Meus Dias no Cairo: Para plateias adultas, com imensa, colossal sensibilidade

Uma pequena gema, uma pérola encantadora, um filme feito para plateias adultas, com imensa, colossal sensibilidade. “Meus Dias no Cairo” é simples, sutil, suave, mínimo. Fala de choque cultural, mas seu tema central é extremamente íntimo, pessoal: um breve e inesperado encontro, um momento especial na vida de uma mulher madura que não contava mais com qualquer possibilidade de tremor de terra.

São muito comuns as queixas contra o cinema atual, o que se faz hoje, em geral muito pior do que se fazia décadas e décadas atrás. Já não se fazem mais filmes como antigamente, os filmes antigos eram melhores, esse tipo de papo. Eu mesmo já reclamei demais nestas anotações das tendências de muito do que se faz hoje – de cada dez novos filmes, pelo menos oito são ou exagerados demais, ou infantis demais, imbecilizantes demais, ou falam sobre super-heróis e bandidos, e não sobre pessoas como eu ou você, gente comum, gente como a gente.

Besteira.

Faz-se de tudo, no cinema. Como sempre se fez. Claro, há os “Missão Impossível” 1, 2, 3, 4, 5 mil, “Os Mercenários”, os “Encontro Explosivo”, as porcarias todas. Mas também há as pequenas gemas, as pérolas encantadoras, como este “Meus Dias no Cairo”.

Pode ser loucura da minha cabeça, pode ter sido a coincidência de que revi o grande clássico dois dias antes de conhecer este “Meus Dias no Cairo”, mas o fato é que este filme – uma coprodução Canadá-Irlanda de 2009 inteiramente passada e rodada no Egito – me pareceu muito próximo de “Desencanto”, o genial filme de 1945 do mestre David Lean.

Sessenta e quatro anos separam um de outro. Em termos da Grande História, 64 anos é pouco menos que a poeira do cocô do cavalo do bandido, mas, se lembrarmos que o cinema tem apenas uns 110 anos, é coisa pra cacete.

É besteira dizer que o cinema piorou, que o cinema que se fazia nos anos 30 e 40 era melhor que o de hoje. Besteira pura e simples, bullshit. Sempre se fez porcaria, sempre se fez maravilha.

Um nome para guardar: Ruba Nadda, realizadora canadense de talento e sensibilidade

Quem dirige o filme é Ruba Nadda, de que, obviamente, jamais tinha ouvido falar. Peguei o filme para ver apenas por causa de Patricia Clarkson, essa atriz extraordinária por quem tenho grande admiração. Assim que o filme terminou, comentei com Mary que Ruba Nadda deve ser uma mulher – ou então é um homem que tem uma sensibilidade tão estupenda que parece feminina.

Vi agora, depois de ter escrito o início da anotação, que eu estava certo: Ruba Nadda é mulher. Diz o IMDb que ela é “uma autora, diretora e produtora, internacional e criticamente aclamada, que vive em Toronto. Escreveu e dirigiu 17 filmes”…

A besta aqui jamais tinha ouvido falar de Ruba Nadda – sequer sabia se era homem ou mulher.

Hummm… Dezessete filmes, sim – mas 11 deles são curta-metragens. O que diminuiria um pouco meu trauma por não conhecê-la; a questão é que não tenho trauma por não conhecer as coisas. Há coisas demais para se conhecer, e faz muito tempo que desisti de achar que deveria conhecer tudo, ou quase tudo.

Ruba Nadda nasceu em Montreal, em 1972, filha de pai sírio e mãe palestina.

Ela parece gostar de falar de encontros de pessoas de culturas muitíssimo diferentes, distantes, de muçulmanos com não muçulmanos. Parece não gostar de fazer juízos de valor absolutos. Em vez de condenar e absolver, parece que tenta entender as distâncias entre as diferentes civilizações, as diferentes formas de se ver o mundo.

Grande Ruba Nadda. Algumas horas atrás nunca tinha ouvido falar dela, e agora já sou seu fã de carteirinha.

Uma mulher moderna desembarca pela primeira vez em em país árabe

Juliette (a protagonista do filme, interpretada pela maravilhosa Patricia Clarkson) está chegando ao Cairo, quando a ação começa. É uma mulher moderna, jornalista, trabalha em uma revista dirigida ao público feminino, mas que não é uma revista que ensina a mulher a ter boa forma, ou a saber como conquistar homens e fazê-los gozar bem. Uma revista mais para algo como a Marie Claire dos primeiros gloriosos tempos do que para Nova.

Tirou férias, e foi ao Cairo ver Mark, o marido, funcionário qualificado da ONU, que está no Egito faz algum tempo. É sua primeira viagem ao Oriente Médio.

Por que jamais havia ido ao lugar em que o marido vive faz algum tempo? Bem, porque o trabalho não permitia; porque só agora os filhos estão crescidos, independentes – o filho se casou, a filha se formou em Redação Criativa, está à procura de emprego.

Na chegada ao aeroporto, não vê Mark. Mas um árabe segura um cartaz com seu nome – é Tareq (Alexander Siddig), que havia sido um assistente de Mark na ONU. Tareq diz que Mark não pôde vir recebê-la porque teve que cuidar de um problema em Gaza.

