A garota que veio do sul

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Hushpuppy é uma menina do sul, mas poderia ser do norte. A garota da canção de Bob Dylan, aquela que uma vez, há muito tempo atrás, foi o verdadeiro amor de alguém.

Lá, tudo é textura. Posso sentir o odor do lixo morto misturado com a carne viva humana.

“Carne, carne. Tudo é feito de carne” – repete a professora para explicar que afinal, somos todos parte do mesmo Cosmo.

Hushpuppy aprendeu a ferro a lição, quando afirma com sabedoria que é “uma pequena peça em um grande, grande universo”.

Ela tem razão.

De onde vem, o lixo é humanizado de maneira estética – cores combinam, padrões dialogam. É o mundo de uma menina de seis anos que habita sozinha, com uma autonomia precoce imposta pelo pai, uma casa na árvore em versão metal. No seu mundo, tudo é adaptado e reciclado.

Hushpuppy é uma menina do sul, mas poderia ser do norte. A garota da canção de Bob Dylan, aquela que uma vez, há muito tempo atrás, foi o verdadeiro amor de alguém.

Ela foi concebida em 4 minutos – conta o pai. Algo mítico, eu diria. A mãe domou, com tranqüilidade, e cozinhou um jacaré e serviu – o como alimento à sua presa humana. Era uma guerreira, uma Ártemis arisca, uma Diana caçadora. Finda a refeição, a concepção, fugiu mata adentro e nunca mais voltou.

Talvez ela ouça de vez em quando, a música de Dylan e pergunte: será que ela usa um casaco quente para protegê-la dos ventos uivantes e frios?.

Hushpuppy, responde, conversa com ela. Simbolicamente, elegeu uma camiseta vermelha – um uniforme de basketball – para ser sua mãe. A cor, para mim, não passa em vão. O vermelho é dos impetuosos, do calor. É o seu casaco quente que aquece Hushpuppy nas noites de tempestade.

Dylan continua a conversa: “Eu fico pensando, se ela lembra de mim. Muitas vezes eu rezei na escuridão da minha noite e na iluminação no meu dia”.

Ela lembra, e procura a cada instante a presença da mãe, em uma comunidade órfã de consumo, onde se ensina o persistir.

A “banheira” é a representação de uma das comunidades ribeirinhas do sul dos Estados Unidos, no Estado de Louisiana.

Um pedaço de “carne” que fica praticamente submerso após a passagem do furacão Katrina em 2005.

O rei Max e o seu súdito – “Onde Vivem os Monstros”, de Maurice Sendak
O rei Max e o seu súdito – “Onde Vivem os Monstros”, de Maurice Sendak

Em uma comparação livre, como devem ser todas as coisas, Max de “Onde Vivem os Monstros”, personagem do livro do consagrado Maurice Sendak e Hushpuppy de “Indomável Sonhadora”, conhecem um truque mágico que altera a ordem natural do universo. Para Max bastava olhar nos amarelados olhos dos monstros sem piscar e enfeitiçá-los.

Com um gritinho, som de uma boca miúda, Hushpuppy lida com o imponderável.

Os dois domesticavam o mistério.

Joseph Campbell afirma que “O material do mito é material da nossa vida, do nosso corpo, do nosso ambiente; e uma mitologia viva, vital, lida com tudo isso nos termos que se mostram mais adequados à natureza do conhecimento da época.”

As feras do sul selvagem intuitivamente partilham da concepção do mito apresentada por Campbell, no sentido em que pulsam em compasso com o coração da terra.

Para Mircea Eliade, o elemento da transgressão aparece também como variante.

“O mito – segundo ele – narra como, graças à façanha dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.”

“Mas ao mesmo tempo, mostra também a natureza transgressora e desafiante do ser humano”, representada aqui pelo pai de Hushpuppy, que encara a senhora tempestade de peito aberto, pela comunidade que se recusa a sair da sua origem, e retorna em um movimento cíclico ao pai, o homem que foi alimentado de jacaré, que luta contra os deuses da peste – ele está irremediavelmente doente.

Hushpuppy, assim como Max, são reis. Ela, o da banheira e ele do mundo dos monstros. Ela não é rainha. Reclama para si o título de “Rei da Banheira”, eleita por unanimidade entre o vapor etílico e as brumas do onírico de sua comunidade.

