A culpa é do cinema?

“Stuv pensando en ti, xyz de mi problema:
A culpa é do cinema” Belchior

"Cidade dos Anjos"
“Cidade dos Anjos”

Faz algum tempo que li sobre a dor do coração partido. É um mal horrível e real, segundo relatos. Vasculhei, li muita coisa a respeito e, paralelamente, segui meu faro sociológico do objeto a ser decifrado. E pasmem: a coisa é antiga e perigosa. Indignada, achei dois culpados: a literatura e o cinema. Mas nessa, desconfio, o cinema ganhou. Sim, ele é o grande culpado. E foi brincando com a ideia que acabei me deparando com a música do Belchior, com cujos versinhos iniciei este texto. A letra da música, confesso, demanda algum esforço para achar o nexo. Mas quem precisa mesmo de nexo quando o assunto é amor? E Belchior, mesmo fugitivo resgatado pelo Fantástico, pode cantar qualquer coisa que sempre gosto.

Eu sei que talvez vocês queiram discordar e dizer que o cinema apenas retrata aquilo que o povo sente. Pode ser. Mas não se apoquentem não. Nem se apressem. Não há aqui guerras de argumentos ou ideias fixas que não possam ser deixadas a qualquer momento. Afinal, depois dos quarenta a gente não tem mais certeza de nada. Só estou divagando aqui e convidando vocês para um olhar breve sobre o amor e suas dores como um arqueólogo olharia um pequeno fóssil antes do almoço.

Então a culpa é do cinema? Não seria mais fácil culpar os ludibriadores profissionais dos corações alheios?  Difícil de saber, pois os psicopatas amorosos adoram um cinema. Não aprenderam estes os melhores truques na sétima arte criando cenários perfeitos para enganar suas presas? E não arranquemos a vaidade da presa. A presa adora ser presa mesmo que se arrebente no final.

Bem, apenas o que sei é que há filmes aos montes com a missão de construir este imaginário coletivo onde o príncipe e a princesa, o eterno e grande amor subsistem a tudo.

Ora, crescemos assistindo a beijos fenomenais nas telonas. Aprendemos, antes do primeiro beijo real, a beijar com o cinema. Isso é incontestável aqui no ocidente. Desde pequenos, vibramos com o drama e posterior vitória do amor sobre todos os obstáculos presentes nas tramas. E quando menos percebemos, um dia, o trailer da vida nos propõe uma cena amorosa e outra e outra. A esta altura, já estamos viciados no amor romântico pintado na sétima arte.

Inicia-se então, nossa vida amorosa. Que caos! Claro, uns poucos têm a sorte (?) de um amor tranquilo. Quem sabe estes, os mais sortudos, assistiram a poucos filmes de amor. Ou quem sabe, são tão mornos que nem a cena do beijo na praia protagonizada por Burt Lancaster e Deborah Kerr em ‘A um passo da eternidade’ (1953) é capaz de contagiá-los.

Não, destes não falaremos aqui.

Falaremos dos bobos, desvairados, apaixonados, tresloucados. Falaremos talvez de nós. Se contagiados pelo cinema ou por alguma outra sugestão, é destes que falaremos.

E nem precisa dizer que achamos sem graça um amor sem problemas e aventuras, sem beijos cinematográficos e trilha sonora; sem friozinho na barriga e mãos suando.

No fundo, os donos dos milhares de corações partidos espalhados pelo mundo adoram cenas abarrotadas de muito ‘love story’.

Mas o que dizer da primeira noite dos amantes no cinema? Sim, espetacular! Orgasmos voam facilmente na tela e mui rapidamente. Os amantes não sentem fome, frio, ressaca e nem precisam pagar as contas. Você já experimentou viver algo assim, cinematográfico? Cuidado, você pode até perder seu emprego!

Pois é, meus queridos, a coisa é séria. E querem saber? Quando vejo alguém com sobrepeso querer processar o McDonald’s, logo penso que poderíamos processar o cinema também por todas as vezes que nos fez sonhar com o amor romântico. Eu sei, não vamos fazer isso. Só estou brincando.

Mas a partir daí, quando você passa a desejar tudo aquilo, a meleca está pronta e fica improvável não associar nossas cenas amorosas ao que aprendemos nos filmes. O psicanalista Contardo Calligaris, se comigo aqui estivesse, concordaria. Ele próprio, homem sábio e vivido, já tratou do mesmo tema em uma de suas participações no Café Filosófico da TV Cultura dizendo que aprendemos muito do amor através do cinema.

Diante disto, o que constrói nosso imaginário de fato?

Já pararam para pensar?

"Diário de Uma Paixão"
“Diário de Uma Paixão”

Será hoje o dia de perder a fé em tudo ou de jogar-se de joelhos e se entregar?

Bem, temos a família, que de geração em geração (adoro esta expressão!) vai incutindo em nosso imaginário as ideias de amor. Mas a ideia de amor transmitida por nossos antepassados não vem sozinha. De carona, vêm com ela a culpa, o medo, o status e outras besteirinhas. Algumas destas ideias coadunam com o amor pregado no cinema até que alguém, do nada, pare de sonhar e leve embora a bola do jogo acabando com a brincadeira.

