Contracorrente: Filme peruano é inesperado, corajoso

contracorrente

“Contracorrente”, primeiro longa-metragem do roteirista e diretor peruano Javier Fuentes-León, é bastante surpreendente. É inesperado, corajoso – e muito bom.

A ação se passa num povoado de pescadores no litoral do Peru, um microcosmo de uma sociedade terceiro-mundista, latino-americana, pobre (não miserável, mas pobre), religiosa, e portanto conservadora, apegada a tradições, machista.

Fala de infidelidade conjugal – e de homossexualidade. De enfrentamento das regras sociais, de ruptura com os comportamentos esperados, de quebra de tabus.

Faz isso com uma bem dosada mistura de realismo com não realismo, ou surrealismo, ou aquilo com que nós, latino-americanos, estamos acostumados faz tempo, e que se convencionou chamar de realismo fantástico.

A trama criada por Javier Fuentes-León tem um pouco de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”: o amante morto do protagonista continua presente, exatamente como Vadinho continuava presente na vida de Flor. “Dona Flor”, o romance de Jorge Amado, é de 1966; “Cem Anos de Solidão”, o romance do colombiano Gabriel García Márquez cheio de imagens surreais, é de 1967; e “Bom Dia para os Defuntos”, do peruano Manoel Scorza, é de 1970.

Ninguém reinventa a roda, e seguramente Javier Fuentes-León não pretendia reinventar roda alguma, ao criar sua história que une o latino-americaníssimo realismo fantástico a uma história de personagens que enfrentam as convenções sociais em nome de suas convicções e paixões.

O maravilhoso nesse melê é que tudo funciona. É, repito, uma bela história, um bom filme – sensível, honesto, corajoso, bem intencionado, tão correto na moral quanto no talento com que é realizado.

Uma cena de sexo entre dois homens; o diretor é um sujeito corajoso

“Contracorrente” abre com o close-up de um barrigão de mulher grávida. Mariela (Tatiana Astengo) está grávida do primeiro filho de Miguel (Cristian Mercado). Miguel encosta a cabeça no barrigão, faz carinho nele, e fala que o filho terá seu nome. Mariela protesta: viu em algum lugar que os fetos ouvem tudo o que se fala perto deles – e se o bebê for uma menina, e não um menino?

Miguel, bem humorado, não se deixa apanhar na evidente revelação de seu desejo machista de ser pai de um machinho, e brinca: se for menina, será Miguelita.

Tona (Juan Pablo Olivos), um dos grandes amigos de Miguel, bate à porta. Há vida nova para nascer na barriga de Mariela, mas Héctor traz a notícia de uma morte: Carlos, primo de Miguel, foi encontrado morto.

Héctor (José Chacaltana), irmão do morto, primo e melhor amigo de Miguel, pede a ele que encomende o corpo.

Não sei se Javier Fuentes-León tomou liberdades poéticas, inventou, criou, mas, na história que ele conta, o costume, a tradição entre os pescadores daquela parte do litoral norte do Peru é fazer uma cerimônia religiosa em terra e depois levar o corpo do morto em um barco até o alto mar e lançá-lo às águas. Só assim o espírito do morto descansará em paz.

E assim é feito com o corpo de Carlos.

E assim, bem no início de sua narrativa, o filme deixa claro que Miguel é uma figura respeitada, querida, naquela pequena comunidade.

Quando estamos chegando aos 9 minutos de filme, vemos que Miguel tem uma relação de amor com outro homem.

Chama-se Santiago (Manolo Cardona); é um forasteiro, homem mais rico do que todos os habitantes da vila de pescadores, vindo de alguma cidade grande. É pintor, fotógrafo. Ninguém da vila é amigo dele. Mas Santiago e Miguel são amantes.

Ainda estamos no princípio da narrativa, e o filme mostra uma trepada dos dois homens.

