A Outra Família: Um drama sério, denso, no México de hoje

Eis aí um drama sério, denso, feito e passado no México de hoje. “A Outra Família” trata de uma série de temas importantes: paternidade, adoção, bebês de laboratório, casais homossexuais e filhos, preconceitos, drogas, gente que não deveria ter filhos e tem. E conclui que, quando o Estado se intromete em questões familiares, o faz com despreparo, truculência, brutalidade, injustiça.

O diretor Gustavo Loza é também o autor do argumento e do roteiro. Está na ativa desde 1991, tem 16 títulos como diretor e 10 como roteirista, entre longas-metragens, curtas e séries de TV. Há pouquíssimas informações sobre ele no IMDb e na Wikipedia em espanhol. Pelo que mostra neste “A Outra Família”, tem talento, segurança, experiência. Há momentos em que demonstra ainda uma certa imaturidade – na direção de atores, na definição dos personagens. Mas as qualidades são bem maiores que as pequenas falhas.
A trama que Gustavo Loza criou é complexa, rica, com diversos personagens e diferentes situações. É quase um mosaico, uma estrutura multiplot – embora todos os personagens acabem tendo uma ligação, basicamente em função de Hendrix, um garotinho de sete anos de idade, interpretado por Bruno Loza. O mesmo sobrenome. Seria filho ou sobrinho do diretor? Não encontrei essa informação, numa busca ainda que rápida pela internet.

Um garoto filho de uma mãe que jamais, jamais deveria ter tido filho

Hendrix nunca conheceu o pai, e a mãe é daquele triste mas comum tipo de pessoa que não deveria jamais ter filhos. Chama-se Nina (Nailea Norvind), e está afundada até o último fio de cabelo no inferno das drogas. Fuma crack e cheira cocaína direto e reto, com um namorado, Patrick (Andrés Almeida), sujeito asqueroso, nojento.

No início da narrativa, Nina enfia-se num trip de droga com Patrick durante três dias consecutivos, deixando Hendrix abandonado no apartamento em que vive com a mãe – uma pocilga desmazelada, que mais parece um depósito de lixo.

O garoto é resgatado por uma conhecida de Nina, Ivana (Ana Serradilla, atriz belíssima).

Ivana é lésbica, e vive com Gloria (Ana Soler), uma mulher mais velha, que já passou dos 40 anos; as duas estão planejando ter um filho, com a assistência de uma clínica em Houston, no Texas: um doador entrará com o sêmen, que fecundará um óvulo de Gloria, o qual será levado para o útero de Ivana. Dessa maneira, as duas imaginam que serão igualmente mães do bebê.

Cada loucura que as pessoas inventam, meu Deus do céu e também da terra.

Ivana e Glória estão com viagem marcada para Houston, e portanto não podem ficar com o garoto Hendrix. Assim, Ivana pede que seu amigo Jean-Paul (Jorge Salinas) quebre esse galho.

Jean-Paul, por sua vez, é casado faz dez anos com Chema (Luis R. Guzmán). Os dois se dão extremamente bem, são um casal feliz, e acabam de comemorar os dez anos de união com uma grande festa abençoada por um padre progressista, amigo deles, Tomás (Alejandro Calva).

O casal homo se afeiçoa pelo garoto, e ele pelos dois

Jean-Paul é um publicitário extremamente bem sucedido; o casal mora numa casa espetacular, tem todo o conforto. Os dois vão rapidamente se afeiçoar pelo garoto – e Hendrix, embora saudoso da mãe, também gosta deles.

Os empregados do casal rico – Doña Chuy (Carmen Salinas) e Gabino (Silverio Palacios) – igualmente se encantam com Hendrix. Mas preocupam-se, Gabino em especial, com o que aqueles dois veados vão fazer com o garoto.

Jean-Paul e Chema não vão fazer absolutamente nenhum mal ao garoto por quem se apegam – mas o preconceito contra casais gays é imenso.

Nina, a mãe drogada, em seus poucos momentos de alguma lucidez, vai querer retomar o filho, levá-lo de volta para a pocilga em que vivem.

Até aqui, já há personagens demais e motivos para problemas, incompreensões, dúvidas sobrando. Mas as coisas não param por aí.

O namorado da mãe vagabunda, o tal Patrick, deve um monte de dinheiro a um agiota truculento, Caiman (Mario Zaragoza). Sem um pingo de caráter, decide vender Hendrix a um casal rico que não pode ter filhos, Agustin e Luísa (Juan Ríos) e Dominika Paleta.

E há ainda dois outros personagens na trama emaranhada, mais periféricos: George (Luis Gerardo Méndez), irmão da bela Ivana, e que o casal de moças deseja que seja o doador de sêmen; e a amante de Agustin, o rico que fica interessado em comprar Hendrix. Não achei o nome da atriz que interpreta a amante, e é uma pena, porque é um mulherão fantástico; aparece em apenas uma sequência, nuazinha – um estrondo.

Como ainda é forte, pegajoso, nojento, o preconceito contra casais gays

A bela história criada por Gustavo Loza embaralha muito bem os destinos de todas essas pessoas. A ação concentra-se mais no casal Jean-Paul e Chema. É muito evidente a simpatia do autor-diretor por eles, e essa simpatia passa fácil para o espectador. São boas pessoas, gente do bem. Me peguei torcendo por eles – a afeição que sentem pelo garoto Hendrix é legítima, forte, bela, e emociona.

