Mississippi em Chamas: Denuncia o vergonhoso e devastador racismo do sul dos Estados Unidos

Estranho pensar que há menos de 50 anos, no sul dos Estados Unidos, os negros eram ainda tratados de forma desumana, violenta e discriminatória, com anuência do poder público. Claro que, como esse espaço de tempo é curto, do ponto de vista histórico, traços desta cultura fascista ainda são perceptíveis.

Mas, remanescentes da Ku Klux Klan tiveram que engolir Barack Obama mais uma vez, em uma eleição em que os hispânicos mostraram toda sua força.

“Mississippi em Chamas” conta, de maneira fictícia, a história verídica da investigação do FBI sobre o brutal assassinato de três ativistas dos direitos humanos (dois brancos e um negro), em 1964. No filme, dois agentes do FBI, Alan Ward (Dafoe) e Rupert Anderson (Hackman), são enviados ao Mississipi – onde a Ku Klux Klan tinha força – para realizar a investigação. Eles são tratados com hostilidade pela comunidade branca local, inclusive pelas autoridades políticas e policiais. A comunidade negra, por sua vez, sente-se acuada diante da possibilidade de retaliações e prefere se calar, pouco se pronunciando sobre os desaparecimentos.

Ward e Anderson logo percebem que precisarão de reforços para sua missão. Com a inteligência peculiar do FBI eles se infiltram na comunidade e conseguem as informações que precisam para montar o quebra cabeça que desvendará o crime. Mas a temporada no Mississippi mostra que o problema é mais fundo que parece. O clima de violência e opressão dos brancos em relação aos negros é a regra naquela região. Mais do que uma postura voluntariosa de uma elite atrasada e preconceituosa, esta violência, como o filme mostra de maneira nítida, é institucionalizada e organizada através da tenebrosa Ku Klux Klan.

Tal seita fascista, criada no Tennessee em 1865, após o final da guerra civil americana, oscilou entre momentos de grande atividade e longos períodos de ostracismo. Seu objetivo inicial, e o principal deles, perseguido ao longo de toda sua história, foi o de impedir a integração social dos negros, embora a Ku Klux Klan também fosse contra católicos, judeus, asiáticos e outros imigrantes.

A organização, que ficou conhecida por suas ações extremamente violentas, chegou a ter quatro milhões de adeptos na década de 1920, incluindo autoridades políticas. No fim da década de 1960 eles entraram em declínio e não chegaram a ser mais do que grupelhos neonazistas. “Os crimes que a Ku-Klux-Klan cometeu até a sua recente proibição, sobretudo nos estados do Sul dos Estados Unidos, são tão variados e numerosos, tão cuidadosamente velados e tão intimamente amalgamados com as singularidades da vida pública naqueles estados, que nunca seria possível abrangê-los a todos” (Time Magazine, 1965).

Ambientado na década de 1960, época da insurgência do movimento pelos direitos civis, que tinha Martin Luther King como um de seus principais expoentes, “Mississipi em Chamas” é um filme que denuncia o vergonhoso e devastador racismo do sul dos Estados Unidos.

O dogma da supremacia do homem branco protestante sobre os demais permeou, por muito tempo, a organização social, política e cultural daquela região.  Contra seus efeitos ainda temos muito a lutar.

O filme foi precedido, em 1975, pelo documentário “Ataque ao terror: o FBI versus a Ku Klux Klan”, que narrou o mesmo episódio.

MISSISSIPI EM CHAMAS
(Mississippi Burning, EUA, 1988).
Direção: Alan Parker.
Roteiro: Chris Gerolmo.
Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand.
Drama / Thriller.
128 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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