Argo, Godard, mercado editorial e Serras da Desordem

"Argo"
“Argo”


1)  Sobre “Argo”, de Ben Affleck

Existe uma tendência na indústria cinematográfica de “remontar” e reconstituir a realidade dos fatos históricos, para decupar,  dali, elementos de drama com a inserção de uma camada dramatúrgica, ou, para ser mais preciso, explorar a história como tragédia. Essa parece ser uma constante em Hollywood, há tempos; “Argo”é um bom exemplo disto: o que vemos no filme do ator-diretor e roteirista Ben Affleck, vencedor do Globo de ouro de 2013 nas categorias de melhor filme e direção, é a tentativa de, ao reconstituir um fato histórico que estava escondido na névoa dos documentos da C.I.A., pensar o papel do cinema e de Hollywood como uma força de intervenção política. É como se a Hollywood do filme fosse uma espécie de Partido Político do Imaginário com um poder de intervenção inegável nas decisões do Estado. O filme erra ao relativizar os manifestantes dentro de um esquema maniqueísta e explorar mais a ‘humanidade’ dos americanos do que a do estrangeiro. Mas isso não compromete o espetáculo: teria feito um bem enorme ao roteiro de Affleck a leitura de “Orientalismo”, de Edward Said, mas estamos no universo do entretenimento e não na esfera do conhecimento. Em “Argo”.

É bom notarmos, a política, leia-se a guerra, essência dela, serve-se da farsa para chegar até o humano. Levantar esta questão é o maior mérito do filme.

2)  Uma crônica sobre o filme “Nossa Música”, de Jean-Luc Godard

Azul: Agora é um outro quadro e estou vendo Nossa música de mãos dadas com Isabelle. É a quarta vez que vejo o filme e desta vez dormi um pouco depois do Inferno e acordei na cena onde Godard fala sobre a imagem. Em “Nossa Música” existe o entrelaçamento entre ficção e realidade que JGL utiliza para investigar a permanência ou impermanência de uma possível poética da imagem. Como a ultima parte do filme e a primeira, as minhas mãos, enquanto dormia, se desconectaram das mãos de Isabelle. Depois de ver o filme mais de duas vezes é fácil perceber que o inferno e o paraíso não estão de mãos dadas em um pacto de conciliação – existe uma simplificação que de fato amplia o significado da frase “o outro mundo”, aproximando este outro do Outro de Rimbaud. A mão de Isabelle dormiu junto comigo durante o Inferno de Godard, como o artista dorme dentro do jornalista ou o cineasta dentro do pintor e não o pintor dentro do cineasta. Me parece que Godard ainda é um caso raro, talvez  ele seja o último pintor e o ultimo jornalista investigativo a usar o cinema como veículo para a poética da imagem. Se havia Patti Smith em “Filme Socialismo”, em “Nossa Música” temos os escritores e poetas Juan Goytisolo & Mahmoud Darwich. A voz dos poetas equivale a uma canção de “Horses”? Sim, por estas e outras aproximações, discordo dos que vêem neste filme a busca por uma potência do falso.

Amarelo: Ao reconfigurar as palavras-movimento campo e contracampo como metáforas, ele as liberta do cinema e, no que se refere a uma ambiguidade entre o ficcional inserido dentro do documental, JGL caminha para um lugar onde o documentário pode respirar um pouco do ar onírico da ficção e assim transcender os aspectos limitadores de uma visão dicotômica entre fato e ficção. Trata-se, repito, de um embaralhamento e não de uma cartografia ambígua entre pintura e cinema, fato e ficção. Acordei com a voz de Isabelle me perguntando: ´Ariel, qual é o sonho do indivíduo?’

Vermelho: ”O sonho do indivíduo é ser dois e o do Estado ser um”,  a resposta, Godard prefere a arquitetura ao jogo. Uma arquitetura de interações entre a história da pintura e a história do cinema.

3) De uma entrevista recente:

Você acredita que o mercado editorial não dá espaço para escritores que não são consagrados?
Esta expressão “consagrado” foi totalmente banalizada. Um dos significados é “investido de funções sagradas” e, dentro deste significado absolutamente plausível e aplicável aos bons poetas, sou um escritor consagrado; ou seja, compromissado com a transcendência e com os valores do espírito humano. E não com a vaidade, a fama, o sucesso. Shakespeare, um autor consagrado, escreve: “A fama e o fracasso – estes dois impostores”. Pense em Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e em Fernando Pessoa – este, quando a polícia encontrou seu cadáver perguntou a um primo dele quem ele era e o que fazia, e o primo respondeu: “Sempre foi um fracassado, um inútil”. Quanto ao espaço para os escritores, hoje a maioria possui blogs e não existe mais a hegemonia. Apesar de ainda serem importantes, das revistas e jornais, o espaço dos escritores é em suas comunidades e nelas sempre haverá quem os leia. Kaváfis, o consagrado poeta grego, escrevia apenas para seus amigos e para os rapazes que tentava seduzir e apenas por insistência destes amigos lançou um livro que hoje está em todas as bibliotecas do mundo.

