Uma Casa de Esquina

Os pais nos transmitem lições, nos passam imagens e nos ensinam de uma forma tão pessoal e amiga, que cada momento permanece nítido em nossa lembrança, hoje já tão antiga.

Eu cortava a barba e as mesmas duas vozes que me fizeram levantar da cama antes da hora, ainda persistiam, penetrando nos meus ouvidos e foram me levando às lembranças de meu pai, um homem sábio, que no penúltimo dia do mês de julho, teria completado 108 anos. Sim, no mesmo dia em que Mário Quintana, o poeta.

Divaguei à frente do espelho e fui me lembrando que ele reconhecia a sua inaptidão para os negócios, embora fosse um homem de criação, de soluções, de bons textos e, até, de razoáveis desenhos.

Deixou de comprar alguns terrenos quando pôde, já dentro da capital, só porque ali havia barba-de-bode, um mato que desqualificava a terra; como se ali ele fosse plantar sementes vegetais.

Tinha alma de poeta, um imenso amor e respeito pela natureza, que nos foi transmitindo aos pouquinhos.

Alertava para nunca comprar um terreno de esquina, se não fosse para comércio; uma casa de moradia, então, nem pensar, porque ali se reuniriam os bêbados em fim de noite, ladrariam os cães vadios ou os vadios humanos a blaterar, ao abrigo da sombra do poste da esquina, fariam parada as adúlteras e, quiçá, as de vida fácil.

Uma esquina sempre tem dois muros, para abrigar os ladrões e tem duas vias, ainda, onde o barulho duplica e os acidentes também.

Parei o corte da barba, vim para aqui escrever e agora me ponho a pensar, que a minha cidade, assim como o meu país, se assemelha muito com uma grande casa de esquina.

4 thoughts on “Uma Casa de Esquina

  1. Caro amigo Gama,
    Seu pai foi um sábio e o filho teve a quem puxar.
    Jamais morarei numa casa de esquina, embora more num país que esquina já é. Mas, neste último caso, não tenho escolha.
    Parabéns. Bonat

  2. Meu amigo Bonat
    Agradeço a visita, a leitura e o comentário.
    Tenhamos ainda a esperança de ver o nosso país sair dessa encruzilhada.
    Fraterno abraço,
    Gama.

  3. Caro Gama,
    Linda a lembrança do seu pai, que deveria mesmo ser sábio. Tão simples os critérios da casa da esquina. Nunca havia pensado nisso, e é tão flagrante a sensatez da observação.
    Não sei como, mas soube, também não sei se é verdade, que seu pai foi um grande jornalista do Estadão. Você tem a quem puxar, como diz seu amigo Bonat.
    Belo Horizonte, 08/02/13

  4. Realmente, Jansen, meu pai tinha mais tendência a sábio, que a qualquer outra coisa. Nenhuma queda para a materialidade e muito menos para juntar o que não lhe servisse na próxima caminhada.
    Era mesmo um observador sensato, embora tivesse a mão pesada sobre o lápis e a língua solta que eu herdei.
    Esses três fatores lhe custaram muitos dissabores e, por fim, a aposentadoria no jornal – “a convite” – depois de quase quarenta anos de casa e alguns textos mais cáusticos, que desagradaram gente no “podrer” (a palavra era de seu uso).
    Tomara eu tenha mesmo puxado os dotes morais de meu velho pai.
    Agradeço-lhe e o abraço.

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