Os 30 anos de Victor ou Victoria?

Quem  imaginaria que  um dia a adorada Julie Andrews, ícone da Broadway por ”My Fair Lady”  e  de Hollywood, por mega sucessos como “A Noviça Rebelde”, poderia estrelar um filme que abordasse travestismo/crossdressing e feminismo? Pois era por causa dessa polêmica  que a indústria do cinema aguardava ansiosamente a estreia do  novo filme do cineasta Blake Edwards, casado com a estrela, no início da década de oitenta.

Pois fez-se história: Julie Andrews brilha intensamente nessa também incandescente, super premiada e espetacular comédia musical ”Victor ou Victoria? , consagrando-se com  mais uma interpretação icônica de sua ilustre carreira nos palcos e nas telas e que lhe deu  a terceira indicação ao Oscar, além do Globo de Ouro de melhor atriz e tantos outros prêmios.

Diálogos inteligentes, sofisticação, glamour, ambiguidade, sedução e muitas, muitas risadas marcam o retorno triunfal  dessa que é um dos maiores mitos dos musicais. Com sua belíssima voz cristalina, beleza natural e jeito de boa moça, Julie tornou-se a queridinha do público e da crítica com os  clássicos  “Mary Poppins” (1964), de Walt Disney, e “A Noviça Rebelde”(1965), de Robert Wise, que lhe deram todos os prêmios de melhor atriz  – Oscar, Bafta e Globo de Ouro e a tornaram campeã absoluta de bilheteria – a sexta atriz da história do cinema a ser a número um por anos seguidos na história do cinema. Manteve sua carreira no topo com mais sucessos, como “Cortina Rasgada” (1966, de Hichcock),  “Hawaii” (66) e “Positivamente Millie” (ambos de George Roy Hill) até que, em 1968, amargou um grande, porém glorioso, fracasso  que acabou com seu reinado, o incompreendido “A Estrela!”, luxuoso musical que só  acabou encontrando seu público e defensores nos anos 90, tornando-se cult.

No entanto, Julie não se deu por vencida e, na condição de musa do marido Blake Edwards, o  grande cineasta de “Bonequinha de Luxo” (1961) e “A Pantera Cor de Rosa” (1964), desafiou Hollywood e continuou a carreira mudando de imagem radicalmente, nos filmes de Blake – ”Lili, Minha Adorável Espiã” (70), ”Sementes de Tamarindo” (74),  “Mulher Nota 10” (79) e “S.O.B.” (81). Ninguém acreditava que, quinze anos após o maior êxito da Universal, “Positivamente Millie”, de 1967, Julie Andrews daria a volta por cima nessa  fantástica comédia musical “Victor ou Victoria?”, interpretando uma mulher fingindo ser um homem fingindo ser uma mulher. Confuso? Não entendeu nada? Pois é assim que se sentem os outros personagens dessa história incrivelmente hilária que aborda temas sérios como identidade sexual, amor e amizade e  que comemora nesse ano de 2012 trinta joviais aninhos de pura diversão,  mantendo-se atualíssima e em plena forma.

Na Paris de 1934, Julie é Victoria Grant, cantora lírica (soprano coloratura) que sofre um golpe financeiro de uma companhia de ópera inglesa e é largada sem um tostão no bolso. Passando fome e vagando pelas ruas, desesperada, ela eventualmente encontra um cantor de cabaré, Carrol Todd (o fantástico Robert Preston), também nos seus piores dias. Ele a tinha visto numa audição para um emprego no nightclub Chez Lui e ficado surpreendido por sua voz extraordinária, capaz de quebrar copos de cristal. Toddy provoca um tumulto no cabaré após cantar sua canção ”Gay Paree” – não, não é  erro de Edwards usar o termo ”gay” no sentido atual em plenos anos trinta, é apenas uma de suas muitas ousadias – e acaba perdendo o emprego também.  Unidos pelo infortúnio, Victoria e Toddy  se tornam amigos inseparáveis numa sequência antológica envolvendo uma barata.  “Há quanto tempo você é homossexual?”, pergunta-lhe Victoria, ao que Toddy responde, “Há quanto tempo você é soprano?”. Quando Toddy é ameaçado pelo ex-amante  em seu apartamento, Victoria literalmente sai do armário (onde estava escondida) e, vestindo terno e chapéu, defende o amigo desferindo socos e pontapés no pilantra, que sai correndo, assustado. É aí que Toddy tem uma brilhante ideia: Victoria pode se fazer passar por homem – só o que precisa fazer  é cortar o cabelo, vestir um  terno elegante e soltar a voz  para se tornar o conde polonês Victor Grazynski, o maior transformista do mundo, com voz de soprano. Resultado: tendo a supervisão do grande empresário André Cassell (John Rhys-Davies), ele/ela é saudado/a como a nova sensação da noite parisiense. O look de Julie no filme arrasa de tão chique; ela está belíssima num visual evocando Marlene Dietriech e David Bowie. Provocante.

As cenas em que Victoria tem lições de ”masculinidade” de seu mentor Toddy são pra lá de divertidas, e culminam com o belíssimo número musical ”Le Jazz Hot”, uma das obras primas compostas por Henry Mancini. Julie está no auge, cantando, dançando e seduzindo o público de Paris e, em especial, o gangster King Marchan, feito com a elegância habitual de James Garner (que exibe total química com Andrews, tendo  a dupla já estrelado o ótimo cult de guerra ”Não Podes Comprar Meu Amor” – ”The Americanization of  Emily”, em 1964).  Aliás, Julie declarou ter-se inspirado na masculinidade e charme de Garner para compor Victor.  Na cena em que os dois se encontram pela primeira vez no nightclub, o machão, intrigado pela sua repentina atração pelo artista,  despacha a namorada Norma Cassidy (Leslie Ann Warren, impagável)  para a companhia de Toddy e sai provocando Victor num jogo de diálogos ferinos e olhares penetrantes:

Robert Preston e Julie Andrews

– “Eu poderia lhe quebrar a cara”, dispara o gangster.

