Sunken Condos, de Donald Fagen – 2012

Donald_Fagen-Sunken_Condos-Frontal-450x450Ao buscar por uma definição de sofisticação no dicionário depara-se com termos como complexidade, bom gosto, requinte, excesso de sutileza. Essa definição também poderia apresentar outras correspondências indiretas, como a música de Donald Fagen, nascido em 10 de janeiro de 1948 em Nova Jersey nos Estados Unidos e que desde o começo dos anos 70 esbanja essas qualidades enquanto elabora com calma e esmero as suas canções.

Desde o início da década de 70 sendo uma das partes do Steely Dan (a outra é Walter Becker), Donald Fagen esteve envolvido no processo de criação de primorosas joias como os álbuns “Aja” de 1977 e “Gaucho” de 1980. Em 1982 optou por se aventurar em carreira solo e lançou “The Nightfly”. Posteriormente vieram mais dois discos (“Kamakiriad” de 1998 e “Morph, The Cat” de 2006), que receberam pelo próprio músico a alcunha de “Nightfly Trilogy”.

Ano passado, Donald Fagen rompeu o silêncio de seis anos e a seu modo reapareceu com um novo trabalho. “Sunken Condos” teve lançamento pela Reprise Records e expõe em 9 faixas, a mistura que o músico sabe tão bem fazer com o cuidado e refinamento já conhecidos. A união de rock, jazz, blues, soul, funk, R&B e pop está azeitada como de costume e apesar de não apresentar nada de propriamente novo no horizonte, seduz e atrai totalmente o ouvinte.

O registro abre com “Slinky Thing”, um groove estiloso destacando um belo solo de guitarra. Depois é a vez de “I’m Not The Same Without You”, um pop dançante, com ecos dos anos 80 e bem funkeado. Na sequência aparece “Memorabilia”, uma canção tão perfeita que artistas como Jay Kay do Jamiroquai dariam um dedo para fazer algo parecido. Já “Weather In My Head” é um blues leve, mas bem encardido nas guitarras nos mais de 5 minutos de duração.

“Sunken Condos” ainda tem mais variações sobre a mesma base, como o clima soft com levada jazz ao fundo e metais se alternando de “The New Breed”, além da inusitada (e competente) versão de “Out Of The Ghetto” do Isaac Hayes e a balada com guitarra bluesy e leves toques de soul music de “Miss Marlene”. O som mais funkeado e dançante volta a aparecer em “Good Stuff”, a penúltima faixa, e o álbum termina com o soul charmoso de “Planet D’Rhonda”.

Tocando teclados, piano e órgão, e apresentando uma habilidade vocal ainda de alto nível apesar da idade, Donald Fagen conta com a ajuda de velhos conhecidos como o produtor Michael Leonhart, o guitarrista e baixista Jon Herigton, o baterista Earl Cooke Jr. e o saxofonista e flautista Charlie Pillow. Merecem igual reconhecimento, os backing vocais coordenados na maioria das faixas pelo trio Catherine Russell, Cindy Mizelle e Jamie Leonhart.

Uma das críticas que se podem direcionar a “Sunken Condos” vai ao encontro da sua maior qualidade, que é justamente manifestar a mesma antiga sonoridade do seu criador. Porém, em determinados casos (e aqui é um deles) não inovar se torna o maior mérito. Com bem escreveu o crítico Martin Aston da BBC, criticar Donald Fagen por fazer novamente o mesmo registro é como criticar Van Gogh por seus repetidos autorretratos. É mais ou menos por aí.

Assista a uma apresentação ao vivo de “Weather In My Head”:

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *