Sangue e Cifras… Cifrões

cifrasInterrompi a escrita e atendi ao chamado para o almoço neste sábado ensolarado, quando a dengue já se alça mais uma vez à condição epidêmica e a minha mensagem aguarda ser recebida, talvez na segunda-feira, pois os males da saúde só se discutem até sexta…Se muito!

As idéias viajam no silêncio daquela mesa compartilhada a dois, quando a minha companheira pergunta quando será o jogo.

-Que jogo?

-Santos e Corinthians.

-Ah, não sei! Provavelmente amanhã.

Aí, eu me dou conta de meu desinteresse por esse esporte que já foi o meu forte, o meu vício de todos os dias e caminho para escalavrar os pés, as pernas e os joelhos, correndo atrás de uma bola de meia e, depois, de capão.

Eu gostava mesmo era do futebol da várzea, embora não se visse sempre Garrinchas, Pelés, Pepes, Gilmares e nem qualquer um dos jovens talentos milionários do futebol profissional de hoje.

O garfo vem à boca, volta ao prato automaticamente e a minha atenção vagueia pelos campos da minha infância e da minha mocidade, fosse na beira do gramado, fossem meus dois pés descalços em meio aos outros quarenta e dois correndo atrás da bola, na terra, na areia ou na lama entre um pouco de grama rala.

O futebol não me chama mais a atenção como antigamente, quando à sombra de um pé de mamona – alheia ao futebol que corria solto – rolava solta um roda de bozó ou uma garrafa de cana…Até uma bagana. De repente, brilhava ao sol a lâmina de uma navalha.

Raro, mas podia brilhar também o cano de um “ximite” e até se ouvir o “tec” seco, fruto do cão sobre a espoleta.

Corre pessoal, se espalha…

Eu gostava mesmo era de perceber o sangue correndo, correndo farto pelas veias e não os cifrões que escorrem pelos bolsos ávidos antes de chegarem ao gol, neste imenso vazio de futebol amador e de amor à camisa.

Para mim já era!

4 thoughts on “Sangue e Cifras… Cifrões

  1. …você me fez lembrar do Claudio/marido… moleque em peladas na rua de terra… joelhos e braços sempre ralados… mesmo assim, valia a pena! O goleiro Pedron, atirava-se para agarrar a bola… o chão, as pedras abriam-lhe cortes… sangue na arena! Mas, como era bom esse futebol, pura garra! Pureza de moleque nos tempos de ruas para gente… até hoje, memória!

  2. Eram bons tempos aqueles, Regina, quando podíamos nos ralar sem muitos perigos, pelas ruas das nossas cidades.
    Sim, valia muito a pena.
    Sangue na arena, na área de Pedron, eram marcas de amor, de garra e signo de luta; preparativos para a vida.
    Pureza, mesmo!
    Memórias, sempre.
    Fraterno abraço, madrinha.

  3. Linda a imagem do sangue correndo pelas veias e os cifrões pelos bolsos. Sempre foi assim, mas tem aumentado com o tempo. O que significa um indivíduo possuir valores equivalente a um país?

  4. É verdade, meu caro Jansen, parece que sempre foi assim, mas piora a cada dia.
    Menos sangue nas veias e mais dinheiro nos bolsos, nos bancos…
    Os outros valores vão ficando pelo caminho e a humanidade vai perdendo sensibilidade, a caminho da própria extinção.
    Abração, meu amigo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *