Minhas histórias em salas de cinema

"O Feitiço de Áquila"
“O Feitiço de Áquila”

A primeira vez que visitei uma sala de cinema foi para ver “E o vento levou…”. Eu não entendi nada, devo até ter dormido durante o filme. Lembro-me da situação, mas não das sensações. Fecho os meus olhos e eu apareço em minha cena mental, com meus pais ao meu lado, segurando minhas mãos enquanto eu adentrara a sala.

No entanto, só fui assistir de verdade a este filme, anos depois, já adolescente, e claro, consciente. Repetir alguma fala do longa ou simplesmente declarar que ‘E o vento levou’ era um clássico constituía-se, na época, um grande e prestigiado botton pregado na lapela da blusa. Algo assim, honroso.

Eu fiquei impressionada em constatar como o filme era antigo. Ficava pensando se os atores ainda estavam vivos e achei incríveis várias cenas.

Mas as coisas não foram sempre assim tão fáceis. Há filmes que são feitos para ser assistidos naquela temporada. Deve ser algo meio astral, do universo mesmo. O fato é que se você experimenta assistir meses ou anos depois, não têm a mesma graça. Isso já aconteceu com você?

Eu tinha por volta de oito anos e já me considerava adulta. É que com sete anos eu ainda era criança, mas automaticamente, após ter completado oito anos eu me vi adulta. E quem explica essas coisas? Mas o que quero contar é que entrou em cartaz o filme “O Feitiço de Áquila”. Esse é um assunto difícil ainda. Bem, minha mãe não me deixou ir com a turma da rua que era pra lá de maluca.

É de se imaginar o que um NÃO de sua mãe pode fazer em certos momentos da vida: chorei, esperneei, implorei, mas de nada adiantou. O chato foi escutar toda a turma contar detalhes de cada cena do filme. Eu me lembro de que ficava horas deitada na cama imaginando as cenas. E claro, eu era a personagem principal.

Sim, cresci com o trauma. Várias vezes, enquanto estava em alguma reunião de amigos e quando começavam a falar de filmes legais, citavam este. Anos mais tarde (2.010), encontro o DVD do dito cujo. Preparo a sala, peço pizza, apago a luz e abro a Coca e poxa…

"Grease"
“Grease”

Eu sei que o filme na época foi um sucesso. Mas ali, na minha sala, mesmo com um cardápio caprichado, após tanta expectativa, não achei tudo isso. É claro que superestimei a produção. Mas por favor, não me julguem. Acontece que fiquei anos escrevendo-supondo o enredo e as cenas na minha cabeça. E também, eu já não era a mesma menina de doze.

O mesmo aconteceu com “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”. Este conseguiu ser mais sofrível por causa da trilha sonora que impregnou na boca das meninas da época. Minhas amigas da rua, para minha tristeza, não paravam a cantarolar sem parar: “Tell me more, tell me more pararararará” pra lá e pra cá. Nem preciso dizer que fui impedida de assistir ao filme no cinema com meus amigos. Também nem preciso dizer que não foi a mesma coisa assistir séculos depois à película juvenil na sala de casa. Fiquei apenas imaginando se eu tivesse assistido a estes dois filmes na época certa. Fiquei apenas pensando na menina que eu fui. Mas passou.

Bem, não resta dúvida de que há certa magia em assistir a um filme em cartaz, pegar a fila, sair comentando e tudo mais. E mesmo que depois a gente consiga capturar um DVD ou coisa do tipo, não é a mesma coisa.

Mas minha história com salas de cinemas também tem outros personagens. Aconteceu faz uns anos. Após um tempo separada, conheci um cara legal. Quer dizer, parecia legal. Acontece que o moço já foi avisando que não tinha paciência para cinema. Que não aguentava ficar numa sala de cinema esperando um filme acabar. Concluí então que o bonitinho também não teria paciência para possíveis crises tão previsíveis num relacionamento. Desisti, claro. Mas como explicar? Foi difícil.

Em 2007, um amigo me convidou para assistir ‘Um beijo roubado’. Ele já havia tentado assistir, mas saiu na metade do filme por não aguentar o sofrimento da personagem principal que insistia numa história de amor que só existia na cabeça dela. Fomos e ele não segurou na minha mão. Talvez, por causa disso, eu tenha ficado a fim dele. Por causa de outras coisas também. Tempos depois ele ficou a fim de mim, mas estávamos em temporadas diferentes, coisas de cinema. E meu encantamento por ele já não estava mais em cartaz.

No mesmo ano, enquanto recebia a visita da minha mãe, propus um cineminha com ela. Não lembro o motivo, mas ela recusou. Pelo menos me deixou ir, né? (Risos). Então convidei uma amiga para assistirmos juntas ‘Irina Palm’. Dessa vez, nem li a sinopse e até hoje agradeço à poderosa Ísis por minha mãe não ter ido. Nossa, como agradeço!

"Irina Palm"
“Irina Palm”

Agora pergunto: algum de vocês que leem agora esta coluna, já assistiram a este filme? Se a resposta for negativa, por favor, assistam! Mesmo não estando em cartaz, com possíveis prejuízos nas sensações geradas de assiti-lo na sala da casa de vocês, eu ainda assim, recomendo.

O filme conta a história de Maggie, uma viúva com cinquenta e poucos anos que, para pagar o tratamento caríssimo de seu neto, aceita um emprego em uma boate no Soho, bairro londrino, onde se torna uma “recepcionista”. Maggie recebe uma inusitada tarefa em seu emprego: masturbar os homens através de um buraco, separados por uma divisória. E querem saber? Ela era boa! Faziam filas enormes para ela e as outras “recepcionistas” não gostaram muito. Logo Maggie recebe o apelido de “Irina Palm”: dona das mãos mais macias de Londres.

O filme é imperdível, aclamado no Festival de Berlim, mistura drama e comédia. Até hoje fico pensando se minha digníssima mãe tivesse ido comigo. Eu iria ganhar umas boas bolsadas, pois ela iria pensar que se tratava de vingança atrasada. Mas eu juro que não foi isso.

Bem, meus queridos, eu me despeço aqui já avisando que vou assistir amanhã ao novo filme da Audrey Tautou, “Therese D”. Este não vou deixar passar, afinal já estou bastante grandinha e minha mãe não irá me impedir. (Risos). E se der, depois eu converso com vocês a respeito. Eu sempre gosto demais dos filmes dela. Ah! E muito obrigada a todos que acompanham esta coluna. Um forte abraço, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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