Tatá Aeroplano, de Tatá Aeroplano – 2012

Existem determinados momentos da vida em que se faz necessário caminhar por fora daquelas ruas que estamos habituados a seguir. Essa mudança pode significar tanto um ensaio para andar realmente por novos caminhos, quanto simplesmente um flerte com algo diferente, uma leve aliviada da vida casual preenchida com outros aromas e cores. Esse momento chegou para o inquieto Tatá Aeroplano, que desde 2004 junto com a banda Cérebro Eletrônico fez parte de pelo menos dois álbuns interessantíssimos.

Tatá é uma das cabeças por trás da nova cena paulistana ao lado de nomes como Tulipa Ruiz, Tiê, Bárbara Eugênia, Leo Cavalcanti e Thiago Petit, entre outros. Também toca projetos diversos como o dançante Jumbo Elektro ou ataca de disc jockey pelas noites da cidade. A cidade de São Paulo, aliás, é uma das mais fortes presenças nessa estreia solo de nome homônimo. Ela está retratada em diversos versos nos seus exageros e idiossincrasias, naquilo que consegue provocar para o bem e para o mal.

Financiado em boa parte através do processo de crowfunding (via Embolacha), o álbum traz canções antigas e novas, sendo que algumas ganharam seu primeiro esboço nos idos de 2008, por exemplo. Produzido pela dupla Dustan Gallas e Junior Boca, o registro ostenta uma sonoridade mais simples, com guitarra, baixo, bateria e teclado fazendo poucas invencionices e renegando quaisquer modernidades. Essa sonoridade traz o rock dos anos 70 flertando com vários estilos, entre eles o brega da mesma época.

Essa junção coloca no jogo uma participação muito particular de teclados comuns e mellotron, dando um ar retrô e dramático nas músicas. Já logo na abertura em “Sartriana” (com participação de Leo Cavalcanti), Tatá expõe uma letra baseada em falsidade, ao mesmo tempo em que insere no contexto drogas e admiração pelo filosófo francês Jean-Paul Sartre. A balada “Um Tempo Pra Nós Dois” é outra amplificada pelo drama, desconfortável em um relacionamento desgastado que vai embora pouco a pouco.

Esse tom triste e por vezes trágico, também aparece na bonita “Uma Janela Aberta” (com vocal dividido com Bárbara Eugênia), expondo uma saudade do mundo, de si mesmo e daquilo que se foi anteriormente. “Te Desejo…Mas Te Refuto” tem como foco arrependimento, culpas e orgulho, mas mantém a mesma intensidade consternada. Assim como “Cão Sem Dono”, inspirada no filme de mesmo nome do Beto Brant (que por sua vez é adaptado de um livro do Daniel Galera), que é outra com esse ar desesperado.

O álbum ainda tem a circense tropicália de “Perigas Correr” e a lisergia crítica de “Tudo Parado na City”, porém o melhor fica com os 10 minutos de “Par de Tapas que Doeu em Mim”, uma odisseia noturna embalada como um brega dos anos 70 com guitarras embutidas. Um caso complicado, com bebida, porrada e sexo com uma mulher conquistada na famosa Rua Augusta “em meio as freaks da night”, que serve para ratificar o talento de Tatá Aeroplano e mostrar que a carreira solo tem gás de sobra para ir mais longe.

http://www.youtube.com/watch?v=lZadXmfgXws “Par de Tapas que Doeu em Mim” ao vivo no estúdio Showlivre 

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *