Django Livre: Tarantino coloca o homem branco no devido lugar

Django-Livre

Quentin Tarantino sabe provocar. Sabe causar reflexão no espectador sem aborrecer. Jamais é chato. Não. Seus filmes não são pastiches de gêneros. Sim, ele usa e abusa de antigos clichês, alguns já em esquecimento, para criar obras contemporâneas, por mais que as histórias estejam ambientadas em outras épocas. Com “Django Livre” ele não faz uma simples homenagem ao faroeste. As referências estão lá. Porém, a trama é muito mais sobre a busca pela igualdade e uma crítica ao modo de vida ocidental, calcado no poder do homem branco.

Depois de reescrever o fim da Segunda Guerra em “Bastardos Inglórios” (2008), no qual os judeus incendeiam e fuzilam Hitler e seus comparsas sem dó, agora, o diretor subverte o western, gênero cinematográfico que, por décadas, exaltou os feitos dos machões do Velho Oeste. Não bastasse isso, dá continuidade a uma nova forma de encarar os caubóis proposta por Ang Lee em “O Segredo de Brokeback Mountain”. No drama de 2005, dois jovens caubóis se envolviam amorosamente, retrato que causou calafrios nos velhinhos da Academia e fizeram o filme perder, injustamente, a principal estatueta do ano, para o mediano “Crash – No Limite”. Agora, machões branquelos de chapéu viram alvo fácil na mira do herói interpretado com garra por Jamie Foxx.

O vencedor do Oscar por “Ray” vive o escravo que dá nome ao título, Django: ele sabe a identidade de três bandidos procurados pela justiça e é libertado por um caçador de recompensas (Christoph Waltz) para ajudar na busca. Durante a jornada, ficam amigos e, depois de cumprir a missão, buscam a noiva do protagonista, que presta “serviços” aos visitantes do senhorio encarnado divertidamente por Leonardo DiCaprio.

Tudo o que tornou Tarantino “cool” está lá. A violência estilizada misturada a certa dose de humor. A escolha do elenco é certeira. Desde Foxx, sempre competente, a Christoph Waltz, que já atuou sob a batuta do diretor em “Bastardos Inglórios”, com o qual ganhou o Oscar de coadjuvante e foi apresentado ao mundo. Foxx e Waltz desenvolvem química interessante. Seus personagens se completam e, ao longo da aventura, se transformam. O primeiro, de vítima vira algoz. O segundo, experiente em matar pessoas, se ressente ao ver a transformação do “pupilo”. A presença de Waltz reforça a predileção de Tarantino em repetir parcerias: há várias participações especiais que serão notadas por quem acompanha a filmografia dele. E tem ainda Samuel L. Jackson, como o negro que traiu sua raça, segue as ordens do vilão e tem prazer em maltratar os escravos. E Leonardo DiCaprio. O astro se diverte na pele de bandido, cria uma figura aparentemente tranquila, que aos poucos revela a crueldade e merecia ser lembrado nas premiações da temporada, como coadjuvante – ainda que, em sua primeira aparição no longa, tenha tratamento de estrela, vide a maneira como a câmera o flagra. Tem escolhido seus projetos a dedo e raramente figura em filme ruim.

A fotografia às vezes granulada e os letreiros que saltam à tela dão o ar retrô, de filme B, que Tarantino tanto gosta. A trilha sonora evoca os faroestes espaguete de Sergio Leone e as canções, todas excelentes, completam a aura nostálgica. O contexto, no entanto, é mais que atual. Por mais que o uso constante da palavra “nigger”, de tom ofensivo, incomode, Tarantino consegue fazer com que os preconceituosos dentro da sala de cinema se entreguem. Provavelmente você ouvirá risadinhas enquanto os negros são maltratados. Uma pena: prova de que não evoluímos tanto assim. Por outro lado, esses mesmos preconceituosos ficarão verdes quando a trama se inverter e Django mostrar a que veio.

O terceiro ato, um tanto prolongado, poderia cansar. Ainda mais quando parece que o clímax chegou e, depois, vem nova reviravolta. Só que Tarantino produz tantos diálogos legais, que jamais ficamos entediados. Após dar sua visão dos gângsteres (“Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction”), blacksploitation (“Jackie Brown”), das artes marciais (“Kill Bill”), das produções B (“À Prova de Morte”, o mais irregular de seus trabalhos) e da guerra (“Bastardos Inglórios”), o diretor nos presenteia novamente.

djangolivreposterDjango Livre
Django. Faroeste. De Quentin Tarantino.
Com Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Samuel L. Jackson, Christoph Waltz, Kurt Russel, Sacha Baron Cohen.
Com a ajuda de seu mentor um escravo, que agora é caçador de recompensas, se prepara para resgatar sua mulher das mãos de um brutal fazendeiro.
165 minutos.
16 anos.

Estreia no Brasil: 18/01/2013

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *