Moonrise Kingdom: Que tipo de pássaro é você?

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Eu sei que adentrar o cinema abraçadinha a um belo rapaz retira toda a obrigação de um filme ser bom. Corre-se até o risco de alguém perguntar o nome do ator principal e a memória falhar por culpa dos beijos no cangote, como diria Xico Sá. E ele também, garanto, há de concordar comigo que cinema é um dos melhores lugares do mundo para namorar. Mas não foi bem essa a situação na qual me envolvi. Eu recebi uma tarefa: apresentar para este site tão respeitado que é o CINEZEN um texto meu sobre a sétima arte. Tarefa tensa, já que minha maior empreitada no assunto foi comentar sobre filmes em aulas de Literatura para meus alunos. Aliás, sempre apostei na conversa entre as duas artes.

O que cabe dizer aqui é que acredito que a Literatura pode sim beber das águas do Cinema e vice-versa, ainda que sejam artes distintas na forma de se apresentar. Por exemplo, agora mesmo, algum jovem colombiano metido a escrever pode estar com os olhos grudados na tela a fim de achar elementos para seu conto. Assim como algum roteirista iraniano pode estar absorto em algum clássico da Literatura para compor personagens cheios de elementos.

Mas adianto, querido leitor, que sou debutante no exercício de escrever sobre assunto tão rico e propício a reflexões. Mas me atrevo. Deseje-me sorte pelo caminho, vou precisar. O filme escolhido? “Moonrise Kingdom”, do diretor Wes Anderson. E vou explicar por quê. Bem, o elenco me atraiu: Bill Murray, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, entre outros.

Sempre me anima o fato de um ator experimentar um gênero de filme diferente daquele no qual ficou consagrado. Eu gosto de ver essas experimentações e admiro quem se aventura nelas. O que me atraiu também foi observar o cartaz de divulgação do filme contendo um ar vintage. De uns tempos pra cá, essa onda passeia pelas ruas e galerias e eu presto muita atenção nisso. E está lá, a fotografia amarelada do filme remonta o clima retrô de que falo.

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Antes de tudo, porém, é preciso avisar que “Moonrise Kingdom” não se enquadra nos inevitáveis clichês do cinema, ou seja, você não vai encontrar cenas em que o mundo está em perigo ou heróis que desvendam qualquer código improvável de segurança. Também não há vilões querendo dominar um vilarejo ou um país inteiro. Mas sim, vale lembrar que há derramamento de sangue no filme. Acaba de me escapar um risinho ao me lembrar da cena em que isto acontece. Aproveito também para escutar a trilha sonora enquanto escrevo. Isso, claro, ajuda a recriar o clima. Acabo de inventar também um critério bem pessoal para mensurar a qualidade da trilha sonora que compõe o filme:

1. Em certas cenas, ainda que os personagens não falem, a música fala por eles. Isso acontece em “Moonrise Kingdom”.

2. Ao escutar determinada música do filme novamente, como faço agora, consigo remontar a cena na cabeça, assim como as sensações por ela causadas. Bem, dois critérios muito pessoais já são suficientes para dizer que a escolha da trilha sonora foi feliz por dar ao filme o tom cômico e aventureiro proposto em seu argumento. Não ria, leitor. Assista, ouça e me diga.

Quanto ao  enredo, este vai levando você. E segundo meus critérios muito pessoais de novo, este atributo é essencial: conduzir o espectador sem que este perceba estar sendo levado, seduzido. O enredo tem a obrigação de levar, conduzir, de forma suave ou violenta, laçar quem se envereda por ele. E quando menos se percebe, já acabou o filme ou o livro pretendido. “Moonrise Kingdom” também consegue isso.

Falemos agora de Suzi. A personagem é uma menina de doze anos. Leitora. E eu gosto de personagens que leem. Geralmente são um perigo. Quando Suzi resolve fugir de casa, leva consigo uma mala cheia de livros. Pronto! Já gostei dela porque nos meus planos de fuga também levarei meus livros. Talvez Suzi sofresse da síndrome dos que leem vorazmente quando disse: “Não quero ficar presa num lugar só”. Isso fica claro no filme quando se percebe os mundos criados a partir da não aceitação do mundo imposto. A casa onde Suzy vive é enorme e fica numa ilha onde o tédio predomina. Seus pais levam uma vida vazia e ela observa tudo através de um binóculo, tamanha a distância entre ela e todos. A história de fato começa quando Sam  faz uma pergunta intrigante a Suzy antes de uma cantata na igreja: “Que tipo de pássaro você é?” Uma pergunta boa para ser feita por aí. Foi suficiente para que a menina se apaixonasse. Sam é um escoteiro órfão, porém, durante a trama, não há aprofundamento nas dores ligadas à orfandade, e sim, ao inconformismo com situações já fechadas de vida.  A partir daí, Suzy e Sam trocam cartas reforçando o vínculo antes do plano de fuga.

