New Multitudes, de Jay Farrar, Will Johnson, Anders Parker & Yim Yames – 2012

Em 1998, o cantor e compositor inglês Billy Bragg se juntava aos americanos do Wilco para lançar o álbum “Mermaid Avenue”. O registro (excelente, diga-se de passagem) ganhou um segundo volume em 2000 e foi elaborado em cima de letras não musicadas do cantor folk Woody Guthrie, falecido no dia 3 de outubro de 1967. Guthrie se tornou um ícone nos EUA e sua música e postura política influenciaram nomes do porte de Bob Dylan, Bruce Springsteen e Joe Strummer (The Clash).

Porém, antes do projeto ser oferecido a Billy Bragg, foi feito o mesmo convite para Jay Farrar e o seu Son Volt. É bom lembrar que Jay Farrar e Jeff Tweedy do Wilco faziam parte da mesma banda, a ótima Uncle Tupelo, que durou até 1994. Depois do fim é que seus atuais grupos tiveram início. O projeto “Mermaid Avenue” foi um sucesso (e ganha até reedição caprichada esse ano, com mais um disco), então quando Jay Farrar teve novamente a chance de visitar o baú do ídolo, dessa vez não vacilou.

Convidado por Nora Lee Guthrie, filha de Woody e irmã do também cantor e compositor Arlo Guthrie, Jay Farrar se pôs a fuçar os arquivos para organizar esse projeto, com o intuito de comemorar o centenário de nascimento do homenageado. Assim começou a nascer o álbum “New Multitudes”, lançado pela Rounder Records no começo do ano e feito em parceira com os velhos amigos Will Johnson (Centro-matic), Anders Parker (Varnaline e Gob Iron) e Yim Yames (My Morning Jacket e Monsters Of Folk).

“New Multitudes” oferece 12 canções na sua versão comum (existe também a deluxe, com outro disco), forjadas tanto individualmente quanto em conjunto pelos envolvidos. O material utilizado para servir de inspiração foi de cadernos até revistas, desenhos e pinturas. Com produção de John Agnello (Sonic Youth, Dinosaur Jr.), temos um álbum que trilha estradas bem distantes do que poderia ser oportunismo e se consolida além da homenagem como um registro particular e independente.

Jay Farrar abre com “Hoping Machine”, uma canção sobre ser convicto e forte nos seus desejos e que tem o belo verso: “a música é a linguagem da mente que viaja”. Em “My Revolutionary Mind”, Jim James evoca os protestos de Guthrie e correlaciona isso com o desejo por uma “mulher progressista”. “No Fear” traz Will Johnson cantando sobre medo e morte, enquanto “Angel’s Blues” vem pesada, com guitarras densas e Anders Parker misturando saudade, orgulho e promessas.

O segundo disco que aparece na versão deluxe mostra 11 composições, dessa vez somente de Jay Farrar e Anders Parker, e mantém o nível elevado, se mostrando tão obrigatório quanto o primeiro. Nele, os temas explorados vão de guerra nuclear em “Word’s On Fire” até prostituição em “San Antone Meat House”. A sonoridade das faixas habita o mesmo universo explorado pelos criadores, indo do folk ao alt-country, com um pé no blues e no rock e sem medo de soar pop aqui ou acolá.

“New Multitudes” é o tipo de álbum que prende a atenção do ouvinte por completo. Seja pelo encanto das melodias ou pelas letras bem construídas. Uma elegante homenagem a Woody Guthrie que está no mesmo nível da já citada série “Mermaid Avenue”, só que com lados um pouco mais escuros. Com isso, o legado fundamental daquele que dizia que seu violão era “uma máquina de matar fascistas”, se prolonga e também se amplia para novos públicos, novas terras prometidas, novas multidões.

http://www.youtube.com/watch?v=_0s9kuUVsm4 “Careless Reckless Love” executada ao vivo no estúdio 

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *