Sacco e Vanzetti: a liberdade do pensamento e as relações do poder

Na América do Norte, assim como no Brasil, no período que se estende da metade do século XIX até às três primeiras décadas do século XX, recebeu milhões de imigrantes europeus, que chegaram de suas terras praticamente sem nada para trabalhar nas indústrias, sendo parte de um grande processo de industrialização, expansão e consolidação do sistema Capitalista.

Ao aportarem nos Estados Unidos, os imigrantes italianos traziam a ambição de conquistarem a América, fazer fortuna e retornar à sua pátria.

Porém, o estilo de vida americano, vendido nos cartazes divulgados na Europa (na verdade em busca de mão de obra barata), não condizia com as reais condições em que os imigrantes eram submetidos.

Na América, os italianos sofreram grande discriminação, tendo que viver em aglomerados, observados como forasteiros aos olhos da sociedade americana.

Se por um lado os italianos trouxeram pouco, ou quase nada, em contrapartida, chegaram à América com uma imensa bagagem de ideias oriundas de um longo processo das relações conflituosas entre capital e trabalho, que se iniciara há mais de 100 anos na Europa.

No momento histórico do filme, alguns países passavam por grandes transformações políticas. O medo do socialismo, como acontecera na Revolução Bolchevique, na Rússia (1917), fez com que a vigilância e repressão aumentassem em diversos pontos do globo. Movimentos como o anarquismo e o socialismo, que propunham um sistema diferente do modo de vida e estruturação social do Capitalismo, eram reprimidos com violência.

No filme, diante da exploração extrema, o peixeiro Bartolomeu Vanzetti encontra nas ideias anarquistas as explicações necessárias e alternativas para um sistema mais justo e com oportunidades para todos. É numa reunião do movimento anarquista que Vanzetti conhece o sapateiro Nicola Sacco.

No combate às ideias contrárias ao capitalismo, o Departamento de Polícia de Boston realizou uma batida no conjunto habitacional/bairro constituído principalmente por italianos.

Em meio à violência, invasões domiciliares e repressão ao escritório político do Círculo Italiano do Trabalho, onde se realizam as reuniões, Sacco e Vanzetti fogem levando material anarquista. No trem são parados por policiais, que, ao os revistarem, encontraram duas armas.

Imersos nesse momento histórico de afirmação do capitalismo na América diante da opção socialista é que se desenrola a história verídica dos dois imigrantes operários italianos, acusados de roubar e assassinar, em dia 5 de maio de 1920, na cidade de Soupt Brainter, no Estado de Massachusetts, o contador Frederick Parmenter, e o guarda-costas, Berardelli, quando saíam da fábrica de calçados Slater & Morril, com US$ 15 mil referentes ao pagamento semanal dos operários.

Como o Sistema necessitava de bode expiatório para dar uma resposta aos atentados às autoridades americanas e fazer valer como exemplo aos demais anarquistas, atrelaram as armas Sacco e Vanzetti ao crime da caixa da fábrica de calçados.

Da acusação formal na delegacia à inquisição no tribunal, o que se vê a partir de então é a mão do sistema fazendo valer as regras que ele mesmo estabelece.

Para incriminar os imigrantes, o Estado Americano nomeou o promotor Katzmann, que inventou, manipulou e ocultou dados importantes no processo, que vão de testemunhas às armas.

Movidos por racismo (além do temor socialista/anarquista), em uma cena chave, no Tribunal, o promotor Katzmann discursa a todos: “Dói o coração ver aqueles coitados vindos das terras mais distantes, na miséria, incivilizados. Italianos, gregos, poloneses, porto-riquenhos, chilenos. Dá pena, é verdade. Pensar em seus esforços sobre-humanos para lançar raízes numa civilização superior, para adequarem aos nossos costumes, à nossa mentalidade.” Em contrapartida, o advogado de defesa, Moore, revolta-se: “- Racismo!”.

No entanto, Katzmann prossegue em seu discurso de ódio: “Membros do júri, quer pior racismo de quem, como a defesa quer contrapor a leais cidadãos americanos, a testemunhas corretas e conscienciosas, uma massa de pobres imigrantes, que nada sabe sobre dos nossos princípios nacionais, dos grandes ideais da democracia e de justiça, que regulam nossa livre sociedade. Indivíduos que nem falam a nossa língua!”. (…) “É gente como essa que representa o maior perigo para as nossas livres instituições”.

O julgamento se estendeu por sete anos, de 1920 a agosto de 1927. A acusação sem fundamentos virou notícia. “Sacco e Vanzetti” moveu e comoveu multidões nos Estados Unidos e em diversos países.

Sacco e Vanzetti, com a repercussão do caso, já não estavam mais sendo julgados por terem ou não roubado ou matado, mas sim por se tornarem símbolos dos oprimidos em todo o mundo.

Todas as ações para condenar à cadeira elétrica os operários italianos transcendiam os fatos em si, mas representavam uma ação do Estado para coibir qualquer movimento que não compactuasse ao Capitalismo.

Diante da situação imposta pelo Estado, a melhor defesa seria encontrar os verdadeiros autores do crime. Advogado de defesa descobre criminosos, no entanto, mesmo admitindo, o Estado americano não absolveu Sacco e Vanzetti.

O consciente Vanzetti, no tribunal, ao constatar a manipulação e distorção completa dos fatos diz: “estou aqui sendo julgado pela luta contra a exploração do homem pelo homem”.

Curiosidades: O filme foi lançado em 1971, mas só foi exibido no Brasil em 1980 devido à censura militar.

Premiação: O ator Riccardo Cucciolla, que interpretou Sacco, recebeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 1971.

SACCO E VANZETTI
(Sacco & Vanzetti, Itália / França, 1971).
Diretor: Giuliano Montaldo.
Roteiro: Otavio Jemma, Giuliano Montaldo.
Elenco: Gian Maria Volonté, Riccardo Cucciolla, Cyril Cusack, Milo O’Shea.
Drama.
121 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

One thought on “Sacco e Vanzetti: a liberdade do pensamento e as relações do poder

  1. Sacco e Vanzetti foi um dos muitos filmes proibidos pela censura militar, como O ATENTADO, QUEIMADA, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, GIORDANO BRUNO, A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO e outros. É preciso homenagear Gian-Maria Volonté, lembrar esse ator cujo engajamento político o levou a trabalhar com Miguel Littin, diretor chileno exilado, sem remuneração, em ACTAS DE MARUSIA, cuja filmografia ligada ao engajamento político é extensa, é só conferir. A intolerância americana ligada ao preconceito em relação aos estrangeiros foi muito bem abordada em PORTAL DO PARAÍSO, boicotado pelos próprios EUA, e ficou com a fama de falir a UNITED. Eles não quiseram mostrar aquele lado cruel da “democracia” americana, preferiram arcar com o prejuízo.

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