Desconfio até que, apesar de discordar de várias dessas ideias a nós passadas de modo informal por nossa família, caímos ainda em todas as ciladas do amor e respondemos com os mesmos reflexos impregnados, parecidinhos com a música ‘Como os nossos pais’, interpretada tão bem pela saudosa Elis Regina.

E quem não se lembra de ter ouvido em algum filme dito inocente da Sessão da Tarde, expressões como ‘o amor cura’; ‘o amor é eterno’; ‘felizes para sempre’?

Sim, não há dúvida de que o cinema, com toda sua carga romântica, é o grande responsável pela maioria das dores de amor.

Mas proponho um exercício quase paradoxal, diante dos caminhos escolhidos para este texto, antes de continuarmos:

Por que as pessoas vão ao cinema?

Por que essa necessidade de ver histórias de amor?

Seria para suprir a gama de sonho que falta em nosso cotidiano ou para entender a vida e as suas relações?

Para aprender outras linguagens de amor?

Para namorar apenas no escurinho do cinema?

Para fortalecer o ideal amoroso que já reside n’alma?

Ou simplesmente para alimentar o hábito pop que se impregnou acompanhado de pipoca, refrigerante e outras bobagens?

De todos os motivos acima elencados, qual o mais relevante para você?

Filmes com ideais amorosos estão em cartaz em todos os países do mundo e não somente em Hollywood.

A França produz os seus. A Itália. O Japão. A Argentina. O Irã. Há cinema romântico em praticamente todas as culturas.

As pessoas, aliás, amam em todas as culturas.

Agora fiquei confusa. Agora ferrou!

Bem, eu provoquei a reflexão e talvez não tenha a sorte ou a destreza necessária para solucioná-la. Mas nem que este texto tenha duas partes, eu me resolvo. Isso já é uma questão de honra. Nem que eu tenha que ouvir meus leitores ou entrevistar transeuntes nas ruas. Nem que eu tenha que assistir a mais de uma tonelada de filmes românticos, eu trarei uma resposta que acalme o coração partido. Nem que eu invente uma.

Mas mesmo querendo jogar a culpa no cinema; mesmo tendo já sofrido a dor do coração partido; mesmo achando que tudo aquilo que se passa na tela é longe do nosso real, eu adoro filmes de amor. E eu adoro estar apaixonada.

Muitas vezes, mesmo depois dos créditos, eu saio da sala do cinema com o filme ainda rodando na minha mente. E quantas vezes não escrevi na cabeça a continuação da história de amor mesmo depois do ‘THE END’?

É mais perigoso do que vocês pensavam, não?

Eu também sou mais boba do que vocês pensavam.

Saciadas nossas primeiras necessidades, refiro-me às mais básicas, somos e queremos o quê?

Queremos infinitamente a plenitude no amor?

Ou será que existe alguém que lê este texto e já desistiu do amor?

Eu não sei.

"Talvez Algum Dia"
“Talvez Algum Dia”

Quando fecho os olhos e penso na inocência do cinema, sou traída pelo filme ‘Cinema Paradiso’, onde o maravilhoso longa, embora totalmente metalinguístico, faz elogios aos beijos de amor.

‘Talvez algum dia’, estrelado por Denise Miller e Rex Smith em 1979, onde a menina de treze e o rapaz de dezessete jogam a possibilidade da concretização do amor para o futuro também ajudam a piorar legal as coisas. E há outros. Vários deles nas caixinhas da memória do passado.

Mas, queridos, é tarde, meus olhos cansam. Anuncio então, quase desfalecendo, que estamos chegando ao fim desta primeira parte do texto. Sim, porque a conversa continua. Daqui a quinze dias trarei a segunda parte deste texto-conversa. Farei isto porque não me resolvi. E para esquentar nosso próximo encontro, deixo algumas falas ditas no calor da tela iluminada do cinema. Julguem vocês mesmos. Um beijo, Mô.

“Quando se percebe que se quer passar o resto da vida com alguém, você quer que o resto da vida comece logo.” (Feitos um para o outro).

“Eu nunca mais verei um pôr do sol sem lembrar de você.” (Pearl Harbor).

“O melhor amor é aquele que desperta a alma e nos faz atingir mais, que planta um fogo nos nossos corações e traz paz à nossa mente.” (Diário de uma Paixão).

“Se neste preciso momento me dessem a escolher… entre nunca mais te ver ou casar contigo, casava contigo.” (Antes do amanhecer).

“Quando me perguntarem do que eu mais gostei, vou dizer que foi de você!” (Cidade dos anjos).

“- Como você sabia? Como sabia que eu ia me entregar a você como me entreguei?
– Eu me vi em você” ( 9/ 1 2 semanas de amor)

É, eu sei. A coisa ficou feia. Até a próxima!

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

4 thoughts on “A culpa é do cinema?

  1. Eita, melou. “Quién me tapará la noche, se hace frio/quién me vá curar el coraón partio?”

  2. Ah querida, preencher a vida com amor é o que todos querem, sem questionar de onde veio a idéia.
    Mas, se não for possível, brindemos com muito chá de alecrim!! saúde!!
    Parabéns, um grande beijo de sua fã.

  3. De todas essas frases romanticas acho que faltou… “Me Tarzan, you Jane!”

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