4) O melhor filme sobre a questão indígena no Brasil

É “Serras da Desordem”, de Andréa Tonacci (melhor filme de 2008, segundo a Associação Paulista dos Críticos de Arte). Nele o tempo histórico e a imagem se condensam em uma espécie de osmose poética. Tonacci embaralha não só o tempo da imagem e o tempo histórico: ele também embaralha as fronteiras entre documentário e ficção, mas não como Eduardo Coutinho, ele vai mais longe… Andrea Tonacci se interessa pela história como uma GRANDE FALCATRUA e, no final do seu longa, alcança Brecht e Dreyer em um mesmo plano. Um filme que precisa urgentemente voltar aos cinemas.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

2 thoughts on “Argo, Godard, mercado editorial e Serras da Desordem

  1. Vale à pena reproduzir a resposta a um comentário de Regina Alonso no facebook:

    Regina Alonso: Cine-teatro?

    Marcelo Ariel :Sim, Regina Alonso, existe a tessitura dramatúrgica dos roteiros de cinema e é dela que falo, a palavra é a mesma ‘ dramaturgia’ para o teatro ou para o cinema, eu uso assim… Mas me refiro no texto a uma ‘remontagem-recriação reconstitutiva dos fatos históricos realizada no caso de Argo pelos roteiristas-dramaturgos’ com um fim de direcionar para um tipo de visão dicotômica do poder, que é vendida pelas agências de governo estadunidenses, o filme digamos, limpa a barra da C.I.A. com o uso de técnicas de dramaturgia que recriam situações que são vendidas pelo filme como ‘ o mais próximo possível dos fatos reais’ , acho perigosíssimo qualquer filme baseado em fatos reais que se disponha a fazer uma ‘ possivel versão definitiva dos fatos’ , o cinema usa as técnicas da dramaturgia para criar miragens históricas. Mas não se trata de um cine-teatro qualquer, mas de um tipo que vampiriza técnicas teatrais para conferir uma dimensão de conflito épico em uma situação da qual jamais saberemos o que estava realmente em jogo e qual era a natureza deste conflito para o digamos antagonista-iraniano,é uma visão dicotômica com uma carpintaria dramatúrgica que também é usada ns discursos dos políticos, Obama incluso. As técnicas de teatro são vampirizadas pelos políticos do cinema para fins reducionistas, tudo é reduzido a propaganda de um tipo de visão do mundo ou seja Nostalgia do poder hegemônico dos E.U.A. Uma nota curiosa ao seu comentário, os cinemas antes eram chamados de ‘ Cine-Teatros’ por um motivo e eu chamo de ‘Cine-teatros’ por outro, é um tipo de análise das nervuras de um filme,como diria a Marilena Chauí, no Hotel Espinosa.

  2. Caro Xará,

    Taí um assunto que não cessa e não se esgota: realidade e ficção. Na mesma linha do ético e do estético ou sobre a questão do valor dentro da estética. Quanto mais se fala nisso, menos se esgota.

    A minha visão sobre realidade e ficção é bem infantil. A verdade é o lado de dentro de um ovo fechado, na casca, sim, mas pelo lado de dentro. Para chegar na casca do lado de dentro, é preciso quebrar o ovo. E cada um quebra o ovo a sua maneira.

    Eis o ‘imbróglio’! Existe uma expressão em língua inglesa chamada “inside history” (pessimamente traduzido por minha pobre alma como “pelo lado de dentro da história”. Não chegou no lado de dentro?! Então, temos uma versão da história, aquela que fica grudada na casca do ovo, mas pelo lado de fora.

    E se cada história real tem a sua versão, um fulcro narrativo, um ponto de vista, quem é a realidade e quem é a ficção. Sabe, Xará, cheguei num ponto da vida que comecei não dar a mínima para essa fronteira. Hoje sou pelo sabor da história, a capacidade que cada um tem de criar a sua versão da realidade. Na prosa de ficção, isso é o que conta. Como não sou poeta, acredito que na poesia a coisa deva ir mais além, mas nada substitui o sabor incomparável da realidade transformada nas saborosíssimas versões criadas por cada um de nós.

    Um abraço!

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