A culpa é do cinema? (segunda parte)

nuncatFaz quinze dias que passei por aqui. Faz quinze dias que insinuei que o cinema nos torna insuportavelmente românticos e, incrivelmente, ninguém me bateu. Talvez porque pouca gente tenha lido este texto ou então, quem leu, calou-se a pensar um pouco.

Assim, inicio hoje este meu texto menos armada. Desta vez, um pouco mais doce e mais terna. A coisa toda aconteceu de forma improvável: eu fui bombardeada com um texto do Drummond e amoleci. Eu estava indo bem, confesso. Vou até deixar o texto dele aqui para que vejam que não exagero. Eu tentando ser menos romântica e vem esse velhinho lindo e me dobra “facinho”.

De tudo que vemos por aí sobre o amor, ele nos fala de quando um homem ama o coração de uma mulher. Talvez aí sim resida a verdadeira essência do amor.

Mas voltando aos meus textos, estes têm uma maneira bem peculiar de nascer: crescem na barriga, na cabeça, em meu interior, tipo gravidez mesmo.

Converso com os amigos, consulto livros, presto atenção até no que o cara do carrinho de pastel fala enquanto espero pelo meu de queijo.  Assim o texto vai sendo gerado. São quinze dias de gestação e as ideias vão ganhando forma até manchar este papel.

Mas então, aconteceu algo pelo qual não esperava, como eu disse acima: encontrei um texto do Drummond que me adocicou o olhar, que me deu certa esperança e já não pude escrever o mesmo texto. E agora não posso dizer que esta segunda parte obedece ao pensamento inicial proposto. Perdoem-me!

A verdade é que muita coisa acontece em quinze dias. Muita coisa mesmo. Em quinze dias a gente pode mudar de ideia quanto à nossa profissão; pode apaixonar-se por um amigo ou desconhecido; desapaixonar-se; mudar de casa; emprego; morrer; engravidar.

Tanta coisa pode acontecer nessas quinze luas, nesses quinze sóis. E como dizer que eu seria a mesma de quinze dias atrás? Bem, depois do texto do Drummond, tive de reconsiderar.

Durante estes quinze dias que separam uma postagem da outra, eu ainda pensei em filmes e cenas que fincam certos conceitos românticos em nosso subconsciente nos fazendo cometer insanidades em nome de um amor que só existe no universo ilusório dos contos de fadas.

Também pensei em como se busca o cinema feito consultório sentimental. Eu mesma já vi muita gente escolher filme olhando para as duas linhas explicativas no cartaz e dizer: “Acho que preciso assistir a esse filme”.

Mas então, o cinema cura, estraga ou ilude?

Bem, depois de quinze dias pensando, eu não tenho resposta. E nem quero ser dona de uma. Arrisco-me apenas a suspeitar que ele reforce tuas tendências, mais ou menos como o vinho tira de você sentimentos guardados. Se você tem o dom de ser romântico, vai encontrar em inúmeros filmes motivos para isso. Se você é frio e calculista, também vai ser apoiado nessa forma de viver e ver as coisas.

Na verdade, vivemos e levamos a vida conforme enxergamos as coisas. Tudo depende de nossa visão e no que acreditamos. A nossa essência vai ‘pinçar’ neste grande universo coletivo e imaginário aquilo que nos apraz.

nunca te vi 4Bem, quanto à absolvição do cinema, ainda é cedo para liberá-lo de minhas investigações. O que já pode ser afirmado é que ele nos traduz e revela, feito aquele líquido denominado contraste, utilizado em exames de tomografia computadorizada, o que guardamos lá dentro.

Há, em minha lista mental, um filme cúmplice de meu jeito torto de amar. Mas dele, diferente dos outros que citei na primeira parte do meu texto, não vou extrair frases. Apenas sugiro aqui que assistam. Desconfio mesmo de que irão gostar deveras.

Ele conversa com o texto de Drummond por mim aqui apresentado ao final:  “Nunca te vi sempre te amei”. Com certeza, muitos de vocês já ouviram falar. Este filme funciona como uma tatuagem no meu antebraço.  Ou ainda como um código colocado em meu cérebro sem minha permissão, mas com força voraz a ponto de fortalecer em mim o mito do amor puro.

O filme, que também foi antes livro, fala de uma amizade inusitada entre Helene e Frank, vividos respectivamente por dois monstros: Anne Bancroft e Anthony Hopkins. Ela uma roteirista e ele um livreiro. É um filme baseado no livro da escritora Helene Hanff. Durante 20 anos eles trocaram correspondências sem se conhecer pessoalmente. Na época, os livros raros em Nova York eram muito caros e ela, uma roteirista ainda buscando reconhecimento, adquiria livros desta livraria em Londres.

Mas iam além: trocavam cartas falando destes mesmos livros e de suas impressões. Desta forma foi crescendo uma admiração mútua. O filme foi um sucesso e hoje é um clássico. É assistir pra ficar dando razões ao coração.

