Aliás

VentoMais de uma vez, hoje, ele passou por mim reavivando a memória e me levando, menino, por um passeio em São Vicente.

O carnaval já se fora, mas continuávamos em férias, pois as aulas – mais proveitosas que as de hoje – só iriam começar em março.

Ele tinha a mesma textura (se é que ele tem textura), o mesmo frescor e o mesmo cheiro de outrora. Cheiro de alto-mar.

Parado ali no ponto de ônibus, na avenida Washington Luiz, eu sentia o mesmo vento da década de cinquenta, penetrando pelas mangas da camisa e refrescando o meu peito de menino. Um vento gostoso que vinha do sul e que eu não mais encontrara por estas bandas.

Vindo na contramão, uma bicicleta…Aliás, eram duas. A primeira, pilotada por um jovem, quase menino; escapou por pouco. Até a bicicleta se “encolheu” assustada. A outra cruza a avenida ainda com o semáforo fechado; eu me assustei e o motorista que quase o atropela, também. O condutor dá um leve toque na buzina do automóvel e nem sei se viu o gesto obsceno que o animal sobre duas rodas lhe fez.

Aqueles cabelos brancos não lhe ensinaram nada; talvez a vida ensine, algum dia… Se der tempo.

Fui ao banco, aos Correios – muito bem atendido em ambos – e voltei a esperar por um ônibus.

Como ali na Ana Costa só passa uma linha de ônibus que me sirva – e nada dele vir – decidi mudar de local e fui para a Galeão Carvalhal, onde passam veículos de três linhas distintas e que me servem também.

Durante os quarenta minutos de espera por um ônibus no Gonzaga, também senti o vento passando, mas era apenas alguém da mesma família, um meio-parente ou talvez um consangüíneo mais distante.

Mais uma bicicleta passa no vermelho…Aliás, eram duas.

No ponto de ônibus, junto ao meio-fio, levo um forte esbarrão das senhoras de corpo avantajado, que seguem em frente sem olhar para trás…Aliás, eram duas.

A meio caminho de casa, uma jovem senhora entra no ônibus gesticulando e falando alto.

Acabara de ser roubada em sua jóia, que ia pendurada no pescoço, por um jovem que provavelmente deve ser mais um bom freguês do crack.

Era só um “di menor”…Dirão eles, os néscios.

Viva a liberdade!

Fora! Gritam eles contra a jovem cubana.

O país está cada vez mais moderno e a “liberdade” toma conta do povo apático, patético que fala em democracia enquanto respira mansamente os vapores intensos de uma envelhecida anarcodemagogia.

Aliás, eram duas: anarquia e demagogia… De braços dados.

4 thoughts on “Aliás

  1. Gama, você nos encanta com suas considerações… É bom refletir enquanto lemos e saboreamos o seu jeito de trazer o cotidiano, a realidade e o pensamento de quem está escrevendo… permeando tudo, fazendo as relações de forma “leve” e crítica…
    Parabéns!
    Abraços…

  2. Aliás… visitei com a minha mente os locais, cheguei mesmo a sentir o cheiro do mar!
    Pena, que as pessoas, tão mergulhadas em sua vida medíocre, não percebam tantas coisas, somente se o pequeno larápio era usuário de droga, e envolta em ódio se vai.

    Abraços

  3. Você, Regina, nos enleva com seu carinho fraterno, com a leitura atenta e com os comentários amigos.
    É uma benção poder fazer o que nos agrada, benção é escrever como se gosta, benção maior, entretanto, é ser lido por quem gosta.
    Quando um texto simples e despretensioso com este e como eu, recebem a leitura atenta de pessoas amigas, eu entendo perfeitamente quando o velho amigo, parceiro e professor Queirolo dizia: escreves para uns poucos.
    Obrigado!

  4. Ótimo, Maria Cecília, fazê-la vir do interior para passear pelas linhas desta Croniqueta, para ver o nosso litoral e sentir esse cheiro tão peculiar deste mar imenso que nos circunda em nossos continentes ilhas; nós “ilhas” nesse mundão social ganancioso e parcial.
    Há muito para se ver e sentir, basta querer, basta abrir os olhos da alma.
    Apreciada visita a sua.
    Bem-vinda, sempre.
    Abraços!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *