O homem de papel

papermanGeorge vê Meg numa estação de metro de Nova York. Ele solitário e imune ao turbilhão da cidade grande, encontra nela uma quebra inesperada (ou esperada?) na imensidão angustiante da mistura do preto com o branco.

Em um primeiro momento, penso que, em pé, George espera pelo tempo do amor, selado agora com um beijo acidental de batom de Meg em uma folha de papel – um rastrilho de pólvora vermelha que de repente precisa ser seguido.

E ele não tem dúvidas e segue-o. Mais do que isso – inicia uma perseguição com o envio incessante de aviões de papel confecionados a pressa.

Depois, entendo que ele busca não só o amor, mas uma trégua.

O curta de animação premiado com o Oscar no último domingo fala da quebra de rotina. O homem de papel se transforma em milhares de aviões do mesmo material que cutucam o tempo morto do trabalho burocrático. Ele e o papel são um só num movimento simbiótico de voo faminto e solitário.

“Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições para me aposentar.”, assim começa “A trégua”, o romance da década de 60 do escritor uruguaio Mário Benedetti.

Martin Santomé é o protagonista, e segundo o crítico literário Cássio Starling Carlos, representa o apogeu do homem comum, órfão do sublime.

E o que é o amor, senão o sublime?

Escrito em forma de diário, “A trégua” vai registrando o tempo que se vai sem concessões ou acordos.

Em um sábado de abril, Martin pergunta: “Estarei ressequido? Sentimentalmente, digo”.

Mas não muito antes afirmava com a convicção do tempo vivido: “Hoje foi um dia feliz: só rotina”.

O que será que mudou?

Ele escreve em junho: “Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que restam”.

paperman2George de “Paperman” sente o mesmo e provavelmente poderia terescritoentre pilhas estéreis de papéis, numa terça de fevereiro: “Ás quatro da tarde, senti-me insuportavelmente vazio”.

O que mudou? – insisto.

O movimento livre dos aviões de papel circulando pelos becos e ruas da grande metrópole reafirmam o desejo interno de um grande acontecimento.

George quer mudar. Meg também.

Em maio, Martin Santomé escreveu – “São verdes, às vezes, cinza-azulados”.

Ás vezes é um beijo, outras basta um olhar. Os olhos de Laura Avellaneda – sua nova colega de trabalho – são o atalho que livra da poeira o cansado coração de um autómato.

Ele e ela estão em compasso de tempo diferente – um no príncipio e outro no ocaso

Mas mesmo assim e com o tudo, a trégua estabelece-se.

“Ela está ao meu lado, adormecida. Estou escrevendo numa folha solta, esta noite transcrevo para a caderneta.” – escreve sem pressa num sábado de julho.

Abandonou-se a rigidez da execução contabilística do cotidiano. A vida se fez então em redemoinho – com cabelos desalinhados e consequências imprevisíveis.

“Escreve-me dizendo que eu não vou morrer.”, pede um outro personagem de “A trégua”, como se o posto no papel fosse impossível de ser apagado pelo tempo, sacralizado e então, virando lei acima de todas as coisas.

Martin e George escreveram – cada um a seu modo – cartas de amor.

http://www.youtube.com/watch?v=mM6cLnscmO8 Trailer do filme

Em seu tempo, também Álvaro de Campos:

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

Mas complementa

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas
.

Hoje é a última segunda de fevereiro.

Em 3 de fevereiro, também em uma segunda, Martin Santomé escreveu resignado: “Ela me dava a mão e eu não precisava de mais nada. Bastava isso para que eu me sentisse bem acolhido. Mais do que beijá-la, mais do que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Fico com essa definição.

Paperman, EUA, 2012
História de Clio Chiang e Kendelle Hoyer
Dirigido por John Kahrs.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

6 thoughts on “O homem de papel

  1. Vivi!!
    Voei nas asas dos aviões de papel… que beleza de post, um alento para a alma.
    Beijos, parabéns e muito obrigada,
    Fabi

  2. Vivi, conhecia este curta e foi bem-merecida a premiação; mas, por seus olhos, ele transcende e se torna uma conclamação ao sublime, de que tanto sentimos falta! “Órfão do sublime”… Você poderia ter resumido a apenas esta frase e teria sido capaz de traduzir o sentimento que tantas vezes carregamos, sem entendê-lo. Mais uma vez, parabéns!

    Beijos

  3. Pois agora morro de vontade de ver o filme que vc indicou e que é comentado com tanta delicadeza. Parabéns pelos seus escritos. E por sua bela alma. Bjos

  4. Viviane, como sempre suas palavras nos convidam a ver o filme, a ler o livro, a estabelecer relações, a pensar…..
    Beijos
    Silvia

  5. Vivi!

    Você não tem noção como sua escrita emociona, é realmente um dom”. …O desejo interno de um acontecimento”, foi isso que me desencadeou num mar de emoções aqui.

  6. Vivi….

    Sua escrita nos faz viajar e buscar a nossa essencia intelectaul, cada vez mais….como é bom pensar,
    Beijos no coração, com muita emoção,

    Silvia

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