nos esquecer do fato: Prefeitos e seus bonecos de ventríloquo, os secretários são funcionários públicos e ponto. A democracia praticada hoje no mundo e no Brasil evoluiu muito se comparada com a da Grécia Antiga e pouco se comparada com a da Grécia Atual, das passeatas de protesto contra a corrupção, algo que aqui não conseguiria metade dos 5 milhões de ‘ indignados” festivos. Cheguei a este número somando os “indignados festivos  Darth Vader“ da marcha para Jesus com os “ indignados festivos sorria-meu-bem” da Parada Gay.

Vamos sair do geral para o particular, em Santos e em seu satélite industrial Cubatão (Cidade que deveria mudar seu nome para Serrado Mar, com urgência), a Cultura com C maiúsculo está nas mãos dos pseudo-senhores feudais dos partidos políticos, pseudo quer dizer falsos, pois bem,  o gerenciamento e administração dos meios de produção cultural pelo Estado, é algo que não apenas considero um fiasco, um desastre, é um crime.

Para mim, repito aqui e sempre irei repetir, não existe a necessidade de existirem secretarias de Cultura, porque já existem os Conselhos de Cultura. No dia em que os Conselhos de Cultura deixarem de ser cordeirinhos e ‘abajours’ decorativos do processo de condução da vida das cidades pelo patético Estado, muitas secretarias irão perder sua função, principalmente esta chamada ‘de cultura’. Eventos recentes, em Santos e Cubatão, apenas confirmam minha tese sobre a inutilidade e patetice das secretarias de cultura, que não conseguem defender, nem fomentar, nem incentivar nada e são ocupadas ou por semi-lobistas da especulação político-partidária ou por sorridentes bonecos de ventríloquo de prefeitos sem nenhum conhecimento ou preparo para a escuta, o diálogo com os protagonistas dos meios de produção da cultura.

Não, meus caros, não temos nenhum Esmeraldo Tarquínio no poder. Duvido que um político que cantava Stardust no teatro municipal fosse capaz de ficar indiferente ao quase fechamento de uma histórica casa de espetáculos em Santos, me refiro ao Bar do Torto e devagar com o andor, Leonor, não se trata apenas de cantar a canção Stardust, mas de representar em seu próprio corpo e atitudes os valores humanistas que a canção defende. Ok, este meu comentário vai soar como uma redução, uma simplificação tendenciosa dos fatos, mas é justamente esta a prática secular dos poderosos que lidam com a Cultura: aproveito para propor algumas coisas, os políticos e seus bonecos sempre reclamam da falta de proposições dos críticos de seus atos, sugiro então que as seguintes mudanças sejam efetuadas:

1-) Extinção pura e simples (ou ao menos simbólica ) das secretarias de cultura e via medidas internas legais, a saber, respeito ao caráter deliberativo dos conselhos de cultura, posse imediata dos conselhos como gestores públicos da pasta. Ao invés de secretário de cultura, teríamos um funcionário que faria apenas a mediação e cuidaria para que as medidas votadas pelos conselhos fossem executadas pelo poder público. Este funcionário não precisaria necessariamente ser um secretário de cultura, mas poderia ser um secretário executivo que trabalhasse com e para o Conselho de Cultura. O mais engraçado é que a palavra secretário nesse caso passa a finalmente ter algum significado, o de mediador e servidor público do Conselho de Cultura e não o de chefe representante do poder executivo apena. Detesto chefes, abaixo todos os chefes! Gosto dos mediadores, mas não vamos confundir mediador com atravessador.

2-) Dotação orçamentária de no mínimo 2% do orçamento da cidade para a área e impedimento legal do uso desta verba para a realização de eventos festivos da área do Turismo, a saber, carnaval, shows com artistas famosos no aniversário da cidade e congêneres – para isso é óbvio e urgente uma desvinculação da cultura com o turismo e o lazer. Esta verba só poderia ser usada  para o real fomento da produção cultural, via editais para todas as áreas e complementação do fundo de cultura, manutenção dos espaços culturais e atos similares. Mostras de teatro, dança e etc teriam de ser estudadas caso a caso, porque não adianta nada, a irradiação de produções de grupos e artistas convidados na cidade, se a produção dos artistas locais não receber o mesmo tratamento e incentivo dado a estes grupos e artistas.  Isto vale também para algumas entidades privadas que atuam na esfera pública, como o Sesc e o Sesi. A tragédia dos grupos teatrais na região é um exemplo: Cubatão já teve mais de 40 grupos de teatro produzindo espetáculos e hoje este número foi reduzido a apenas um. Todos foram extintos por falta de uma política púbica que os incentivasse a produzir, em compensação as favelas e condomínios cresceram 100%. Para mim, uma coisa se relaciona com a outra, mas não irei aqui, dar aula de sociologia do óbvio. A cultura que predomina na região é a cultura das drogas, que recentemente fez mais uma vítima, o cantor e compositor Chorão.

Deixo estas sugestões para serem discutidas pelas câmaras municipais e pelo povo em geral. Em outra ocasião escreverei sobre o papel cênico das câmaras municipais dentro do processo chamado de democrático: sempre me pergunto, que partido representa os presidiários? Que partido representa os moradores de rua? Estas minhas perguntas são mais do que uma provocação. É fácil perceber que detesto essa visão em partes de um todo social, esta visão onde é feito um recorte por grupos e seus interesses em detrimento das necessidades (e até dos direitos) dos humilhados e ofendidos, ou seja, ‘de quase todos’.

Sobre “As Vantagens de ser Invisível”

Antes uma nota da Wikipédia – a partir desta coluna contarei com a colaboração deste precioso instrumento de pesquisa: The Perks of Being a Wallflower (No Brasil e em Portugal: As Vantagens de Ser Invisível) é um filme que foi lançado 21 de setembro de 2012 nos Estados Unidos e em 19 de outubro de 2012 no Brasil. É estrelado por Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller, como Charlie, Sam e Patrick, respectivamente. É a adaptação do livro homônimo de Stephen Chbosky.

Cortado e colado isto, vamos ao comentário: a primeira coisa que louvo no filme é que seu diretor não isola completamente o protagonista do filme por causa da doença, no caso, esquizofrenia, algo que acontece no filme brasileiro “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodansky,  e em “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman: a doença é filmada  totalmente inserida dentro de um tecido social de uma escola secundária americana. É comum nos filmes, o diferente-outro ficar isolado em um casulo de semi-incomunicabilidade e solidão-fechada, seja ele um poeta, um agente secreto, um super-herói, um índio ou uma criança e isto, prestem bem atenção, não acontece no filme de Stephen – parece acontecer, mas não acontece. Outra coisa que me chamou atenção foi que ele praticamente prega a possibilidade de associação e diálogo  entre os diferentes, um menino que se descobre e assume abertamente sua homossexualidade é o ponto dialógico com outro que assume publicamente sua diferença chamada pela medicina de patológica e, tratada assim no filme, com uma rara delicadeza e sutileza. O uso da canção pop feita pelo diretor é exemplar: a canção é usada para transmitir estados emocionais do protagonista e não apenas como um instrumento de empatia com o público. Estes e outros elementos tornam este trabalho de Stephen Chobsky um filme singular dentro da cinematografia americana. É interessante também, observarmos como o longa costura o perigoso estado da paixão e o do já banal uso de alucinógenos com o perigoso estado de iminência de um surto esquizofrênico. A inteligência e pulsação poética da cena do surto esquizofrênico o aproxima de “O Clube da Luta”,  de David Fincher. “As Vantagens de Ser Invisível” é um grande filme a ser descoberto nas locadoras e camelôs.

Livro do mês:

adesobedienciacivilNotas finais: Aguardem para breve brevíssimo meu novo livro de poesia e prosa Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio a sair pela Editora Patuá de São Paulo e o plaquete David Lynch: Poemas,  que será lançado pela editora Demônio Negro, também de São Paulo.

Até a próxima coluna, comparsas!

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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