Infernais

"Advogado do Diabo"
“Advogado do Diabo”

Eu ouço, leio e releio por toda parte as reclamações populares contra os problemas pelos quais a sociedade passa e não “enfrenta”; não faz nada para mudar o quadro.

Em texto anterior – aqui mesmo no CineZen – nós comentamos sobre a dengue e as soluções que estão ao alcance de todos, mas ninguém se mexe, nem mesmo quando volta ao normal, depois de sofrer com a doença, as dores e outros males que ela causa.

Somos naturalmente indolentes (seria o calor?) e esperamos sentados – geralmente em frente à televisão ou de um copo com cerveja – que alguém faça alguma coisa, enquanto a cidade enfrenta mais uma mortal epidemia de dengue.

O Porto de Santos está quase paralisado, há dias, porque o homem moderno vive de teorias que propiciam um “canudo”, muitas vezes inútil em termos práticos; estudam logística (é a palavra do momento…Há outras!), mas não sabem usar a lógica, o bem senso e muito menos os cérebros, algumas vezes já atrofiados.

Os devastadores de florestas fazem da terra o pasto ou a lavoura que lhes permita lucros imensos, mas não cuidam da própria sobrevivência como seres humanos, dependentes de água e de sombra.

As sementes híbridas se transmutam, crescem mais rapidamente e se multiplicam, enchendo a terra de verdes rasos e temporários, cujo fruto deve ser colhido com rapidez, antes que a chuva volte – agora em momento inoportuno – pondo tudo a perder.

O governo auxilia os grandes plantadores – assim como auxilia, quase sempre de forma errada e sem fiscalização, os grandes pescadores – financia máquinas, insumos e silos, mas somente os dois primeiros acontecem; quando acontecem!

A colheita não tem onde ser armazenada e segue diretamente, em caminhões ou em raros vagões (as ferrovias foram sucateadas sob a batuta de governos anteriores. Vivas ao petróleo e à indústria automobilística) para os portos de embarque, onde os operadores também não têm local suficiente para armazenarem tudo o que chega de cambulhada, e chega, e chega e o porto pára, atravancado pela incompetência pública e pela má-fé privada.

A cidade cresce em torno do porto e dos sonhos megalomaníacos mar adentro em forma de plataformas.

A ilha incha de novas construções a caminho do céu e de gente em terra; aderna, baderna.

Gente que só se sente gente quando se aboleta sobre quatro rodas, geralmente financiadas a perder de vista ou de prazo, facilitadas (?) pela demagogia inconsequente e vão entupindo as velhas estradas e as vias urbanas estreitas, quase tão antigas quanto o país. Falta espaço físico, não é questão de sexo; é física.

Então, os que sabem se expressar e querem, vão aos jornais e às redes sociais para reclamarem que o trânsito caótico e impossível os impede de circularem sobre suas máquinas individuais, infernais…

Ora! O diabo que os carregue…

10 thoughts on “Infernais

  1. Eu ainda ia ao porto, no início dos anos 2000, e os caminhões já travavam tudo.
    Imaginbe agora. Mas isso não ficará assim. Vai piorar. É como os obesos mórbidos.
    O médico diz: “Se o senhor comer mais um, explode.

  2. É isso mesmo, Carlos. Tudo confirma a tese do homem lobo do homem e que fazemos nosso próprio inferno. Parabéns pela lucidez de sempre!

  3. E ainda vem a mídia dizer que “brasileiro é louco por carro…”

  4. Tudo tem que mudar no Brasil, leis, educação, saúde, família, para que a ignorância fique erradicada. Isso vai tempo, sendo necessária a vontade política e do povo. Será que existe essa vontade ou é mais fácil acomodar-se? A corrupção sustenta “brasileiros de araque”… então…

  5. Esse é o quadro, a foto, de nossa infraestrutura. O interessante e triste é que está assim, a mesma foto, há mais de quarenta anos. Muita gente se locupletando e a maior parte pagando. Até quando?

  6. A coisa vem degringolando aos poucos e sistematicamente, Miro.
    Agora chegamos ao ponto de saturação e, aí, como dói no bolso, eles gritam.
    Nesse “inferninho”, o único responsável pelos custos continua sendo a mão-de-obra. O lado fraco dessa corda, com a qual eles deveriam se enforcar.
    Entretanto, eles continuam buscando a obesidade, ainda que mórbida e imoral.
    Abração!

  7. Obrigado pela visita, leitura e comentário amigo, Madô.
    Continuamos pondo lenha da fogueira na qual deveremos ser queimados.
    É o homem “racional” em ação. Até quando não se sabe.
    Abraços!

  8. Ah, Germano, a mídia é cega, surda, muda e interesseira.
    Viva a Páscoa!
    Ai, os meus ovinhos…
    Forte abraço e cuidado com o cigarro.

  9. Realmente, Maria Nilcéia, a mudança teria de ser “ampla, geral e irrestrita”…
    Mas a ignorância é essencial, é a base para os detentores do poder, quaisquer que sejam eles.
    Nesse ponto, a vontade política aí está, firme, inabalável e insaciável.
    A vontade popular continua a mesma e é atendida à farta: pão, circo (futebol) e sacanagem.
    E…La nave và al fondo.
    Adio! (pode ser em português ou em italiano)

  10. Jansen

    Venho aproveitando bem o meu eReader em filas de espera e em consultórios médicos.
    Ainda ontem eu fazia uma anotação em um trecho do livro “À Beira da Linha”, de Nilson Guirardello.

    Um livro interessante, que conta a história da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e vai mostrando que a corrupção – que já existia durante o Governo Imperial – foi multiplicada já no início da República.
    A foto é histórica, meu amigo, e aparentemente indestrutível.
    Ela parece também não aceitar retoques; qualquer tentativa só piora a imagem.
    O jeito talvez seja rasgar o negativo comum e antigo, para começar de novo.
    Sem previsão!

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