Butô, meu amor!

"Cerejeiras em Flor"
“Cerejeiras em Flor”

“O Butô vem da morte”, afirma o diretor teatral brasileiro Antunes Filho.

Em “Cerejeiras em Flor” uma coprodução germano-japonesa de Doris Dörrie, Trudi (Hanellore Elsner) envolve-se na maturidade com o Butô, uma dança de origem japonesa que combina teatro e dança, em espetáculos centrados em temas definitivos como o nascimento, a sexualidade, o inconsciente, o grotesco e a morte.

Trudi sabe, mas não revela que seu marido Rudi (Elmar Wepper) está mais próximo da morte. Mais, insisto, porque há um laudo formal que o afirma.

Em “Amor”, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) um casal de professores de música octogenários dançam em um compasso de morte – pesado, vagaroso. Um requiem orquestrado com competência pelo diretor austríaco Michael Haneke.

Sem pudores.

O laudo médico – aqui – também existe. Anne é o “corpo morto”.

Trudi, ao contrário, percebe também a sua metamorfose, mas sem laudo, o corpo consciente esvaziando-se de referências perto do fim

O Butô que é expurgo em passo e dança prepara-a para sair do casulo.

Sem muita dor.

Quando inesperadamente o último fio se rompe – Trudi morre pacificamente enquanto dorme – Rudi parte à procura da teia de relações familiares – entre filhos e netos – agora evasivas e superficiais.

Ele está só.

Georges, de “Amor” reconstrói com paciência – em um apartamento amplo de Paris –  um passado, para que o presente não se decomponha em afetiva solidariedade à borboleta que se desprende do casulo de Anne.

"Amor"
“Amor”

Em “Cerejeiras em Flor”, Rudi acompanha o suéter azul de sua mulher ao Japão. Ou talvez o contrário – às vezes a lembrança faz viver a realidade.

Eles, sem elas, reproduzem na dor o diálogo entre Alice e o ardiloso Gato na célebre obra de Lewis Carroll:

– Eu só queria saber que caminho tomar, pergunta Alice.

–  Isso depende do lugar aonde quer ir, diz o Gato tranquilamente.

– Realmente não importa, responde Alice.

– Então não importa que caminho tomar, afirma o Gato sem rodeios.

Em ambos corações masculinos, há uma promessa a cumprir que norteia todo o resto.

Em “Amor”, o direito à privacidade em vida e em “Cerejeiras em flor”, o Monte Fuji no Japão após a morte.

“Promete que não me levas ao hospital” – pede Anne a um reticente George.

“Promete” – suplica.

Georges – com o peso da palavra dada – conta para uma Anne ausente e debilitada uma lembrança de infância pintada a fresco.

Quando tinha onze ou doze anos – o tempo da urgência por ser imaturo é incerto – foi para uma colônia de férias e criou com a mãe um código de estado de espírito a ser enviado em cartas e cartões postais na ausência temporária e programada – estrelas para o não e flores para o sim. A doença inesperada dele – como a paralisia dela – o estado excessivamente febril o fez ver e desenhar – literalmente – estrelas.

Ela sorri.

A flor da cerejeira exige uma devoção intensa e absoluta – quer por sua beleza, quer por sua brevidade. Cultuada pelos japoneses, a cerejeira era associada aos samurais cuja vida era tão efêmera quanto a da flor que se desprendia da árvore.

Assim como a borboleta que abandona o “corpo morto” da lagarta.

“Quem é você?” – pergunta a lagarta azul à uma Alice confusa.

“Eu… eu mal sei, Sir, neste exato momento… pelo menos sei quem eu era quando me levantei essa manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então” – responde Alice num país longe, muito longe das maravilhas.

“Como sairei desse labirinto? – perguntariam Rudi e Georges.

“Controle-se”, – responderia uma hipotética lagarta azul aconchegada em um cogumelo.

Como tributo final, Rudi dança de quimono feminino com o rosto tingido de branco em frente ao Monte Fuji. Georges calça os sapatos, coloca o sobretudo e sai.

Vai ao correio postar uma carta com muitas flores desenhadas.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

6 thoughts on “Butô, meu amor!

  1. Cerejeiras em flor é um filme belíssimo. Sensível, comovente, doce, realista… Eu amei.
    Parabéns pelos belos textos, Vivi. Bjks

  2. Viviane, muito inteligente e oportuna essa relação que fez com Hanami, Alice e Amor.
    Jamais teria feito essas conexões que me ajudaram compreender melhor as histórias.
    Como sempre suas sensíveis reflexões nos convidam a assistir e rever os filmes comentados .

  3. Não conhecia os filmes, mas ao ler este texto, que é quase uma poesia, coloquei ambos entre os próximos que gostaria de assistir. Impossível não se interessar após esta abordagem inteligente e sensível da Viviane. Parabéns!

  4. Querida Vivi…
    Muito obrigada por arrematar com seu texto luminoso a impactante experiência que tive com “Amor”.
    E, claro, fiquei doida para assistir “Cerejeiras em flor”. Na sua companhia é maravilhoso encontrar a saída do labirinto…
    Beijos,
    Fabi

  5. Vivi, o coração meio que se desmancha apenas com a possibilidade de ser tocado por esse sentimento de solidão. Mas é como dizia nosso querido Fernando Pessoa, tudo vale a pena quando a lama não é pequena…
    Náo temos, na verdade, que nos preparar as perdas, mas aproveitarmos as companhias. Difícil, né?
    Mesmo com a alma molinha, vou tentar assistir às suas sempre belas indicações…
    Um beijo no seu coração.

  6. Sem Comentarios, e Impressionante como vc relata!!!!Parece que estou vendo o filme,Mas uma vêz Parabéns!!!!

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