Amor Impossível: Fábula moral tem drama, fantasia, comédia e romance

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Vimos “Salmon Fishing in the Yemen”, no Brasil “Amor Impossível”, dois dias depois do anúncio dos indicados ao Globo de Ouro; o filme teve indicação para melhor comédia ou musical. Na locadora, está classificado como drama.

“Salmon Fishing in the Yemen” é mesmo um filme difícil de classificar. Não é propriamente uma comédia – embora tenha muito humor e diversas situações engraçadas. Não é um drama – embora tenha drama. Tem romance, sim. Tem algo de ficção/fantasia. Tem muito de sátira política. É uma fábula moral.

Duas coisas, no entanto, são incontestáveis. A primeira: é um belo filme. A segunda: “Amor Impossível” é a senhora progenitora de quem teve a infeliz ideia de dar esse título.

E nem dá para acusar os exibidores brasileiros, useiros e vezeiros em criar títulos ridículos, tipo “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” ou “Os Brutos Também Amam”. Desta vez eles não erraram sozinhos. Segundo o IMDb, o filme se chamou “Un Amor Impossible” na Argentina, “Amor Impossible” no Peru.

Em Portugal, optaram pela tradução literal, que tem todo o sentido: “A Pesca do Salmão no Iêmen”. Na França, foi “Des Saumons dans le Désert”. E na Itália foram românticos: “Il Pescatore di Sogni”. Menos mal “Salmões no Deserto”, “O Pescador de Sonhos” – estão próximos do original. Mas “Amor Impossível”…

Uma moça inteligente, esperta, de uma agência de investimentos, e um  burocrata estatal

O filme trata de pesca de salmão no Iêmen. Abre com a personagem interpretada por Emily Blunt, essa garota talentosa e bela, escrevendo este e-mail:

– “Prezado Dr. Jones, representou um cliente com acesso a fundos bastantes consideráveis, que manifestou o desejo de patrocinar a introdução do salmão e do esporte de pesca do salmão no Iêmen. Gostaria de encontra-lo para determinar como esse desafiador projeto poderia ser iniciado. Eu poderia acrescentar que o Ministério de Relações Exteriores apóia o projeto, como símbolo da cooperação anglo-iemenita. Atenciosamente, Harriet Chetwood-Talbot, da Fitzharris & Price, Consultores de Investimento.”

É final de expediente de uma sexta-feira. Mensagem enviada, Harriet Chetwood-Talbot (os sobrenomes dobrados, com duas palavras unidas por um hífen, em geral indicam, na classista sociedade inglesa, famílias antigas, tradicionais, de gente rica, e portanto educada nas melhores escolas) despede-se de uma colega de trabalho. A colega brinca com ela a respeito de seu novo namorado, um militar.

O espectador vê que as dependências da Fitzharris & Price, Consultores de Investimento, indicam que é uma firma grande e muito, muito, muito próspera.

E, na rua, diante do prédio da empresa, Harriet se encontra com o namorado de poucas semanas, o capitão Robert Mayers (Tom Mison). Estão naquela fase de início de história, em que tudo brilha, resplandece, e sininhos tocam nos ouvidos dos recém-enamorados.

Corta, e vemos o dr. Jones, Alfred Jones (interpretado por Ewan McGregor), diante do computador de sua casa, respondendo à mensagem que recebera.

Detalhinho para quem não costuma reparar nesses pequeninos indícios do classismo da sociedade inglesa: de um lado, uma Chetwood-Talbot. Do outro, um Jones – algo como o sobrenome americano Smith, ou o brasileiríssimo Silva.

Veremos que Harriet Chetwood-Talbot de fato teve extraordinária formação, e portanto certamente veio de família rica. Alfred Jones é – dá para sentir pela maneira com que o personagem nos é apresentado – de origem mais humilde, provavelmente filho da working class, que ascendeu na escala social graças a muito estudo. É uma autoridade na área da piscicultura, e trabalha como pesquisador num órgão vinculado a algum ministério. Como a imensa maior parte dos funcionários públicos, ficou preguiçoso.

“Cara Harriet Chetwood-Talbot, obrigado por seu e-mail. Como especialista em pesca, direi algumas palavras sobre o salmão. Salmonídeos precisam de água fria e bem oxigenada para desovar. E, no início do ciclo de vida, um bom suprimento de insetos nativos dos rios do Norte da Europa é necessário para que os salmões jovens ou filhotes sobrevivam. Há uma distância considerável até o Oceano Índico ou o Mar Veremlho, como estou certo de que você sabe, embora o Ministério de Relações Exteriores pareça não saber. Concluímos que as condições no Iêmen tornam o projeto inviável.”

Enquanto digita sua resposta, o doutor especialista a lê para a esposa, Mary Jones (Rachael Stirling), ela também uma profissional com formação universitária, que em breve será enviada para um posto em Genebra, provavelmente ligado à ONU. Mary faz um adendo, que o marido aceita e acrescenta ao final de sua resposta à educada mensagem da empresa de investimentos:

– “Fundamentalmente inviável.”

