Conflito das Águas documenta com lirismo uma dura realidade, recorrente em diversos níveis na América Latina

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Um ambicioso projeto une o cético e pragmático produtor de cinema Costa e o jovem idealista cineasta Sebastián: apresentar Cristóvão Colombo como um homem obcecado pelo ouro, caçador de escravos e repressor dos índios na colonização espanhola da América. Mas, devido ao baixo orçamento disponível a equipe espanhola decide se instalar em terras bolivianas, onde o custo para a filmagem é mais baixo, e a população indígena, com potencial para figuração e até mesmo atuação no filme, é abundante.

Coincidências à parte, Cochabamba, a terceira maior cidade da Bolívia, onde o filme é rodado, foi fundada pelos colonizadores espanhóis em 1571 com o nome de “Villa de Oropeza”.

Logo no início a fila da população local para uma colocação no filme impressiona e mostra que os dois países, Espanha e Bolívia, mesmo depois de quinhentos anos de história ainda carregam enormes contrastes sociais.

A grande fila de possíveis figurantes ilustra a carência da população local, que está ali em busca de algum trabalho.

O que move aqueles indígenas, ou descendentes de indígenas, não é um idealismo abstrato nascido das teorias da história ocidental. O que os move e os une é a urgência do suprimento de necessidades imediatas.

O conflito então, se estabelece entre a liturgia de criar uma obra cinematográfica de cunho critico e sociológico, e o movimento desesperado de uma população carente pelo simples acesso à agua.

Isso porque naquele momento Cochabamba está às voltas com o processo de privatização de todo o sistema hídrico a uma multinacional estadunidense. Trata-se de um episódio real, que ocorreu em Cochabamba (Bolívia) em abril de 2000. Os protestos de trabalhadores, as greves e manifestações deixaram a cidade de Cochabamba ilhada durante muitos dias, depois que a companhia norte-americana Bechtel tentou subir de maneira abusiva o preço da água. A dimensão do protesto foi tanta que a empresa abandonou o mercado boliviano, o contrato da água foi cancelado e foi instalada uma nova companhia sob o controle público.

Desta forma, o filme mescla diferentes tempos, o passado e o presente, documentando com lirismo a dura realidade das privatizações de setores estratégicos, que prejudica a população mais carente, recorrente na América Latina, sobretudo até o início dos anos 2000.

O choque cultural entre a equipe europeia de filmagem e o ambiente rústico e quente boliviano marca o filme. A atitude dos mais eloquentes jovens brancos e cheio de ideais diante da Guerra das Águas expõe a hipocrisia do discurso pretensamente engajado. Por outro lado há aqueles que surpreendem com uma atitude proativa, solidaria e humanitária quando expostos a tais desafios. Fica a questão: a obsessão pelas riquezas naturais, coerção de povos com outras culturas e o espírito colonizador são pilares de uma mentalidade de quinhentos anos atrás ou ainda presentes na Europa Ocidental?

conflitodvdCONFLITO DAS ÁGUAS
(También La Lluvia, Espanha, 2010).
Direção: Iciar Bollain.
Roteiro: Paul Laverty.
Elenco: Gael Garcia Bernal, Luis Tosar, Karra Elejalde, Carlos Santos, Raúl Arévalo, Juan Carlos Aduviri.
Drama / História.
103 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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