As Vantagens de Ser Invisível: Vamos ser loucos juntos?

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“- Não avacalhem. Amo as pessoas e as coisas mais do que sou amado. Sou um pobre-diabo. Mas um pobre-diabo lírico, cheio de riqueza interior. Que não troco pela satisfação bem comportada dos ricos em espírito. (…)” 

Trecho de “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino

Eu preciso dizer que sou a intertextualidade em pessoa. Não há um filme que eu assista que não me lembre de um livro ou não faça as associações pertinentes. Eu sempre construo essas pontes na cabeça.

E foi assistindo ao delicado filme ‘As vantagens de ser invisível’, escrito e dirigido por Stephen Chbosky e lançado em 2012que lembrei imediatamente do livro ‘O Encontro Marcado’ de Fernando Sabino. Como eu comemorei essa leitura. Ainda que este livro tenha vindo para minha vida muito tarde.

Eu o adquiri em um sebo perto de casa. Eu não li ‘O Encontro Marcado’, eu o devorei. Com mãos, dentes e olhos. Fui abocanhando, bebendo seus caldos e ingerindo os conflitos descritos ali.

Apenas lamentei tê-lo lido tarde. Tivesse ele caído em minhas mãos na adolescência, seria eu outra pessoa agora. Mas, para não desacostumar, sou sempre atrasada nas minhas emoções, descobertas e leituras. Os amigos o sabem e me aceitam mesmo assim.

E como o livro, o filme em questão mexeu comigo. Não, você não entendeu. O filme mexeu mesmo comigo.

As-Vantagens-de-ser-Invisív“As Vantagens de Ser Invisível” fala muito de mim, muito de nós. Imagine um longo clip do “The Smiths”. Imagine uma tarde nublada que remete você aos seus dezesseis anos. Assim é este filme: terapêutico. Eu o atravessei com uma lagriminha descansando no canto do olho, pronta pra escorregar e me revelar. Eu me segurei, disfarcei e comi a pipoca.

Sabe assim, quando algo te toca? E toca fundo? Você se pergunta como um filme pode abrir as comportas dos recônditos da sua alma. E eu afirmo, meu querido leitor, a arte é campeã nisso.

É claro que talvez esta película não faça o mesmo com você, porque nem todo mundo precisa ter coração de margarina como eu. Mas se você sente saudade da sua adolescência e desconfia que de vez em quando seja revisitado (a) por algum cheiro, sabor, toque, isto é, por alguma sensação daquela época, então você também vai ser tocado (a).

‘As Vantagens de Ser Invisível’ é perturbador. Mexe com situações outrora vivenciadas por grande parte das pessoas. Mesmo que fatos presentes e retratados no filme não tenham acontecido diretamente com a gente, com certeza foram presenciados em algum momento da vida na pele de um amigo ou de um parente próximo. E já não é sem propriedade dizer que o que acontece com quem amamos nos atinge em cheio.

As lembranças suscitadas no filme assaltam teimosas a mente e trazem sensações adormecidas, porém, não suprimidas pelo tempo. As tentativas de Charlie, vivido por Logan Lerman, inserir-se em rodas sociais é apavorante. O medo de não ser aceito percorre seus dias. Um aceno não visto no refeitório amedronta o jovem e sentir-se invisível acaba se tornando um pesadelo. Qualquer um nós pode viver algo assim em determinada época da vida. E a película trata disso de forma delicada. Há na obra um grande respeito pela adolescência. É lindo!

E sem essa de afirmar que se trata de um subgênero por abordar o universo adolescente. ‘As vantagens de ser invisível’ não fica devendo para nenhum outro filme que trata de questões senis.  Infelizmente, na Literatura ainda perdura a crença de que tudo que tenta captar o universo infanto-juvenil é sub-literatura.

Talvez, e de modo bem superficial, alguns concebam tal análise, porém, acontece que quando algo é bom, é bom e pronto. Independente de tratar da idade pueril ou da velhice; do primeiro beijo ou da guerra no Vietnã.

Participam do longa a conhecidíssima Emma Watson como Sam. O ator Ezra Miller com Patrick, numa impecável atuação e Mae Whitman como Mary Elizabeth. Os outros personagens aparecem de forma bem secundária mesmo, o que não ocorre no livro, onde todos são explorados adicionando à obra elementos ricos para a coesão do enredo e presenteando o leitor com inúmeros diálogos. Mas não vamos nos esquecer de que um filme tem a intenção de contar em minutos a vida de alguém, e sendo filme, não dá para mostrar e falar tudo. Assim, é importante conceber que um filme é um recorte de tempo no tempo do personagem, onde a luz e a câmera congelam as emoções para o nosso deleite.

E claro, como não poderia deixar de ser, foi inevitável atravessar ‘As vantagens de ser invisível” sem me deixar abduzir por algumas falas:

“Por que as pessoas boas escolhem as pessoas erradas?”

“Nós temos o amor que achamos que merecemos.”

“Write about us.”

“Qual sua pessoa favorita no mundo?”

“Vamos ser loucos juntos?”

“Charlie pode sair pra brincar?”

Das cenas mais gostosas, a que mais me arrebatou foi quando Sam deu o presente de Charlie na noite de Natal. Que presente especial. O presente (claro que eu não vou contar!) foi exatamente aquilo que o significava. Lembrei-me de alguns presentes que ganhei de queridos meus e que realmente foram a prova do quanto enxergavam nitidamente o meu interior.

vantagensdeserinvisivel_2É tão bom quando alguém nos enxerga sem a gente precisar tentar explicar nada, não é?

Depois de assistir a esse filme, alguns sentimentos ficaram mais fortes em mim. E termino aqui minha lição para o CINEZEN com um desabafo-desejo:

Eu não queria mesmo que as pessoas esquecessem de que tiveram dezesseis anos. Talvez este seja o segredo do charme de algumas pessoas e delas terem me conquistado. Eu me orgulho da adolescente que vive e sobrevive em mim, apesar dos meus absurdos quarenta e três anos. Ela grita free e me consome diariamente; ela me arranha por dentro feito gato insano e me cobra amor; ela me cobra ainda coragem para recomeçar todos os dias e amar com um coração de pugilista, que pode morrer de apanhar, mas vai sempre amar e amar.

Quanto a nós: “Vamos ser loucos juntos?”.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

4 thoughts on “As Vantagens de Ser Invisível: Vamos ser loucos juntos?

  1. Poxa, que texto legal! Retrata muito do que também senti assistindo ao filme.
    Parabéns, de verdade!

    “As Vantagens de Ser Invisível” foi um filme que já havia me marcado no trailer, após assistir a obra tudo se confirmou. E que grande talento parece ser Ezra Miller. Depois de vir de “Precisamos Falar Sobre Kevin”, ele novamente encarna um papel difícil, complexo, e se saí muitíssimo bem.

    Enfim, que ótimo filme 🙂

  2. Daniel Oliveira, fico feliz em saber que não foi somente que foi tocada por esse filme… Olha, ainda não esgotei minhas impressões a respeito… E Germano, loucos já somos! rs… Obrigada, meninos, pela presença de vocês nesta coluna. Beijos, mô

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