O governo britânico precisa desesperadamente de uma boa notícia sobre Oriente Médio

Corta, e conheceremos o terceiro personagem importante dessa quase comédia-drama-romance-ficção/fantasia-sátira política-fábula moral. O telefone toca no meio da noite e acorda Patricia Maxwell (o papel de Kristin Scott Thomas), chefe da assessoria de imprensa do governo britânico. Má notícia no Afeganistão: uma mesquita está em chamas. Para o subordinado que ligou para dar a informação, Patricia Maxwell decreta o que deve ser feito: “Os britânicos não têm absolutamente nada a ver com isso. Quero que todo afegão, homem, mulher criança ou cabra, saiba disso!”

E pela manhã, no escritório, dá a ordem a seus funcionários:

– “Precisamos de uma boa história do Oriente Médio.”

Uma boa história. Uma notícia positiva, que mostre ao mundo que o governo britânico quer colaborar – e colabora – com os países muçulmanos.

Alguém envia para Patricia Maxwell o e-mail enviado por Harriet Chetwood-Talbot para um tal de dr. Jones, cujo assunto é “Salmon fishing in the Yemen”.

E de repente aquele projeto maluco, visionário, sonhador, “inviável”, segundo o douto doutor Jones, “enfeasible” (enfeasible soa ainda mais inviável do que inviável, não?), torna-se prioridade para o governo britânico.

E então o espectador conhecerá o quarto personagem central dessa deliciosa trama, o xeque Muhammed (Amr Waked).

O xeque Muhammed é tão biliardário quanto visionário, sonhador. Estudou na Inglaterra, tem paixão pela cultura inglesa; possui diversas propriedades nas Ilhas Britânicas, uma delas um castelo de sonhos, perto de um riacho de águas sempre frias e bem oxigenadas, onde gosta de pescar.

Ele é o cliente da Fitzharris & Price, Consultores de Investimento que possui “fundos bastantes consideráveis”, com os quais gostaria de “patrocinar a introdução do salmão e do esporte de pesca do salmão no Iêmen”.

É um sonhador, um visionário. E um homem de fé.

Se a fé remove montanhas, por que a fé – com a ajuda de fundos bastante consideráveis – não poderia introduzir o salmão no Iêmen?

Só mesmo na Inglaterra órgãos oficiais financiariam uma sátira tão virulenta ao governo

Começará então uma guerra entre a competente funcionária da iniciativa privada e o douto especialista em pesca de salmão – douto, preguiçoso, acomodado, funcionário público, obtusamente agarrado aos princípios do já conhecido e comprovado, sem a mínima vontade de experimentar coisas novas.

Estão excelentes, esses dois grandes atores, o experiente e incansável Ewan McGregor e a jovem e já bem testada (além de testuda) Emily Blunt. Ele teve indicação ao Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical, e ela, de melhor atriz.

O retrato que o filme do sueco há muitos anos radicado nos Estados Unidos Lasse Hallström faz, nesta produção inglesa, do serviço público britânico, da política britânica e da imprensa britânica, é absolutamente arrasador. É o ponto em que Salmon Fishing in the Yemen é sátira política – e uma sátira virulenta.

Observadora atenta de tudo que se refere a política, Mary notou que só mesmo na Inglaterra um filme produzido em parte pela estatal BBC, com dinheiro do UK Film Council, o conselho de cinema do Reino Unido, através de fundos da Loteria nacional, poderia se dar ao luxo de meter tão desbragadamente o pau em instituições do próprio governo.

Uma fábula sobre a brutal distância entre os sonhadores e os fundamentalistas

Introduzir a pesca de salmão no meio do deserto do Iêmen de fato é profundamente ilógico. Algo mais ou menos como instituir um campeonato de vôlei de praia em Tromsø, no extremo norte da Noruega, ou de hóquei no gelo bem no meio do Saara. Aí entra o aspecto ficção/fantasia nessa história fascinante criada pelo escritor Paul Torday e roteirizada por Simon Beaufoy, o autor dos roteiros de “Ou Tudo ou Nada”/The Full Monty, aquela deliciosíssima brincadeira sobre o desemprego nos anos Margaret Bloody Thatcher, “Yasmin, Uma Mulher, Duas Vidas”, filme seriíssimo sobre racismo na Inglaterra de hoje, e o premiadíssimo “Quem Quer Ser um Milionário?”.

O próprio xeque Muhammed dirá, quando, para tristeza do espectador, este “Salmon Fishing in the Yemen” está chegando ao fim, que a pesca de salmão em si não é o que importa. É um exemplo, uma imagem, uma metáfora, uma parábola, uma fábula.

O filme de Lasse Hallström passa a anos-luz da comédia quando mostra o mal que o fundamentalismo é capaz de fazer ao mundo.

En passant, quase como quem não quer nada, Lasse Hallström, um diretor chegado à delicadeza, à elegância, à sutileza, faz uma fábula sobre a brutal distância que separa, no mundo muçulmano, os sonhadores, os idealistas, do fundamentalismo ignorante, retrógado, medieval.

Agora, o título “Amor Impossível”… Tsc, tsc…

amorimpossiveldvdAmor Impossível
2011. Comédia / Drama / Romance. De Lasse Hallström. Com Ewan McGregor (Dr. Alfred Jones), Emily Blunt (Harriet), Kristin Scott Thomas (Patricia Maxwell).
107 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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