Bem, eu espero que vocês continuem bebendo Cinema e Literatura com o mesmo prazer que eu. Deixo aqui o motivo do meu desvio de pensamento, o texto do meu poeta preferido para que percebam que não fui vencida por qualquer roteirozinho, mas pela bela trama amorosa drummondiana.

Porque agora eu sei que o verdadeiro amor é quando você ama o coração de alguém. Com meu carinho por todos vocês, Mô.

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Carlos Drummond de Andrade

John Blanchard levantou do banco, endireitando a jaqueta de seu uniforme e observou as pessoas fazendo seu caminho através da Grand Central Station.

Ele procurou pela garota cujo coração ele conhecia, mas o rosto não: a garota com a rosa. Seu interesse por ela havia começado trinta meses antes, numa livraria de Florida. Tirando um livro da prateleira, ele se pegou intrigado, não com as palavras do livro, mas com as notas feitas a lápis nas margens. A escrita suave refletia uma alma profunda e uma mente cheia de brilho. Na frente do livro, ele descobriu o nome do primeiro proprietário: Srta. Hollis Maynell. Com tempo e esforço ele localizou seu endereço.

Ela vivia em New York City. Ele escreveu-lhe uma carta, apresentando-se e convidando-a corresponder-se com ele. Na semana seguinte ele embarcou num
navio para servir na II Guerra Mundial.

Durante o ano seguinte, mês a mês eles desenvolveram o conhecimento um do outro através de suas cartas. Cada carta era uma semente caindo num coração fértil. Um romance de companheirismo. Blanchard pediu uma fotografia, mas ela recusou… Ela pensava que se, realmente, ele se importasse com ela, sua aparência não importaria… Quando finalmente chegou o dia em que ele retornou da Europa, eles marcaram seu primeiro encontro – 7:00 da noite na Grand Central Station em New York.

“Você me reconhecerá”, ela escreveu, “pela rosa vermelha que estarei usando na lapela”. Então, às 7:00 ele estava na estação procurando por uma garota cujo coração ele amava, mas cuja face ele nunca havia visto. Vou deixar o Sr. Blanchard dizer-lhe o que aconteceu:

“Uma jovem aproximou-se de mim. Sua figura era alta e magra. Seus cabelos loiros caíam delicadamente sobre os seus ombros; seus olhos eram verdes como água. Sua boca era pequena; seus lábios carnudos e seu queixo tinha uma firmeza delicada. Seu traje verde pálido era como se a primavera tivesse chegado. Eu me dirigi à ela, inteiramente esquecido de perceber que a mesma não estava usando uma rosa. Como eu me movi em sua direção, um pequeno provocativo sorriso, curvou seus lábios.

“Indo para o mesmo lugar que eu marinheiro?”, ela murmurou.

Quase incontrolavelmente dei um passo para junto dela, e então eu vi Hollis Maynell. Ela estava parada quase que exatamente atrás da garota. Uma mulher já passada dos 50 anos, ela tinha seus cabelos grisalhos enrolados num coque sobre um chapéu gasto. Ela era mais que gorducha, seus pés compactos confinavam em sapatos de saltos baixos.

A garota de verde seguiu seu caminho rapidamente. Eu me senti como se tivesse sido dividido em dois, tão forte era meu desejo de segui-la e tão profundo era o desejo por aquela mulher cujo espírito, verdadeiramente, me acompanhara e me sustentara através de todos as minhas atribulações. E então ela parou! Sua face pálida e gorducha era delicada e sensível, seus olhos cinzas tinham um calor e simpatia cintilantes. Eu não hesitei…

Meus dedos seguraram a pequena e gasta capa de couro azul do livro que a identificou para mim. Isto podia não ser amor, mas poderia ser algo precioso. Talvez mais que amor, uma amizade pela qual eu seria para sempre cheio de gratidão.

Eu inclinei meus ombros, cumprimentei-a mostrando o livro para ela, ainda pensando, enquanto falava, na amargura do meu desapontamento.”

“Sou o Tenente John Blanchard, e você deve ser a Srta. Maynell. Estou muito feliz que tenha podido me encontrar. Posso lhe oferecer um jantar?” perguntou o cavalheiro.

O rosto da mulher abriu-se num tolerante sorriso:

“Eu não sei o que está acontecendo”, ela respondeu, “aquela jovem de vestido verde que acabou de passar me pediu para colocar esta rosa no casaco. Ainda me disse que, se você me convidasse para jantar, eu deveria lhe dizer que ela estaria esperando por você no restaurante de esquina. Me disse que isso era um tipo de TESTE!!

Não parece difícil, para mim, compreender e admirar a sabedoria da Srta. Maynell. A verdadeira natureza do coração de uma pessoa é vista na maneira como ela responde ao que não é atraente.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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