Juliette fica um tanto perplexa com a ausência do marido. Mas já havia ouvido falar em Tareq, que, além de braço direito no trabalho, era amigo de Mark.

No momento em que estão saindo do aeroporto em direção ao carro de Tarek, uma mulher grita o nome dele. Ele vai até lá, e Juliette vai atrás. A mulher é Yasmeen (Amina Annabi), e qualquer um pode ver que no passado ali teve muita coisa. Yasmeen vai casar a filha dali a poucos dias, em Alexandria, e convida Tarek, e também Juliette, para a cerimônia.

Conversam um pouco, depois se separam. No seu carro, Tareq oferece um cigarro a Juliette, ela diz que não fuma desde a adolescência – claro, ela é uma mulher moderna, não fuma; ele é um sujeito do quinto mundo, fuma muito. Pergunta se pode fumar, ela diz que sim. Ele acende o cigarro e o rádio do carro. O som, de uma música árabe, é alto. Juliette pede para abaixar o volume.

Quando sai à rua, com os cabelos longos e louros, é seguida pelos homens

A situação em Gaza está complicada (a situação em Gaza está sempre complicada), e Mark vai demorar a voltar para o Cairo. Juliette está absolutamente sozinha num país de cultura completamente diferente da sua.

Quando sai às ruas, com os cabelos longos e louros, é seguida por homens; homens encostam nela, sussurram cantadas ao seu ouvido.

Choque cultural.

Mulher inteligente, moderna, Juliette poderia certamente tornar as coisas menos difíceis. Poderia pôr um lenço na cabeça, tapando os longos cabelos louros – e ela até faz isso, mas apenas durante algum tempo. Poderia usar vestidos que não exibissem suas costas, seu colo, o alto de seus braços. No entanto, não faz isso.

De maneira extremamente sutil, suave, a autora e diretora Ruba Nadda parece estar dizendo: mas não seria melhor, estando em Roma, fazer um pouquinho que fosse como os romanos?

Meus Dias em Cairo mostra o choque cultural – de maneira simples, sutil, suave.

Seu interesse maior é mostrar como, pouco a pouco, Juliette vai ficando fascinada por Tareq, o sujeito que é sua única ligação com aquele mundo tão diferente do dela, e que acontece de ser amigo próximo de seu marido.

Breve encontro, brief encounter. Desencanto.

Um breve beijo, um selinho – e a mulher madura sorri um sorriso de imensa felicidade

No filme “Desencanto”, de 1945, uma época em que as coisas não podiam ser e não eram explicitadas nos filmes, o homem casado com outra e a mulher casada com outro se beijam apaixonadamente. Mas não há cena alguma dos dois na cama, ou trepando, mesmo que não fosse numa cama. A rigor, a rigor, o filme mostra que os dois não chegam a trepar – embora o espectador possa entender que pode ter havido a cama, sim, não mostrada explicitamente porque os tempos não permitiam.

Em “Meus Dias em Cairo”, de 2009, depois que todas as explicitudes já foram mostradas de todas as formas no cinema, há uma sequência em que Juliette e Tareq passam a tarde juntos, passeando. Quando Tareq deixa Juliette no elevador do hotel em que está hospedada, dão-se beijinhos nos dois lados da face. E então Tareq dá um suave beijo, um selinho, como se diz hoje em dia, nos lábios de Juliette.

E então Juliette sobe para seu quarto de hotel, e se deita num sofá. A câmara se aproxima de seu rosto – e Juliette sorri um sorriso de imensa felicidade.

É uma das tomadas mais belas dos muitíssimos filmes que tenho visto nos últimos anos.

Juliette-Patricia Clarkson sorri um sorriso de imensa felicidade, deitada no sofá de seu hotel, momentos após Tareq ter lhe dado um suave, rapidíssimo beijo. Não um french kiss, um beijo de língua, de forma alguma – um inocente selinho.

Patrícia Clarkson é uma atriz brilhante, monumental. Não é uma mulher de beleza extraordinária. É uma bela mulher, mas não tem absolutamente nada de Barbie, de Angelina Jolie, de Megan Fox – até porque, graças ao bom Deus, é mais velha, tinha exatos 50 anos quando fez este filme dirigido pela garota síria-palestina-canadense que estava então com 35 anos.

A câmara da jovem Ruba Nadda se aproxima do rosto de Patricia Clarkson-Juliette, ela deitada no sofá, e aquela mulher de 50 anos sorri um sorriso de felicidade, e de repente aquela mulher que não é um exagero de beleza fica mais linda que Ingrid Bergman, que Elizabeth Taylor, que Catherine Deneuve.

Só por essa tomada “Meus Dias no Cairo” já seria um filme genial.

Uma metrópole gigantesca de país pobre que tem a dádiva de ter um Nilo atravessando-a

O Cairo que essa canadense filha de sírio e palestina mostra não é um absoluto horror, nem uma absoluta maravilha.

