Personagens

"Um Morto Muito Louco"
“Um Morto Muito Louco”

Uma vez, faz tempo, ouvi de um publicitário e comentarista do Festival de Cannes de Propaganda, que um comercial nunca pode ser melhor do que a marca que anuncia. Aquilo ficou gravado em mim e, com o passar dos anos de observação, constatei que realmente há comerciais tão bons, mas tão bons, que mal me lembro da marca anunciada.

É mais ou menos como um vestido, que nunca pode ser mais bonito que sua dona. Esta é a ordem, quase natural, das coisas criadas. Mas nem sempre esta lógica ou regra é obedecida.

Pois bem, hoje, em vez de falar de um filme específico, eu me proponho a falar de personagens inanimados de filmes e de como surpreenderam o público ganhando espaço na trama, bem como, muitas vezes, roubaram a cena. Eu explico: há mais ou menos três meses, tive a ideia de um conto que ainda está inacabado. Nele, a personagem principal é uma estátua. Seu nome é Susana e de tudo que já escrevi, esta me parece ser a personagem mais convincente criada por mim. Tudo estava indo bem, até que Susana criou vida própria. Tecnicamente, ela continua lá, pregada no meio da praça onde eu a coloquei. Mas na narrativa, ela tem feito coisas que não estavam no script. Imaginem, uma estátua! Sabe quando parece que uma personagem possui vida própria? Confesso que, no mundo das letras, Susana foi minha maior surpresa. Sim, no começo eu a subestimei. Hoje, porém, sinto como se ela já morasse em um mundo imaginário antes de mim e eu acabei sendo a pessoa premiada para resgatá-la. Depois que ela apareceu, ando pelas ruas olhando para toda e qualquer estátua, esperando que alguma acene ou pisque para mim. Sim, coisa de gente maluca.

"Náufrago"
“Náufrago”

Ainda, em relação ao mundo das personagens e toda sua complexidade, vez ou outra aparece algum coadjuvante que acaba virando para o grande público, o protagonista. Pensar em personagens virou agora minha distração preferida. Mas algo também mexeu com minhas percepções da realidade por causa da Susana. Além de estátuas, agora me pego pensando em objetos que, porventura, possam virar personagens. Podem rir. E como minha proposta para esta coluna é fomentar a conversa entre Literatura e Cinema, compartilho com vocês minhas percepções sobre algumas personagens inanimadas que roubaram a cena na sétima arte, surpreendendo público e roteiristas. Por exemplo, Wilson. Quem não se lembra da bola de vôlei que recebeu o nome de Wilson e virou o melhor amigo de Chuck Noland (Tom Hanks) em ‘O Náufrago’? Quem assistiu ao famoso filme, pode se lembrar das dificuldades enfrentadas por Noland para sobreviver. De todas, porém, a maior dificuldade foi a solidão. E se vocês ainda subestimam o papel de Wilson na trama, pergunto: como a plateia iria saber das angústias do protagonista se não fosse uma simpática bola de vôlei? O próprio Tom Hanks revelou que antes de Wilson aparecer na trama, seu desespero de estar sozinho numa ilha era verbalizado através de expressões faciais, o que desconfiara, não iria segurar a atenção do público por muito tempo. Assim, queridos leitores, nenhuma história nasce para ser de uma pessoa só. Não há história que se sustente assim e nisto também reside uma grande lição para nós.

Outra mostra de que personagens inanimados podem roubar a cena é o caso do anão de jardim no filme ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’. O anão simplesmente sai de Paris para o mundo. Vejam, que arteiro! Quem assistiu, pode se lembrar de que não adiantaram os diálogos de Amélie com o pai para que este abandonasse seu universo tão limitado de lembranças da esposa falecida. Assim, enquanto o velho arrastava-se em dias sombrios, o Anão lhe passava uma lição com lindos cartões postais: viva a vida!

A próxima figura inanimada vem direto do túnel do tempo. Eu e vocês, com certeza, já nos encontramos com ele em algumas sessões da tarde: ‘Um Morto Muito Louco’. Lembram-se? Um filme irritante do começo ao fim, mas preciso confessar que sempre deixava pra lá a louça do almoço e ficava na poltrona vendo as confusões nervosas envolvendo o trio. E meus olhos, juro, só ficavam em Bernie, o morto. Até hoje eu não lembro o rosto dos dois que o seguraram o filme inteiro. Acredito que foi um dos atores que menos falou em filmes americanos do final dos anos oitenta, mesmo assim, conseguiu roubar a cena com seu papel.

