Indomável Sonhadora: Somos todos bichos

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Sempre costumo ler sinopses a respeito dos filmes que vou assistir, mas no caso de “Indomável Sonhadora” abstive-me de fazê-lo. A trama começou e fui deixando acontecer as impressões que a história me causava, plano por plano, ação por ação e, até o final, fiquei como que com a cabeça oca, sem saber bem o que comentar.

Caminhando de volta para casa, foram aflorando as ideias e agora consigo passar e articular o pensamento. Uma luta de sobrevivência em região adversa, nada que não tenhamos visto em nosso Brasil afora, de pessoas vivendo em condições críticas e ocupando o lugar de bichos. Os bichos são ao mesmo tempo sua comida e seus amigos, numa cadeia biológica de normalidade. Bichos predadores mesmo, para eles, eram os seres humanos que habitavam além da barragem, na civilização, da qual tanto eles fugiam.

E é antológico, no momento em que em coro, membros daquela pequena comunidade repetem por várias vezes, como se fosse um mantra – “somos todos bichos”. Outra cena também marcante é quando o pai ensina a filha a ser forte e enfrentar todas as situações com força, raiva, garra e da maneira mais selvagem. Isso para uma menina de seis anos, sem mãe e morando apenas com o pai em palafita, às margens de uma área de mangue que, segundo a sinopse é na região da Louisiane, nos Estados Unidos.

Apesar de toda a rudeza da vida desse pai e filha e mais de alguns poucos remanescentes que lá resolveram ficar, a história tem poesia e nos emociona. Em várias partes do roteiro, a menina chama pela mãe, em especial em situações difíceis. Mas a ajuda não vem. E a falta de carinho, de colo mesmo, fica nítida quando a menina conhece uma mulher de programa, talvez, e que mora em uma casa de shows e danças, na parte civilizada e podendo ser ou não a sua mãe real.  Há uma identidade e um diálogo de tristezas e abandono.

Sem mãe e prestes a perder o pai, que está com grave doença, além de ser alcoólatra, ela sonha com um mundo melhor e sempre respeitando o meio ambiente e a natureza, mesmo quando esses trazem ventos, chuvas, destruição e cheia dos rios. Mesmo os animais pré-históricos que aparecem em seus sonhos e são destruidores se rendem a ela em uma empatia de olhares.

“Indomável Sonhadora”, com direção do jovem Behn Zeitlin e baseado na peça da atriz Lucy Alibar, denominada “Juicy and Delicious”, conta com elenco desconhecido e amador, tendo à frente a menina Quvenzhané Wallis no papel de Hushpuppy. O filme, que estava indicado para quatro categorias do Oscar, não levou nenhuma, mas as apostas em cima desse novo diretor nos fazem ter esperanças de que outras produções com novos olhares estejam surgindo, numa área ainda muito dominada pela indústria americana. Aliás, nessa edição do Oscar, outros quatro filmes faziam apologia à política e às medidas de combate ao terrorismo, adotadas nos Estados Unidos, com muito ufanismo.

Nessa linha de filmes fortes, mas com apelo poético, “As Aventuras de Pi“ também concorria ao Oscar desse ano e levou algumas estatuetas (4).

indomavelsonhadora_1Indomável Sonhadora

Drama. De Benh Zeitlin. Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Lowell Landes, Levy Easterly.
Com seu universo em colapso a menina Hushpuppy luta para sobreviver durante a catástrofe que invadiu seu vilarejo. Criaturas pré-históricas chamadas aurochs despertaram e em meio a tudo isso ela decide ir em busca de sua mãe que desapareceu há anos.

Estreia no Brasil: 22/02/2013.

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