É uma metrópole gigantesca de país que, apesar de toda sua milenar e fantástica história, apesar de ter sido no passado uma grande potência, hoje é de Terceiro Mundo. Há gente demais nas ruas, nos mercados, em todos os lugares – o mundo não desenvolvido é superpovoado. O trânsito é absolutamente caótico, os motoristas não respeitam os pedestres.

É a capital de um país de maioria muçulmana – e portanto a imensa maior parte das mulheres cobre a cabeça com véus, e nenhuma mostra os ombros, o alto dos braços. A presença de mulheres em diversos locais é proibida – ou simplesmente não é costume que mulheres os frequentem.

Uma mulher ocidental sair à rua em Cairo pode se transformar numa aventura perigosa. Em especial se não toma o cuidado de se cobrir um pouco.

No entanto, não é um país fundamentalista. Como a Turquia, o Líbano, o Egito – é o que filme mostra – não é tão absolutamente rígido quanto diversos outros do mundo árabe. Os costumes, embora machistas, são bem mais liberais do que, por exemplo, a Arábia Saudita e o Irã.

Há pobreza no Cairo, sim, mostra o filme – e não poderia deixar de ser diferente. Mas a cidade tem a dádiva de ter um Nilo atravessando-a, e o Nilo que a câmara  do diretor de fotografia Luc Montpellier mostra é uma das coisas mais belas do mundo. O Nilo do filme é mais belo que o Sena, o Tâmisa, o Hudson, o East River. Esses quatro últimos aí tive a sorte de olhar com meus olhos, e são maravilhosos, mas o Nilo que nunca vi nem verei é estonteante.

E, ao contrário do que seria de se imaginar, o Cairo que o filme exibe tem muitas árvores. Não é uma paisagem árida, desértica, de forma alguma.

E ainda há, pertinho da grande cidade, as pirâmides.

Mary até comentou que às vezes o filme às vezes parece uma peça de propaganda do turismo egípcio.

Ruídos altos, acima do som das vozes. E uma trilha sonora apaixonante

O som de Meus Dias no Cairo é uma coisa à parte.

Tudo bem: não vi o filme em uma sala de cinema, e sim no DVD. Teoricamente, pode até ser que o DVD tenha um som diferente do filme mostrado nas salas – mas não acredito nisso.

O trabalho dos engenheiros de som do filme é extraordinário, excepcional.

Os ruídos, o som ambiente, o som das ruas aparecem num volume muito mais alto do que os diálogos.

Como já disse antes, no carro de Tareq, no caminho entre o aeroporto e o hotel, Juliette pede para abaixar o som do rádio. O som de fato era alto – como é alto o ruído das ruas da gigantesca cidade, com seu trânsito caótico, sua barulheira insana.

Ao longo de todo o filme, os ruídos da cidade imensa serão muito mais altos do que as vozes dos personagens.

Em uma sacada de gênio, ao final da narrativa Juliette pedirá que se aumente o som do rádio que toca música árabe. O motorista não compreende bem o que ela deseja, e muda de estação para que a passageira ouça música ocidental – e então o rádio toca uma bela e velha canção dos Everly Brothers. Tudo o que Juliette não queria.

E aí tem a música, a trilha sonora.

A trilha sonora de “Meus Dias no Cairo” é também uma coisa à parte.

É Yann Tiersen puro, escarrado.

Tivemos absoluta certeza, tanto Mary quanto eu, que era uma trilha sonora de Yann Tiersen. Em alguns momentos, é o Yann Tiersen de “Amélie Poulain” pura e simples.

Os créditos iniciais são rápidos – só mostram os nomes dos atores e da diretora.

Nos créditos finais – surpresa! – a trilha é assinada por Niall Byrne.

Mas como assim? É tudo Yann Tiersen, puro e simples.

Uma música de Yann Tiersen está, sim, creditada no filme – “Loin des villes”, do álbum Les Retrouvailles, de 2005.

Não conhecia Niall Byrne – mas tenho a absoluta certeza de que ele incorporou Yann Tiersen.

Enquanto começava a escrever esta anotação, fui ao iTunes Store e comprei a trilha sonora de Cairo Time. Esquisitíssimo: as faixas que me chegaram depois que me comprometi a pagar direitinho pelos direitos autorais são interrompidas ao meio. Como se tivessem me vendido só as samples, as amostras.

Chose de lóque, como a gente dizia no ginásio.

Não faz mal. Com Meus Dias no Cairo, descobri que existe um compositor chamado Niall Byrne, que escreve música como se tivesse incorporado Yann Tiersen. Vou tentar conhecer mais coisas dele.

E descobri a existência dessa fantástica autora e diretora Ruba Nadda. Vou tentar ver tudo dela que aparecer por aqui.

Que maravilha é descobrir coisas novas depois de velho.

A Juliette do filme sente exatamente isso.

MEUS DIAS NO CAIRO
(Cairo Time, Canadá / Irlanda, 2009).
Direção e roteiro: Ruba Nadda.
Elenco: Patricia Clarkson (Juliette Grant), Alexander Siddig (Tareq Khalifa), Elena Anaya (Kathryn), Amina Annabi (Yasmeen), Tom McCamus (Mark).
Drama / Romance.
90 minutos.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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