Tudo é tratado através de um humor perturbado, meio nonsense. A aproximação da câmera em alguns momentos do filme faz você realmente sentir que está no meio de uma epopeia  juvenil.  Sentimentos ligados ao mal estar de viver e à tal conhecida angústia da existência movimentam a história. A temperatura da plateia – eu meço isso, você não? – também nos diz algo quando escutamos gargalhadas. É preciso estar atento para o momento em que elas ocorrem.

moonrise-kingdom-international-posterEm “Moonrise Kingdom”, consegui reparar que as risadas eram audíveis quase sempre durante as cenas recheadas de ingenuidade. Aliás, essa é uma das palavras que resume “Moonrise Kingdom”. Tudo, mesmo os atos mais insanos e perversos, são recheados de uma ingenuidade quase ridícula que provoca risos. Ou uma doçura que disfarça a violência. Nessa trama, todos falham. A menina que falha na obrigação de ser feliz; o menino órfão que falha ao tentar ser grato por ser adotado; o chefe de escoteiros que falha por não controlar seu acampamento. Cada uma das pessoas fracassa em seus postos e uniformes bem montados. Os adultos então se superam em falhar em seus papeis. Tirando essa reflexão pesada, o filme aposta no sentimento nostálgico, onde os personagens são quase excêntricos. Um ar folk e um grito de guerra juvenil estremecem a conformidade do mundo adulto que parecia tão bonitinho.

“Moonrise Kingdom” não acaba nos créditos finais. Você sai pensando seriamente se a infância é mesmo a fase que vai definir o adulto que você vai ser. Fora a vontade de se aventurar por aí, você começa a pensar nos vários adultos amarelados que conhece. Meu querido leitor, chega a ser desonesto de minha parte tentar pinçar todos os elementos psicológicos e de crítica à sociedade abordados no filme. Isso daria mais que um texto para o Cinezen. Confesso que eu assisto a filmes me perdendo neles. Eu me projeto na tela e fico me imaginando nas cenas. E pergunto a você: será que nós adultos, se caso fosse necessário, teríamos coragem de arrumar as malas hoje e partir? Ou só o coitado do Belchior carrega ainda essa coragem? Supondo ainda que o tal rapaz me distraísse beijando meu pescoço, ficaria brava porque fiquei muito interessada nos diálogos do filme. E principalmente, nesta pergunta intrigante que continua a ecoar nos meus ouvidos de dentro: “Que tipo de pássaro é você”?

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

11 thoughts on “Moonrise Kingdom: Que tipo de pássaro é você?

  1. Excelente! Fiquei doido pra ver o filme,a curiosidade é saber se realmente o “menino não é pai do homem” ou que tipo de pássaro é cada um de nós? Valeu,parabéns!!!

  2. Lindo texto. Do tipo que me fez ficar morrendo de vontade de ver o filme! ;))

  3. Sensacional… O estilo é, ao mesmo tempo, cativante e inconfundível. Mô, você se supera sempre. Como a Evelin, também fiquei com vontade de ver o filme e perguntar-me “que pássaro sou”. Vou procurar para assistir ainda hoje, se é que já existe em DVD.

    Ah, e parabéns pelo texto. Aguardo novas dicas de filmes!

  4. Não quero assistir ao filme, quero senti-lo, percebendo todos esses delicados detalhes, que só o olhar de sensíveis pessoas podem ter! Adorei!!!
    Parabéns, Mô Amorim, por trazer à sétima arte este seu sensível olhar!

  5. Oi Mô,

    Seu texto me deixou com água na boca se tiver oportunidade vou assistir. Posso sugerir um filme que me deixou um tanto incomodada? “A Pele que Habito” do Pedro Almodóvar. Gosto do cinema alternativo, aquele que mexe com suas crenças, seus hábitos, seus princípios. Filmes que desconstrói. Que te vira de ponta cabeça.
    “Ando meio desligada que nem sinto os meus pés no chão”.

  6. Fiquei com vontade de ver o filme, mas tenho dúvida se ele será tão bom quanto sua crítica 🙂
    Fico no aguardo das próximas. A gente também pode sugerir os filmes? (Agora quero saber sua opinião sobre outros!)
    Parabéns!

  7. Mô, lendo seu texto fiquei encantada, com suas palavras e com o filme, como os demais: morrendo de vontade de assisti-lo. Parabéns querida… bjs no coração

  8. Mô querida, adorei seu texto e fiquei com vontade de assistir o filme. Parabéns e sucesso sempre. bjus

  9. Aun, li o texto e vou ver o filme hoje… percebi que as crianças caprichavam nas coisinhas para os encontros a dois. Na arrumação das malas, estou preparando uma cesta com vinhos, queijinhos, petiscos, máquina fotográfica (pintar não é meu forte), canga, livro, ipod, um jogo de dadinhos. E vou puxar correndo meu namorado pela mão!

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