Sentidos e Seus Duplos

corruption-11* Esses meus relatos, esses meus escritos diários, por serem de pequena extensão, acabaram sendo batizados como “Croniquetas” (pequenas crônicas). Hoje, entretanto, devido a situações crônicas, ela será um pouco mais longa. Paciência! Consciência!

No último dia do ano passado eu e minha irmã nos sentamos na mureta, na Ponta da Praia, para conversarmos, vermos o mar e compulsoriamente levados a observarmos como se arrasta a sociedade “organizada” e “civilizada” no Brasil do Século XXI…Meu pai classificava, já em meado do século passado, essa mesma sociedade como “cifilizada”.

Temos por quem puxar!

Mais velho, mais experiente e menos agressivo, eu a impedi – para não estragar o nosso dia e nem o final do ano – de tomar satisfação com um porco e sua bacorinha, por conta de um saco metalizado e uma garrafa vazia de refrigerante que cada um deles jogou ao mar.

O ano mal começa e já tivemos muitas experiências tristes, acontecimentos desagradáveis e exemplos dos mais sórdidos, não somente na vida pública, mas também na privada.

A corrupção, o descaso e a fatalidade, associados, causaram a morte de duzentos e trinta e sete jovens em um momento festivo neste início de ano de dois mil e treze.

Anteontem, a maior parcela dos senadores da República (maldito voto secreto!) elegeu para a presidência daquela casa um de seus “pares” (o termo vem mesmo a calhar) que já havia renunciado anteriormente para não ter cassado o seu mandato, por conta por uma série de desvios de conduta e de atropelos à moral.

E ele assume o posto, representando especialmente esses seus “pares” (56), quando a “Lei de Ficha Limpa” – fruto da iniciativa popular – está em vigor…Pouco vigor. Pouca vergonha!

Ontem à tarde, no mesmo local do final do ano, sentado na mesma mureta na Ponta da Praia, eu pude ver uma mãe impedir sua filha pequena de jogar ao mar um “amarrilho” (aquele pedacinho de arame revestido de plástico, com que se amarra a boca de sacos plásticos), explicando-lhe que o material não era deteriorável e que permaneceria na natureza, podendo ocasionar a morte de vários tipos de seres vivos.

Um belo e raro exemplo.

Alegrei-me!

Hoje, quando saí para ir à banca e à padaria, eu decidi fazer um caminho diferente do usual. Já de saída, quase tropeço em dois pedaços de cérebro humano produzidos pelo trato digestivo de algum animal de estimação e ali deixados, para estragar o dia e o humor de alguém mais sonolento ou distraído.

Meia quadra adiante, um jovem pilotando um automóvel de luxo, ingressa na contra-mão em uma pequena via estreita. Parei para olhar e ver se a placa indicativa ainda ali estava. Sim, estava! Logo, o jovem embicou o veículo em um dos portões de garagem daquela rua. Cinqüenta metros em sentido contrário ao permitido não são nada (deve pensar ele) e evitam que ele tenha de dar a volta no quarteirão.

Com pequenas infrações se constrói a base de um país que tem a cara deste nosso e sobre isto eu ia pensando, lembrando-me de alguns bons exemplos, geralmente vindos de gente simples, mas que são minoria.

Chego à banca de jornal, onde sempre se trocam alguns dedos de prosa. O dono, seu Antonio, comenta o dito do tal senador de ficha e cara sujas.

Segundo ele, o “escolhido” por seus pares (56, reitero), disse que um senador precisa ter ética.

Será que ele algum dia teve a chance de abrir um dicionário ou teve uma mãe que lhe impedisse de jogar lixo no mar ou na rua,?

É claro que não!

O ser humano não respeita mais a natureza, não respeita o vizinho de baixo, o de cima, os dos lados, não respeita as regras, não respeita o semelhante e nem mesmo os animais…Os animais ficaram à parte, porque não temos a mínima condição de chamá-los “nossos semelhantes”. Quem sabe, algum dia, se conseguirmos evoluir.

Foi esse mesmo tipo de gente – da maioria destes exemplos; maus exemplos – que estragou e antecipou o final das nossas férias, na semana passada.

É esse mesmo tipo de gente que ajuda a desconstruir a nossa sociedade já tão capenga, é essa mesma escória que posterga o nosso futuro, sempre lá, tão distante…

6 thoughts on “Sentidos e Seus Duplos

  1. Gama, longa ou curta, não importa! Você sempre acerta a mão…
    A sujeira espalha-se feito erva daninha, mas claro, alguém semeia… Acho que o cara-suja de hoje é aquele porco de ontem, quem sabe um filhote espelhando-se no mau exemplo dos pais… A garotinha e a atitude da mãe, ai, trazem-nos esperança, essa dita cuja que ainda nos mantém de pé apesar de
    carro moto bicicleta na contra-mão
    titica no chão
    corrupção
    descaso diante de catástrofes
    e no jornal, tantos e tantos estabelecimentos autuados… mas, nenhuma palavra sobre os responsáveis pela vigilância e emissão de alvarás…
    Vamos na contra-mão da ética… assim, banaliza-se a verdade… Nem ainda somos dignos “animais”! Parabéns pela crônica-denúncia-desabafo! espero a próxima (e o livro)… Abs, Regina

  2. Prezado Gama,
    Creio que o amigo, em seu belo texto, nos dá a saída para , a médio e longo prazo, mudarmos a atual e triste realidade da nossa sociedade. A conscientização de todos os pais (e, em nosso caso, avós) de que a educação começa em casa, desde o berço. Deixar tudo por conta das escolas tem-se mostrado ineficaz. Forte abraço. Bonat

  3. Caro Gama,
    Sempre forte e incisivo.
    Já foi tão repetido que nem mencionarei a frase do Rui, o Barbosa. Mas vai adivinhar assim…

  4. Minha amiga Regina, são de imenso valor a sua análise, a sua vista aguçada e a abordagem, sempre complementar e inteligente de cada tópico. Sem dúvida, vale também muito o incentivo amigo para a continuidade do trabalho.
    O livro está quase no ponto, mas algumas questões importantes (como estas, neste texto) acabam também tomando tempo e trabalho, como aconteceu ainda hoje, com o texto para a próxima edição. É tema mais específico, mas de suma importância para a economia da região.
    Chegaremos lá, madrinha.
    Obrigado!
    Abraços.

  5. É verdade, meu caro amigo Bonat, temos relegado algumas funções familiares essenciais e delegado aos professores a responsabilidade pela educação e pela formação dos nossos filhos.
    O resultado aí está; amplo e incontestável.
    É preciso que despertemos e nos conscientizemos da necessidade de envidarmos todos os esforços para reverter esse quadro caótico.
    Oxalá o consigamos!
    Fraterno abraço, com o meu agradecimento pela leitura, comentário e opinião sempre lúcida.

  6. Meu amigo Jansen, que mesmo com o pé na estrada encontra tempo para ler e opinar sobre os meus desabafos cidadãos.
    Obrigado!
    Se forte ou incisivo, não sei. Garanto, entretanto, a realidade.

    Abraços!

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