Estava quase no final deste texto, já para falar sobre a última personagem inanimada, quando me sobreveio o angustiante questionamento que, humildemente, divido com vocês: quais os critérios que promovem a personagem principal? Podemos classificá-la com alguém que movimenta a narrativa ou simplesmente os fatos giram em torno dela? Quantas vezes em uma novela ou romance, aquela que seria a ajudante da mocinha acaba caindo nas graças do público? Quantas vezes o príncipe se mostra irritantemente metido e todos acabam por gostar mais do simples ajudante que lava e alimenta os cavalos? Bem, essas perguntas, com certeza, ainda trafegarão em meus textos até a resposta se solidificar. Isso se houver resposta sólida para perguntas tão intrigantes.

"A Garota Ideal"
“A Garota Ideal”

O que me atrapalha no momento é Susana. Ela mexeu com minhas estruturas. E vasculhando minha memória, encontrei uma prima distante dela, feita, no entanto, de outro material. Seu nome é Bianca. Dela, poucos devem se lembrar. Poucos também, imagino, assistiram. Para mim, assim como ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’, é um dos meus filmes queridos. Um dos mais delicados a que assisti. Eu me refiro ao longa ‘Uma Garota Ideal’  escrito por Nancy Oliver e dirigido por Craig Gillespie, lançado em 2007. Trata-se de um rapaz solitário chamado Lars, que vive numa cidade pequena e só sai de casa para o trabalho. Pouco se comunica com os amigos e familiares. Tal comportamento vai causando preocupação devido ao seu isolamento social. O jovem deixa sua vida passar sem grandes planos ou intervenções. Até que, num belo dia, chega sua encomenda da Internet: Bianca, uma boneca inflável que todos sabem para que serve. Mas para Lars, ela é sua namorada missionária e paraplégica. Aconselhados por uma médica da família, toda a pequena cidade entra na fantasia de Lars e Bianca passa a ter uma vida agitadíssima. Bianca é simplesmente apaixonante! Todos ficam fascinados por ela até Lars ficar enciumado e isso causar conflito no relacionamento dos dois. As cenas, não sei, se foram feitas para rir ou para chorar. Acontece que dá um aperto no coração rir da solidão, sabe? Rir de alguém que está fazendo de tudo para tentar enfrentar seus fantasmas. O filme é sensível e o roteiro inovador. Abre em alguns, a comporta das lágrimas. Eu, como bem imaginam, fui tocada por este filme. Assim, da mesma forma que as outras personagens inanimadas conseguiram abrir caminhos na narrativa, Bianca consegue tal feito. Esta película é um prato cheio para a psicanálise, mas garanto que enquanto estive ali, absorta no filme, não analisei nada. Apenas senti. Só depois que as cenas vão decantando na gente. Bem, pra mim é um filme lindo. E Bianca é a minha eleita como vencedora deste pódio que eu mesma inventei: o das personagens inanimadas. Antes do final do filme, Bianca já nos conquistou. E isso é incrível. Uma das melhores sacadas de roteiro que já vi.

E querem saber? Criar personagem, esmerar-se nisso, é um troço maluco. A gente sabe, no fundo, que é tudo ficção, mas quem explica certas personagens mexerem tanto com a gente? É meio como filho, a gente gera, mas não sabe se o camarada vai ser um chato de galocha ou o melhor boa pinta da praça. Imagino a apreensão do roteirista deste filme. Bem, eu me despeço por aqui desejando que este ano vocês possam beber mais da arte em todas as suas vertentes. Desejo ricas lições, mas todas sempre deliciosas de serem aprendidas. E nada como um filminho para nos dar um toque, um sopro suave de sonho nesta nossa nada mole vida, não é mesmo?

Quanto a mim, meu queridos leitores, volto agora à Susana, minha personagem para o conto que espera há três meses ficar pronto. O plano não era esse, mas vejam só: a vida também não nos surpreende quando, de repente, alguém rouba a cena ou o nosso coração sem a nossa permissão? Então ficamos assim. Que 2013 nos surpreenda com belos roteiros de vida e personagens! E que importância tem se o vestido for mais bonito que a dona? O importante é dançar no baile. Um beijo a todos, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

3 thoughts on “Personagens

  1. Preciso ver esse filme: Uma garota ideal… 🙂 Adorei a abordagem sobre os personagens inanimados,
    No meu trabalho nossa impressora colorida tem nome e eu converso com ela, acredite, rs…e todos a tratam com respeito 🙂

  2. Adorei o texto! É de se fazer apaixonar como todos os seres inanimados coadjuvantes citados nele. As referências são ótimas. Até eu tinha me esquecido de como o “morto muito louco” rouba nossa atenção de uma maneira simples, mas que funciona perfeitamente até hoje, para qualquer público.

    Também desejo que nossas vidas recebam um enredo de coisas boas este ano. Com muitos personagens bons – protagonistas ou não.

    Espero ansiosamente o próximo texto, querida Mô.

  3. Adorei o texto, amiga querida do meu coração. Amelie Poulain Forever!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *