Indomável Sonhadora, as enchentes de Cubatão e a morte do homem que disse ‘Eu não sei fazer poesia, mas que se foda!’

indomavel

Cada coluna que escrevo para o CineZen é como se fosse a última. Não temos nenhuma Cahiers du Cinema por aqui e poderíamos ter algo bem melhor do que isso. Não posso deixar de notar que há mais pessoas escrevendo sobre cinema do que fazendo grandes filmes, e uma parcela da culpa por esse Deja Vu da Idade Média estar acontecendo é que nossos cineastas, quando fazem crítica, são melhores do que seus filmes ou foram todos devidamente transformados em cordeiros-do-marketing das empresas via editais e outros esquemas de controle da produção. Glauber está fora disso, é avis rara, e outro dia desses mandou um papel-pássaro para mim e para o Pedro Rocha, mais um ponto para o óbvio e para a morte vencida por uma estrela dos vivos, Glauber costumava dizer que “Os mortos são as estrelas dos vivos” e ele como sabe quem acompanha esta minha coluna é uma das minhas obsessões, os independentes são a regra, mas não possuem autonomia, salve as avis raras.

Estou escrevendo direto do meu quarto em Cubatão, cidade devastada por várias tragédias, sendo a principal sua classe política. Mais uma vez o óbvio marca um ponto – é assim em praticamente todas as cidades do Brasil. Como alertou o bardo, ninguém consegue saber com precisão onde termina o ato político e começa o ato criminoso. Eu deveria falar sobre a relação entre o filme “Indomável Sonhadora” e as últimas enchentes em Cubatão, mas me cansei de apontar ligações simbólicas entre os filmes e a “realidade”. Vejam “Indomável Sonhadora” que no original se chama “Beasts of the Southern Wild”.

Pensando nas enchentes de Cubatão, é uma experiência assombrosa e com uma lógica mais profunda do que a exibição de O mágico de Oz usando como trilha sonora o disco “The Dark side of the moon”, do Pink Floyd.

No filme de  Benh Zeitlin, a morte é uma besta pré-histórica e o longa dialoga  com “O Labirinto do Fauno” de uma forma original, ampliando um aspecto do filme de Del Toro e praticamente eliminando  mais ainda a fronteira ambígua entre o que é e o que não é real.

Cubatão é uma cidade que foi erigida em cima de um nítido abismo oceânico – estou escrevendo esta coluna  num local que já foi o fundo de um oceano pré-histórico, pensava nisso enquanto via as imagens da semi-tromba d’água pela Internet. Eu estava em São Paulo e, bem depois, em outro momento dentro do fantasma do abismo oceânico, desta vez no cinema vendo “Indomável Sonhadora”, tive a certeza sensível mais nítida de toda a minha vida: a de que a maioria das pessoas que moram  em Cubatão tem o mesmo olhar da menininha do filme, a criança-atriz Quvenzhané Wallis conseguiu decantar em seu olhar dentro do filme ,quase toda a tristeza da vida como tragédia, mas seu gesto no final expressa a possibilidade da transformação de  toda essa tristeza e desilusão em força. E, neste momento, ela tem muito a ensinar aos que perderam tudo na tragédia das enchentes em Cubatão.

Este filme deveria ser exibido nos locais onde as pessoas estão abrigadas. Nada é mais poderoso do que um encontro entre olhares que se voltam para a mesma direção interior, para o enfrentamento do mundo.

chorãodes1Igualmente triste como uma tragédia anunciada, a morte do cantor roteirista e compositor Alexandre Magno Abrão (Chorão), que  cantou em uma canção o refrão: “Eu não sei fazer poesia , mas que se foda!” Refrão que considero tão  importante quanto o ‘fatalmente usado como hino “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, de Geraldo Vandré que aliás, está   muito vivo. Um dia destes eu o vi numa seção do filme “No”, em São Paulo.  Alexandre Magno Abrão (Chorão) não era messiânico como Renato Russo e se comportava como uma fusão de Mário Bortolotto com Serginho Chulapa. Sua morte nada tem de original. Como Cássia Eller, foi “suicidado” por uma crise de depressão. A depressão talvez o levasse se ele sobrevivesse a si mesmo, a criar talvez seu melhor disco. No momento em que os artistas de verdade estão cada vez mais dentro do obscuro e pululam imposturas e carreiristas no chamado campo da arte – eu disse campo, não usarei aqui a palavra mercado -, o uso indiscriminado dessa palavra-ideia-diluição é ele mesmo, um sinal dessa profunda crise da produção de arte. Sem consciência, não pode haver um campo fértil como o dos anos 60, mas o mercado está aí, para criar um milhão de simulacros e hibridismos. Fico com os hibridismos.

É óbvio que o capitalismo é invencível, ele simula os procedimentos da natureza, a competição, a lei do mais forte e etc. Mas os verdadeiros artistas imitam os procedimentos do cosmo, criam cosmologias, uma canção catártica, um verso que nos atravesse, uma frase que instigue um pensamento diferente, estas coisas se movem como supernovas, como galáxias dentro do buraco negro que somos.

Aviso aos navegantes

Neste mês de março, nem tudo são águas, dias 16 em Santos na Pinacoteca, às 18h, e  dia 19, na Casa das Rosas, em São Paulo , no mesmo horário, será lançado o romance do Gilberto Mendes, “DANIELLE em surdina, langsam” (Editora Algol). Gilberto Mendes tem 90 anos e continua criando como nunca. O músico e compositor Chorão morreu aos 42 anos, uma pena eles não terem se conhecido.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

2 thoughts on “Indomável Sonhadora, as enchentes de Cubatão e a morte do homem que disse ‘Eu não sei fazer poesia, mas que se foda!’

  1. É óbvio que o capitalismo é invencível, ele simula os procedimentos da natureza, a competição, a lei do mais forte e etc. Mas os verdadeiros artistas imitam os procedimentos do cosmo, criam cosmologias, uma canção catártica, um verso que nos atravesse, uma frase que instigue um pensamento diferente, estas coisas se movem como supernovas, como galáxias dentro do buraco negro que somos.

    Fantástico!

    É o que eu tinha a dizer.

    Um abraço irmão!

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