Paris-Manhattan: Este é seu máximo?

paris alice

Faz um tempo, eu estava saindo de um café com um livro do Woody Allen, quando me deparei com um conhecido. Depois dos cumprimentos e de perguntar se estava tudo bem e coisa e tal, ele olha para o livro em minhas mãos e diz: Este cara é esquisito. Eu respondo: Eu gosto de caras esquisitos. Ele insiste: Mas você sabe o que ele fez? E eu brinco: Naquele verão passado? Todos fizemos alguma coisa esquisita naquele verão passado. Mas ele não presta, colocou-se novamente o indelicado rapaz.  Com meu olhar laser, eu o encaro e respondo: ele não presta, ninguém presta. Se você quer saber, nem eu presto! E a coisa foi ficando estranha até ele perceber que já estava na hora dar ‘tchau’. Eu fiquei brava porque ninguém pode mexer assim com o livro dos outros, ainda mais com o que eu estou lendo. Ele estava na minha mão, quieto, esperando para voltar a ser lido e ninguém tem nada a ver com isso.

Eu sei bem do passado do Woody (nossa, que intimidade!), mas sei também que não me cabe julgar ninguém. E segundo minhas teorias, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa; e tem coisa que não é coisa nenhuma.

Agora o caso aqui é outro. Acontece que eu fui ver “Paris-Manhattan”, filme de Claude Lelouch, uma homenagem adivinhem pra quem? Sim, para Woody Allen. Confesso que fiquei olhando na porta do cinema para ver se aquele meu conhecido não estava. Eu ia soltar alguma piadinha para ele. Mas só estavam alguns casais na fila e uma adolescente parecida comigo se eu fosse adolescente.

parismanhattan2Mas vamos ao que interessa. Bem, o filme não tem o trabalho de apresentar-se, ou seja, não se preocupa em explicar ambientes e personagens inicialmente.  O próprio elenco vai se situando em cada papel dentro do enredo. Assim, “Paris-Manhattan” assume um ritmo rápido. Logo de cara, a narrativa dá um pulo de dez anos e isso, de certa forma, parece ter o cuidado de não cansar o espectador, pois logo este se vê dentro da rotina parisiense de uma mulher graciosa chamada Alice. Ela é uma farmacêutica e, além dos remedinhos nas prateleiras, conserva também filmes de Woody Allen que receita a seus clientes. É bonito de ver.

Ali, Alice incorpora todos os fãs do diretor. Mas eu digo fã mesmo. Imagine você abrindo a porta do seu quarto e quem está lá para te aconselhar? Woddy Allen! Tá certo que ele pode não ser o melhor conselheiro do planeta. E, cá pra nós, eu iria ficar mais confusa do que já sou. Mas talvez deva ser delicioso ficar confusa com um cara que tem gostos tão refinados como ele.

Vale lembrar que ele atua no filme na pele dele mesmo. Mas nada que seja assim tão surreal. Ou você nunca conversou mentalmente com o filme a que está assistindo? Ou com algum livro que está lendo? Bem, eu já! E Alice também! Nesta película, ela vive fazendo isso a cada desilusão na vida. E a cada momento decisivo ou tenso, ela conversa com o pôster do cineasta pendurado na parede de seu quarto. E ele responde! O legal é que ele responde! E qual o conflito da trama? A solterice de Alice. Na verdade, isso parece incomodar mais aos outros do que a ela mesma. E esta pressão ela divide com W.A. durante repetidas noites em seu quarto. Parecido com o que ele mesmo fez em um de seus filmes quando ouve conselhos de seu ídolo Humphrey Bogart, interpretado por um sósia.

Parece pouco, mas acompanhar um determinado escritor ou no caso, determinado cineasta, ao longo da vida, de certa forma muda a mentalidade de quem o faz. Não que saiamos às ruas a pensar e agir como nosso artista preferido. Mas nuances dessas percepções também se evidenciam ocasionalmente em nossa maneira de viver os acontecimentos. Corremos até o risco de analisarmos a vida sob um prisma que, por meio da arte, nos é apresentada. Advindo Alice de um mundo sugerido por Woody Allen em seus filmes, com suas piadas afiadas, questionando sutilmente o sistema, Alice não quer casar. Alice quer mais que isso. Alice quer um amor. Por isso que a empreitada de seu pai parece fadada ao fracasso. E conforme a história se desdobra, Alice confronta Victor sucessivas vezes com a mesma pergunta: ‘É este seu máximo’?

