O Guarda-Costas e a Primeira-Dama: Diversãozinha leve e esquecível

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“O Guarda-Costas e a Primeira-Dama”, no original “Guarding Tess”, é um filme sem importância, uma obra rotineira do cinemão comercial americano. Mas deixa-se ver, é uma diversãozinha que pode até agradar, por duas razões: Nicolas Cage em um bom momento, e, sobretudo, Shirley MacLaine.

Shirley MacLaine, por si só, transforma o que poderia ser uma porcaria, uma perda de tempo, em um filme de algum interesse.

Ela demora um pouquinho a aparecer, embora seja a Tess do título original, a primeira-dama do título brasileiro. Na verdade, Tess Carlisle, seu personagem, não é a primeira-dama – é a ex-primeira-dama. Agora viúva, vive no casarão do casal, em uma cidadezinha perdida no interior de Ohio. Como todas as ex-primeiras-damas americanas, tem direito à proteção de um grupo de agentes do Serviço Secreto. Tem uma secretária, um motorista, Earl (Austin Pendleton), dois cozinheiros, e um grupo de agentes do Serviço Secreto, que ocupa uma edícula no amplo terreno do casarão.

Apesar de tão bem guardada, protegida, Tess é uma velhinha solitária. Quando a ação começa, está trancada em seu quarto, de onde não sai faz semanas e semanas.

O início do filme é bem feito, chama a atenção. Vimos as primeiras cenas numa zapeada, e foi por causa delas – e por saber que a estrela é Shirley MacLaine – que resolvemos gravar para ver em outra hora.

Roger Ebert, o crítico que gosta de ver filmes, também se encantou com a abertura do filme. Na verdade, se encantou com todo o filme, para o qual deu 3.5 estrelas em quatro. Transcrevo o início do texto dele, que, como sempre, é longo – e é bom, muito melhor que o meu, e assim me poupa o trabalho de fazer a descrição:

“Algumas vezes você pode ouvir uma relação inteira refletida na entonação de uma única palavra. No começo de ‘Guarding Tess’, um homem carrega uma bandeja escada acima até uma porta de quarto fechada, tira sua arma do coldre, coloca-a numa mesinha perto da porta, bate e diz ‘café da manhã’. Pelo jeito que ele diz, você sabe que ele tem uma longa e não agradável relação com a pessoa do outro lado da porta. Você também sabe que ele tem está determinado a fazer o seu trabalho corretamente.

“O homem é um agente do Serviço Secreto, Doug Chesnic, chefe de uma equipe destacada para proteger uma ex-primeira-dama chamada Tess Carlisle. Ela é ‘amada’ pelos americanos, como todas as primeiras-damas são, com a possível exceção de Nancy Reagan. Mas em pessoa é uma dureza: exigente, teimosa, sarcástica, capaz de penetrar na pele dos outros e achar os pontos fracos. Chesnic foi escolhido para cuidar dela por três anos, e quando esse período acaba ele pede pede uma mudança de cenário. (…)”

http://www.youtube.com/watch?v=HIx9mUDbCc8

De cara, o agente do Serviço Secreto leva um tremendo contravapor

Naquele dia em que a ação começa, Doug Chesnic-Nicolas Cage está especialmente feliz: é seu último dia naquele trabalho do qual ele está de saco absolutamente cheio. Despede-se alegremente de seus companheiros, e deixa a casa de Tess Carlisle com a certeza do dever bem cumprido e a alegria de um preso que cumpriu sua pena e agora está livre, leve e solto.

Viaja para Washington e apresenta-se ao chefe do Serviço Secreto, à espera de uma missão mais perigosa, mais cheia de ação, mais agradável. Uma missão para um verdadeiro agente do Serviço Secreto.

Leva um tremendo, imenso, gigantesco contravapor: seu chefe havia recebido um telefone do presidente – ele próprio, o tal do homem mais poderoso do mundo. O presidente – que havia sido vice do falecido presidente Carlisle, gosta da viúva, deve favores a ela, e tudo o que quer na vida é não brigar com ela – havia, por sua vez, recebido um telefonema da própria, pedindo que Doug Chesnic voltasse.

Estamos aí com menos de dez minutos de filme. O pobre coitado do nosso herói vai ter que voltar – e as coisas com a danada da ex-primeira-dama vão ficar cada vez piores, e piores, e piores.

Com Shirley MacLaine não tem rotina – ela brilha sempre

O diretor do filme, Hugh Wilson, foi também um dos autores do argumento e do roteiro, ao lado de Peter Torokvei. Além de ter escrito e dirigido o filme, Hugh Wilson ainda tem um trabalhinho extra: ele faz a voz do presidente dos United States of America, que o pobre Doug Chesnic, assim como o espectador, ouvirá algumas vezes falando ao telefone.

Dou uma olhadinha na ficha de Hugh Wilson no IMDb. Nascido em

Miami, em 1943; roteirista de 18 títulos, diretor de 16. Dirigiu “Loucademia de Polícia” em 1984, “O Clube das Desquitadas” em 1996, boa comedinha com ótimo elenco que incluía Diane Keaton, Goldie Hawn e Bette Midler.

Nada fora do rotineiro.

O que não cabe em rotina alguma é Shirley MacLaine.

Estava com 60 anos, parecia ter mais, finge ter bem mais – sua Tess Carlisle devia ser uma senhora de uns 75.

Quando jovem, Shirley MacLaine era uma extraordinária atriz de uma beleza fascinante. A beleza se foi, não faz falta alguma – a atriz ficou ainda melhor.

Depois do começo muito bom, o roteiro parte para umas bobagens

O filme que começa muito bem – como descreveu maravilhosamente o Roger Ebert – depois se perde. Os roteiristas inventaram mais para o final uma história boba, panaca, cheia de ação, para tentar conquistar público.

O que se pode esperar de um filme do cinemão comercial americano?

Impressiona é que o Ebert tenha gostado tanto.

Mas ele não está sozinho. Leonard Maltin deu a essa bobagem 3 estrelas em 4: “Agente do Serviço Secreto tenta deixar sua missão exigente e frustrante de proteger uma ex-primeira-dama – mas ela não vai deixar que ele saia. Comédia-drama extremamente satisfatório fortalecida por duas atuações perfeitas, de Maclaine e Cage. Incidentalmente, é a voz do diretor e co-roteirista Wilson como o presidente ao telefone.

Quem quiser diversãozinha leve pode até gostar. Eu gostei um pouquinho do filme – e já esqueci dele.

oguardacostaseaprimeiradamaO Guarda-Costas e a Primeira-Dama
1994. Comédia. De Hugh Wilson. Com Shirley MacLaine (Tess Carlisle), Nicolas Cage (Doug Chesnic), Austin Pendleton (Earl), Edward Albert Jr. (Barry Carlisle),  James Rebhorn (Howard Shaeffer), Richard Griffiths (Frederick), Hugh Wilson (a voz do presidente).
98 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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