Os dois atores que fazem o casal gay, Jorge Salinas e Luis R. Guzmán, ajudam bastante. Têm belos desempenhos. Loza escolheu mostrar dois gays que não são, de forma alguma, “afeminados” – bem ao contrário. Mas não se furtou a mostrar cenas de carinhos entre os dois.

A Outra Família realça claramente essa coisa absurda que é o preconceito contra homossexuais, ainda forte, pegajoso, nojento, seja de que lado for do Rio Grande, seja em que continente for. As coisas já melhoraram muito, sem dúvida alguma – basta lembrar que a civilizadíssima Grã-Bretanha ainda levava a julgamento e à prisão o escritor Oscar Wilde pelo “crime” de sodomia bem perto do raiar do século XX. Mas, infelizmente, ainda estamos muito longe de atitudes minimamente civilizadas diante do homossexualismo.

Citei lá em cima que, ao lado de suas muitas qualidades, o filme tem uns pequenos defeitinhos. De fato, há momentos – em especial ocasiões difíceis, de discussão, desentendimento, luta – em que os atores, em geral corretos, parecem um pouco mal dirigidos. Mas são apenas alguns momentos.

Numa história com tantos participantes, há também o que me pareceram pequenas falhas no roteiro, na estruturação dos personagens. Por exemplo: não se explica como e por que Ivana, que tem boas condições sociais e financeiras com a companheira Gloria, é vizinha de Nina, a drogada que mora num grande prédio decadante, pobre. Nem fica claro de que exatamente consegue viver essa Nina improdutiva, mergulhada na droga.

Mas são detalhinhos bobos.

Uma das muitas qualidades do filme, me parece, é o fato de se mostrar, basicamente, um mundo da classe média, gente como a gente, você e eu – e até gente muito bem de vida, como o casal Jean-Paul e Chema. Acho isso interessante, importante – é um saco, uma pentelhação danada a insistência de algumas filmografias de países de Terceiro Mundo em focalizar apenas a miséria, como se só houvesse miséria. Em português claro: me enche o saco a insistência do cinema brasileiro em só retrartar miséria, em filmes como Cidade de Deus, Carandiru, Cidade Baixa, O Céu de Suely.

O contrário do que fazem muitos diretores do atual cinema argentino, ou, só para dar um outro exemplo, o extraordinário iraniano Asghar Farhadi.

Para fazer filmes sérios, adultos, que fazem questionamentos importantes, não é preciso entender que o mundo se resume a favelas, à miséria absoluta.

Criamos um Estado monstruoso e nos deixamos devorar por ele 

Ao levantar essa questão difícil, polêmica, a respeito do direito – ou não – de uma mãe drogada, fora de juízo, imprestável, manter a guarda de seu filho, este belo filme mexicano faz lembrar O Destino de uma Vida/Losing Isaiah, que Stephen Gyllenhaal (o pai dos ótimos Jake e Maggie Gyllenhaal) dirigiu em 1995. Naquele filme, a personagem interpretada por Jessica Lange adota uma criança que havia sido abandonada pela mãe drogada (o papel de Halle Berry); depois de algum tempo, limpa, recuperada, a mãe briga pela guarda do filho que havia abandonado no lixo.

De uma certa forma, A Outra Família faz lembrar também um belo filme francês, Comme les Autres, no Brasil Baby Love, em que o personagem interpretado por Lambert Wilson – bem casado com um companheiro – tenta de todas as maneiras adotar um filho, e encontra a dura resistência das instituições, que, em pleno século XXI, temem que um casal gay não saiba como criar um filho saudável.

A Outra Família me pareceu particularmente agradável porque concorda com duas teses nas quais acredito cada vez com mais convicção, firmeza. A primeira: nem todas as pessoas deveriam ter o direito de ter filhos. Ser pai ou mãe não deveria ser uma obrigação decorrente da biologia – deveria ser uma opção. Para permitir que alguém decidisse ser pai ou mãe deveria haver vestibular, concurso. Só poderia ter filhos quem passasse em concurso sério, com prova de títulos e de conhecimento, e com banca examinadora exigente.

A segunda: o Estado é grande demais, tem poder demais – mesmo em países democráticos, em que os chefes de Estado são escolhidos pela maioria da população em eleições livres.

O Estado, assim como as religiões, não deveria se imiscuir tanto na vida das pessoas como fazem. É um total absurdo o Estado ter direito de determinar como e quando podemos optar pela morte, como e quando podemos optar por interromper uma gravidez, como e quando pai e mãe podem dar uma palmada na bunda de um filho, que tipo de filme ou programa de TV o filho pode ver.

Criamos máquinas estatais que alimentamos com parte substancial dos nossos salários, máquinas que se agigantam e acabam por determinar praticamente tudo em nossas vidas particulares, pessoais. Criamos um monstro e nos deixamos devorar por ele.

O Estado, quando interfere em questões familiares, afetivas, o faz com despreparo, truculência, brutalidade, injustiça.

É o que bem mostra este belo filme.

A OUTRA FAMÍLIA
(La Otra Familia, México, 2011).
Direção e roteiro: Gustavo Loza.
Elenco: Jorge Salinas (Jean-Paul), Luis R. Guzmán (Chema), Bruno Loza (Hendrix), Ana Serradilla (Ivana), Ana Soler (Gloria),  Nailea Norvind (Nina), Carmen Salinas (Doña Chuy).
Drama.
100 minutos.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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