O enredo conta ainda com falas e citações de obras do autor que vão sendo devidamente encaixadas na trama e na boca dos atores. E eu, que assisto a filmes procurando frases, acabei ficando intrigada quando Victor solta esta: “Acorde, os deuses não amam, se deixam amar.”.

Bem, a homenagem feita pela cineasta estreante é válida quando lembramos que Woddy Allen sempre manifestou apreço a lugares, costumes, músicas, gostos em seus filmes. Ele é o inspirado que inspira. E isso me faz simpatizar ainda mais com sua obra. Na verdade, W.A. parece mais um encantado com a sétima arte, um espectador fascinado, do que um diretor com o compromisso de criar um filme para ser premiado.  Talvez por isso também, tenha encantado Claude Lelouch.

Assim, “Paris-Manhattan” segue sua homenagem ao cineasta, com um humor leve e despretensioso, perpassando temas pesados sem cansar, estabelecendo assim, uma conversa livre e solta com o público.

Ao terminar de assistir “Paris-Manhattan”, fui tomada por uma leve sensação de ter ficado um tantinho mais interessante. Eu preciso contar, por exemplo, que obedecendo ao clima parisiense presente no filme, resolvi comprar vinho tinto, pãezinhos com gergelim e molho de pimentões. Assim, enquanto escrevo, vou bebericando o vinho e mordiscando os pãezinhos. E de repente, acho que vou conseguir terminar e entregar ao Cinezen minhas impressões sobre este filme. O vinho está maravilhoso e quase me sinto uma novata nos filmes de Woody Allen ao som de Cole Porter, citado com entusiasmo por Alice em uma das esquinas de Paris.

O legal de certos filmes é isto: imprimir em nós sensações que não conseguiríamos obter com outra experiência, só a do cinema. E neste momento, minha memória adolescente acerca de W.A. é acordada. Ele habita meu imaginário até hoje como um piadista inteligente dotado de um humor afiado. Eu o assistia e ficava pensando o quão diferente ele se apresentava em relação aos outros cineastas. Há uma forte voz que afirma ser ele repetitivo. Outros ainda arriscam dizer que ele aprofunda-se nos temas que aborda. E eu, no meio de tudo isso, penso que ele não fica fora de nenhum filme que dirige, escreve ou atua. Ele está ali. Talvez seja um erro, um defeito, ou até mesmo seu estilo.

parismanhattanposterE quer saber? Apesar de algumas falhas no enredo apontadas pelos críticos, eu penso cá comigo que dá um baita trabalho fazer um filme. Você já pensou nisso? Mas de verdade? Através de uma simples analogia, eu já me vi cansada. Veja, na literatura, quando você precisa colocar uma charrete no texto, é só escrever. Você carece de certa imaginação. Mas tendo escrito devidamente e com certa coesão e coerência, a cena está pronta e quem a reconstrói é o leitor. Num filme não. Se você quer uma charrete, você tem que alugar uma charrete. Ela tem que estar lá. E a cor dela, a iluminação na cena, o condutor, os cavalos, tudo tem que se encaixar no tempo e na ação proposta para o filme.  Tá, escrever dá trabalho, porque você para a sua vida enquanto todo mundo lá fora aproveita. Mas cada um tem a epopeia que merece.

O final do filme, a parte mais esperada pelos afoitos, é mesclado de poesia e suave diversão. Vale pela ponta do nosso homenageado que arremata o enredo. Mesmo não tendo a pretensão de tornar-se um clássico, “Paris-Manhattan” me fez sair do cinema com um sorriso calmo nos lábios e vontade de sonhar. Bem, cheguei ao fim. Do meu texto, claro. Vinho ainda tem, risos. Eu vou pegar mais um pouco. Alguém está servido? Ah, e quanto ao meu conhecido e a todos os chatos de plantão, eu já sei direitinho a pergunta que farei caso eu seja incomodada novamente: É este seu máximo? Porque um filme sempre ensina alguma coisa.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

2 thoughts on “Paris-Manhattan: Este é seu máximo?

  1. Deu mais vontade ainda de assistir… Adoro o jeito que Mô escreve! Excelente!

  2. Delícia de texto. Também fiquei intrigada com a frase dos deuses. É do W. A.? De que filme?

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