Esse aspecto fez cativo o meu olhar. Talvez pela ausência da mãe, excesso de pai, a rudeza de condições, ou até um movimento pessoal, o elemento masculino sobrepõe-se como condição de sobrevivência.

“Eu sou o Rei da Banheira”, declara a garota que veio do sul batendo com a força de um gigante, sua mínima bota de plástico preta no chão de terra  encharcada e doente.

Mas penso que também Hushpuppy é fruto de Diana, a senhora das matas de quem herdou o dom de ouvir o som de todas as coisas.

“Sou carne” – possivelmente sussurra , no embate final, em um ouvido da criatura mitológica que a persegue durante a narrativa.

Como num ritual ancestral, uma pausa impõe-se e no outro ouvido – com as mãos em formato de concha revela:  “Você é carne”.

O monstro amansa e nós também.

O rei Hushpuppy e o seu súdito – “Indomável Sonhadora”, de  Benh Zeitlin
O rei Hushpuppy e o seu súdito – “Indomável Sonhadora”, de Benh Zeitlin
Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

9 thoughts on “A garota que veio do sul

  1. Olá, Vivi
    Não é surpresa para ninguém a admiração que eu sinto por você, pela sua percepção de mundo, pelo seu olhar com olhos de ver. Ainda não assisti a “Indomável sonhadora”, mas tenho em meu coração “Onde vivem os monstros”. O paralelo que vc faz entre as personagens me intrigou… onde a maioria (na qual me incluo) talvez só perceba lapsos de semelhança, você é capaz de desbravar um universo subterrâneo e riquíssimo de potencialidades. Tomos temos nossos monstros “preferidos” e por que não considermo-nos também os “Reis da banheira?”.
    Um beijo no seu coração.
    Roberta

  2. Vivi, novamente um texto que traça paralelos entre a linguagem do cinema e as demais, aqui, em particular, a música e a literatura. Você faz uma verdadeira criação sobre as obras cinematográficas que aborda!… Ao assistirmos aos filmes e documentários, estamos impregnados do olhar revelador que você apõe a todos. Um prazer de leitura!…

    Apenas posso tornar a parabenizá-la!

    Bárbara

  3. Vivi:

    Parabéns!!!
    O que vc está esperando, mulher?
    Vc é uma escritora pronta.
    Onde posso ajudar a nossa Mia Couto de saias?

    Bjs
    Malu

  4. Vivi:

    Um grande deleite saborear o seu texto.
    O que posso fazer para ajudar a nossa Mia Couto de saias?
    Parabéns!!!
    Que os Deuses da literatura estejam sempre a lhe acompanhar!!!

    Bjs

    Malu

  5. Cara escritora,
    Domar nosso monstro cravado na carne que somos.
    Gostei demais!

  6. Vivi!!
    Obrigada por aproximar imagens tão queridas – “Onde vivem os monstros” e “Adorável Sonhadora” e assim nos fazer lembrar das possibilidades de nossa condição humana…
    Você é uma feiticeira das palavras!!
    Beijos com afeto e admiração,
    Fabi

  7. Um mundo indomável e sonhador? Tem muitas delas por ai é só olhar a miseria, não talvez com a mesma visão de enfrentamento, mas passando pelas mesmas situações no limite do suportavel do impodenderável !!!

  8. Viviane, após ler seu texto senti a necessidade de rever o filme para poder ver o que não vi, sentir o que não senti, ouvir o que não ouvi na primeira vez. Obrigada por ampliar meu sentidos!!!
    Silvia

  9. Quando vi este filme fiquei realmente chocada em como meu mundo é pequeno e talvez até insignificante comparado a história de uma menina dessas. O ruim é que toda a perspectiva que o filme te dá, pelo menos no meu caso, acaba passando e eu continuo assim. Mas acho que é um debate muito importante. Depois que eu vi o filme até procurei umas coisas do diretor e ele é um cara super jovem achei massa. O que eu mais gosto nesse filme é a câmera como ela fica ali colada nos personagens e nos dá a sensação o tempo todo que estamos dentro dessa banheira.
    E como nosso mundo é algo diferente, por exemplo na cena do hospital o que para nós seria normal permanecer ali até conseguir abrigo, para eles parece uma prisão, um sanatório. E nos dá uma ideia de como eles sobrevivem naquela “prisão” aquática, mas e a nossa prisão que para nós parece uma liberdade? nossa prisão dos celulares e dos computadores, dos compromissos que as vezes nem queremos mas acabamos por nos comprometer e tantas outras prisões.

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