Brás, uma viagem no tempo

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Com certeza, nesta época de festas natalinas, a primeira impressão é que se vai falar do Bairro do Brás, em São Paulo, onde a maior parte das pessoas de todo o Brasil vai fazer as suas compras. Entretanto, vamos falar de uma viagem no tempo e o personagem principal é Brás Cubas, fundador da Cidade de Santos e da primeira Santa Casa no Brasil.

Muitos filmes já retrataram esse sonho, levando seus personagens para frente e para trás no tempo cronológico e é fabuloso imaginar o que poderia ocorrer na mente desses viajantes. Imagine, agora, cinco séculos depois, a viagem de Brás Cubas de volta a Santos.

Dos piratas por estas terras ele ouvira falar apenas de Edward Fenton e de Thomas Cavendish, pouco antes de sua morte – em Portugal – e foi por isso que se espantou tanto com esta viagem no tempo.

Desembarcou no cais do Valongo e de lá mesmo percebeu que a Santa Casa que construíra não mais existia, mas, acalmou-se quando lhe disseram que outra fora construída mais adiante e vem resistindo a tudo.

Seus acompanhantes levaram-no em um arriscadíssimo passeio a pé pela região, até o “terminal” rodoviário. Nenhum ataque, nenhum roubo…Ufa!

Embarcaram em um ônibus que para ele, apesar de todas as suas experiências de navegação a vela, era um empreendimento novo e quase assustador, que se confirmou quando o motorista começou a descer o elevado que os levaria até a Avenida São Francisco. O veículo “sambou” em desabalada carreira, numa curva fechada à esquerda, para depois adentrar perigosa e vertiginosamente na avenida franciscana, numa curva fechada à direita – sorte não vir ninguém por ali – nesse ato corriqueiro e diário que as “autoridades” não vêem.

Mais adiante o veículo enveredou pela Martim Afonso, chegou até a Praça da República e entrou na avenida Senador Feijó, onde o movimento do meio-dia e as mulheres meio desnudas nas portas dos bares e bordéis – misturadas com as jovens funcionárias dos escritórios locais – davam um ar de mercado da carne ao velho trecho tombado. Moral e fisicamente tombado. Aos trancos, barrancos e solavancos o coletivo prossegue e eles vão desembarcar na Bacia do Macuco.

Ali, Brás Cubas descobriu as dores de ser assaltado…Imagine se ele tivesse ido à região do mercado!

Em face da idade ele pôde embarcar num próximo ônibus sem pagar, apesar de ter sido incluído no rol dos “bate-coxa”. Bate, bate, bate e a roleta travada não gira.

Desceram na Ponta da Praia e o gajo ficou com torcicolo de tanto olhar para cima, para as torres e mais torres de concreto. Gostou muito do passeio no tempo, mas ficou mesmo feliz da vida quando a caravela alada o resgatou ali pelo Boqueirão, no exato momento em que três assaltantes baleavam um homem para furtar uma corrente de ouro de seu pescoço.

Ficaram gravadas no éter as suas palavras de despedida:

Saudades dos piratas do século dezesseis. Vamos! Rápido!

6 thoughts on “Brás, uma viagem no tempo

  1. Teve sorte o nosso Brás Cubas. Aliás, ele merece pois, como me disse um dia o provedor da Santa Casa, só um louco para aceitar ser “provedor da Santa Casa”. Parabéns. Bonat

  2. tempo de homens
    tempo de bichos-homens
    tempo de tiros e facadas

    altos só os prédios
    os pensamentos no chão, baixos…

    Só os poetas e os loucos para viverem nas alturas.

    Gama, essa viagem ao tempo não me agrada… principalmente quando desembarco no presente… o polvo no prédio da Ponta da Praia estende os tentáculos…
    Ah, cidade maculada…

    Seu comentário está afinado com a (triste) realidade! Abs

  3. Uma beleza o retorno do Brás.
    Só esqueceram de colocá-lo para assistir um Murão do BBB Brasil. Ele então remorreria…

  4. Agradeço a visita, meu caro Bonat, e a análise sobre a fortuna de Brás Cubas, de voltar a tempo para o seu próprio tempo.

  5. Ah, minha madrinha amiga, são tempos bicudos esses de agora. Tempo de rapaces, de rasteiros, mas vamos sobrevoando, sobrevivendo aos polvos e aos tentáculos de todos os famintos.
    Triste terra abandonada às garras dos homens-feras.

  6. Meu amigo Jansen, eu não sei o que é um Murão do BBB, mas pela sigla, pelos três “B” eu imagino o nível e, sem dúvida, o nosso Brás “remorreria”…Nem que fosse de vergonha.

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