Notas breves sobre Filmes & Política em 2012

“Looper”

Em “O Legado Bourne”, de Tony Gilroy, o barco sem rumo é a Europa, a força do óbvio. Depois aparece a imagem do barco em “007 Operação Skyfall”, de Sam Mendes, mas a imagem é reconfigurada, em “Looper”,  de Rian Johnson: um filme bem mais denso,o não-lugar é o tempo presente e o futuro possui conexões similares as da internet com ele, vasos comunicantes temporais onde o indivíduo é reconfigurado e reconfigura os eventos, a força do pós-humanismo levado até um nível de radicalidade. Radicalidade que não estava presente, por exemplo, em “Prometheus”, de Ridley Scott.

O sentido do trágico em “Prometheus” estava condensado na figura do androide, como em “Cosmópolis”, de David Cronenberg & Don De Lillo. Cronenberg desde sempre explora em seus filmes as interações entre o homem e a máquina e as mutações resultantes dessas interações. Você não sai sem seu celular? Não vive um dia sem entrar na internet? Bem vindo ao mundo que Cronemberg, anuncia desde “Crash”.

Gostei de “Como a Água”, de Pablo Croce. Ele sabiamente evitou a confusão entre documentário e ficção tão em voga em nossos meios cinematográficos e políticos e o filme começa com a imagem de Bruce Lee, a associação China-Brasil em andamento, senhoras e senhores. “O Gato do Rabino”, animação de Joann Sfaar, outro filme denso apesar da anunciada leveza, trata de questões metafísicas, como “Looper”, que é de longe, o melhor filme que vi em 2012, o melhor filme estrangeiro foi esse e, do Brasil, foi “Febre do Rato”, de Cláudio Assis. Poesia e mercado com densidades diferentes evocando o fragilíssimo antipoder da emoção humana.

http://www.youtube.com/watch?v=ow07S72zhbw “Febre do Rato” 

Outro filme brasileiro importantíssimo e infelizmente pouco visto foi “Luz nas Trevas”, de Helena Ignez. Ney Matogrosso é um ator tão intenso, cada frase dele possui neste filme uma ou duas camadas poéticas e o filme de Helena Ignez, uma pensadora  do cinema como Marguerite  Duras, ainda não foi devidamente avaliada pelo Povo Brasileiro, digo Povo, porque não existe mais crítica cinematográfica. Eu sou um fantasma e não um crítico, não me confundam.

“Terra em Transe”

Deve haver algum triunfo no fracasso, estas foram as últimas palavras de Deus. Mas voltemos ao exercício da pseudocrítica: o triunfo não é financeiro, já que  não recebo nenhum tostão para escrever estas delirantes linhas. Nem eu, nem o André Azenha. Isto aqui é uma espécie de confraria das caveiras pensantes, o mistério das caveiras pensantes aqui ou na África ou no Chile ou no Alaska é um dos maiores mistérios da humanidade. Existe um filme fantástico sobre o mistério das caveiras pensantes, se chama  “Terra em Transe”.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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