O diretor Javier Fuentes-Léon é um homem corajoso. Claro: a sequência da trepada gay, antes que o filme chegue aos 20 minutos, terá seguramente agradado demais às plateias gays dos festivais mundo afora – mas não chega propriamente a ser algo que garanta boa bilheteria no Peru, ou em seus países vizinhos de nuestra Latinoamérica. Eu, quieto aqui no meu cantinho, não sou nada chegado a ver barbado beijando e agarrando barbado.

http://www.youtube.com/watch?v=UFv5cLBUAp0

Até num povoado de pescadores pobres do Peru já chegaram confortos e modernidades

Uma das diversas coisas interessantes de Contracorrente, um filme definitivamente contra a corrente, é que, contra outras tantas correntes, o filme, passado num povoado de pescadores, não insiste em mostrar miséria. Não industrializa miséria.

Assim, Miguel consegue juntar alguns soles para pagar um ultrassom, no qual se revela que o filho do casal será um machinho. Todos ali são pobres, mas ninguém passa fome ou privação das coisas mais básicas. Todos são alfabetizados, lêem passagens do Evangelho nas missas conduzidas pelo padre Juan (Julio Humberto Cavero) – e o padre Juan, se não chega a ser um líder da Teologia da Libertação, está a mil anos-luz do religioso medieval, tradicionalista, rancoroso. Muito antes ao contrário.

Todas as casas – humildes, bem simples – têm sua televisão, e nelas se vêem jogos de futebol e novelas brasileiras. Miguel, mais até mesmo que Mariela, gosta de ver “El Derecho de Amar”, novela brasilera – e não brasileña – com Lauro Corona.

Achei esses detalhes fascinantes. Javier Fuentes-León não está interessado em industrializar a miséria. Mostra uma realidade do século XXI – até num povoado de pescadores pobres do Peru alguns confortos e modernidades já chegaram.

Fotografia primorosa, interpretações irrepreensíveis

A fotografia do filme é um esplendor. Há paisagens magníficas, realçadas pela fotografia primorosa. Há tomadas subaquáticas de qualidade de tirar o chapéu.

Mas o que mais impressiona são as atuações. Não há ninguém no elenco com atuação ruim.

O ator que faz o protagonista Miguel, Cristian Mercado, é boliviano, tido, segundo o IMDb, como um dos mais destacados atores de teatro do seu país. Sua filmografia, pequena ainda, com nove títulos, inclui a segunda parte de Che de Steven Sorderbergh.

Manolo Cardona, que faz o forasteiro Santiago, é colombiano; tem 22 títulos no currículo, inclusive diversas minisséries da TV da Colômbia e uma participação no abacaxi mexicano “A Mulher do Meu Irmão”. Segundo o diretor Javier Fuentes-Léon, foi uma atitude corajosa dele aceitar o papel de um homem que tem relações homossexuais, já que é um galã da TV colombiana.

A única peruana entre os papéis principais do filme – uma co-produção Peru-Colômbia-França-Alemanha – é Tatiana Astengo, que faz (muitíssimo bem) o papel de Mariela, a mulher que o marido trai com outro homem. Tem 27 títulos no currículo, inclusive a versão cinematográfica de “Pantaleão e as Visitadoras”, de Mario Vargas Llosa, feita em 2000. O diretor Fuentes-León chama a atenção, na entrevista que acompanha o filme no DVD, para o fato de que Tatiana Astengo interpreta num filme um personagem muito diferente do que ela é na vida real. Tatiana, diz ele, é uma urbanóide, e uma pessoa de grande humor – e aqui interpreta uma mulher humilde de povoado pequeno em meio a um drama denso.

Somar duas felicidades está muito acima do que somos capazes

Gostaria ainda de fazer uma conexão com outro filme (que, a rigor, é o que eu sei fazer) e uma pequena consideração.

Lá pelo meio da narrativa, Miguel diz para Santiago, a rigor para o fantasma de Santiago, que tinha achado que poderia ser feliz com os dois – com sua mulher Mariela e com ele, Santiago.

Não dá para garantir, mas muito provavelmente Fuentes-León, sujeito obviamente culto, estudado, embora jovem (deve estar com uns 45 anos) viu, nos seus estudos de cinema, “Le Bonheur”, que Agnès Varda fez em 1965.

A frase – linda, marcante, apaixonante, patética, emblemática – que Miguel diz é a cópia exata da frase que François, o protagonista de “Le Bonheur”, fala no filme de Agnès Varda, um dos filmes que mais adoro na vida. François, homem simples como Miguel, operário, que tira seu sustento com o trabalho das mãos, é bem casado com Thérèse, a mãe de seus dois filhos. Mas conhece Émilie. Émilie diz a ele: “Sou livre, feliz e você não é o primeiro; me ame”.

E então François diz: “Eu conheci Thèrese primeiro, e casei com ela, e a amo, e amo você e sou feliz. Se tivesse conhecido você primeiro, teria casado com você”. Ele acredita que possa ter uma felicidade a mais, somar duas felicidades.

O operário francês François por um momento crê no mesmo em que crê o pescador peruano: que é possível somar duas felicidades.

O filme da genial realizadora belgo-francesa e o do estreante peruano mostram que somar duas felicidades está muito acima do que somos capazes.

E, finalmente, uma pequena consideração.

Está claro que Contracorrente é uma defesa – firme, forte – da existência do amor gay. Mas não é um filme para fazer proselitismo do homossexualismo.

Proselitismo é chato. Proselitismo de que black é mais beautiful, ou de que gay é mais feliz, é bobagem. Pior: é imbecilidade.

“Contracorrente”, a meu ver, não cai nessa fria. Simplesmente defende a existência do que é diferente. Defende que qualquer maneira de amar vale a pena – e lutar por sua maneira, qualquer que seja, é bom, digno, justo.

contracorrentedvdCONTRACORRENTE
(Contracorriente, Peru-Colômbia-França-Alemanha, 2009).
Direção e roteiro: Javier Fuentes-León.
Elenco: Cristian Mercado (Miguel), Tatiana Astengo (Mariela), Manolo Cardona (Santiago), José Chacaltana (Héctor), Maria Edelmira Palomino (Doña Flor), Julio Humberto Cavero (Padre Juan), Haydeé Cáceres (Trinidad), Emilram Cossío (Pato), Cindy Díaz (Isaura), Attilia Boschetti (Sra La Rosa), Juan Pablo Olivos (Tano).
Drama / Romance.
100 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

3 thoughts on “Contracorrente: Filme peruano é inesperado, corajoso

  1. Vi hoje num canal da sky e gostei muito.
    não vi semelhança entre este filme e D.Flor …. . Neste há o sexo, mas há uma afetividade, um envolvimento sentimental importante entre os amantes – e, também há inicialmente a negação,
    por parte do Miguel, da homossexualidade. É para ele uma interrogação o interesse sexual e o envolvimento amoroso. É, para ele uma surpresa ruim, uma constatação desagradável e até humilhante. Mas, extremamente prazerosa. É um amor.
    As imagens são muito bem planejadas e cuidadas. Angulos e constrastes coerentes que induzem ao voyerismo sem culpa. As cenas de sexo são bonitas.
    A esposa não fica horrorizada com o comportamento do marido – traída, decepcionada, apenas.
    A mãe olha o ato em que ele – diante de todos que o respeitavam – assume seus sentimentos – com vergonha, saindo da janela, fugindo do olhar direto do filho.
    Miguel escolhe ser como é para manter sua dignidade.

  2. Tenho este filme, magnifico! Um de meus filmes latinos favoritos, lindo cenário o que combinou perfeitamente com uma linda história de amor… Sem mais … Não é um filme sobre o homosexualismo em sí, é um filme sobre um amor impossível (ou quase) …

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