– ”E assim provar que é homem!”, responde-lhe  Victor, em total desaprovação.

– ”Esse argumento é de mulher.”, diverte-se o machão.

– ”O seu problema, Sr. Marchan, é que está preocupado com estereótipos. Eu acho que é simples assim: você é um tipo de homem e eu sou outro.”

– ”Que tipo de homem é você?”, pergunta-lhe, intrigado.

– ”O tipo que não tem que provar nada – a ninguém, nem a si próprio.”

Num permanente clima de as aparências enganam, o diretor/ roteirista Edwards arremessa seus personagens em situações que levam o espectador a refletir sobre questões sérias com muito humor. Ao assumir o romance com Victor, King Marchan sofre pelo preconceito, e não sabe se conseguirá prosseguir com a relação. “Mas você sabe que não é gay!”, diz ela, ao qual ele rebate, ”para você, tudo bem, porque é mulher!”, e ela decreta, “mas ninguém sabe que eu sou!”. Outros personagens  também passam por dilemas surpreendentes, como o guarda-costas Squash, interpretado pelo famoso jogador de futebol americano Alex Karras, muito admirado pelos americanos e falecido recentemente. Um show à parte é Norma, a loira burra que provoca gargalhadas, grande interpretação de Leslie Ann Warren. Sem dúvida, outro elemento de grande importância no longa é a linda trilha sonora de Henry Mancini, amigo e colaborador de Edwards-Andrews, com  notáveis canções  inseridas no contexto e que comentam os conflitos dos personagens – a tocante e belíssima “Crazy World” (em número musical filmado num giro de câmera de  180 graus em torno de Julie). Ou celebram alegrias, como a amizade entre Victoria e Toddy na encantadora “You and Me”.  Já “The Shady Dame from Seville” é uma canção que tenta fazer uma alusão à farsa vivida pela protagonista, e ”Chicago Illinois” mostra graficamente a sexualidade da desorientada Norma com uma mistura inesperada de graça e audácia.

A produção de “Victor ou Victoria?” é suntuosa, com o requinte característico de Edwards, começando com os caprichados letreiros de abertura, uma marca registrada do diretor. Ao invés de locações em Paris, como em ”Darling Lili”, o cineasta optou pela recriação da cidade luz em quinze gigantescos palcos do Pinewood Studios, onde ruas inteiras apresentam casas e prédios de três andares, com suas múltiplas janelas que fazem da plateia, verdadeiros ”voyeurs”, com direito à neve, chuva, vento e raios. Figurinos impecáveis e fotografia esmerada são outros elementos que Blake Edwards usa para valorizar sua obra. Um trunfo absoluto é o elenco dos sonhos  de qualquer produtor, liderado pela exuberante Andrews:  Garner, Preston (excelente escolha, num papel inicialmente concebido para Peter Sellers), Warren, Karras, o próprio filho de Blake, Geoffrey Edwards – como um dançarino e dois habitués dos filmes edwardianos, SherloqueTanney (psicanalista e amigo do cineasta) como o azarado detetive, e Graham Stark (dos filmes da “Pantera”),  provocando várias risadas extras, como  o garçom mal humorado. E o que mais dizer dos diálogos de Blake,  que jorram humor e inteligência a cada minuto? “Vergonha é um sentimento infeliz criado por moralistas para explorar a raça humana”, filosofa Toddy com Victoria, no camarim.

Todo esse virtuosismo foi reconhecido por crítica, público e premiações. O exigente Vincent Canby, crítico do New York Times, decretou: “Vá se arrumar e corra imediatamente para o Ziegfeld Theatre, onde Blake Edwards tem a estreia de sua maior conquista – a coroação de sua carreira!”.  Liz Smith exclamou: “Divino!” e a Newsweek proclamou: “Uma delícia!”. Num ano de excelente safra –  os também trintões “Ghandi”, “E.T.”, “Tootsie”, “A Escolha de Sophia” e “Blade Runner”,  “Victor ou Victoria?” foi indicado a sete Oscars – melhor roteiro adaptado (Edwards), atriz (Andrews), ator coadjuvante (Preston), atriz coadjuvante (Leslie), direção de arte, figurino, vencendo em trilha sonora de Mancini e Leslie Bricusse. Na festa do Oscar 1983, os membros da Academia brincavam, dizendo que Julie deveria ser indicada a melhor ator e Dustin Hoffman a melhor atriz, por seu maravilhoso desempenho em “Tootsie”. Também foi uma rara ocasião em que um casal era indicado ao Oscar. E as premiações não pararam por aí:  mais um Globo de Ouro,  o David de Donatello Award (Itália) de melhor atriz para Julie, também homenageada com o Hasty Pudding da Universidade de Harvard como “A mulher do Ano” e eleita atriz favorita pelo People’s Choice Awards, o César Award (França) de melhor filme estrangeiro, o National Board of Review para Preston, o  Writers Guild of America para Edwards pelo seu primoroso roteiro baseado no filme alemão de 1933, “Viktor und Viktoria”, e a distinção da lista do American Film Institute – 100 Risadas, de 2000, entre outros prêmios e indicações. A última homenagem ao grande filme foi a encenação de ”Le Jazz Hot” pelo personagem Kurt, feito por Chris Colfer, na série de TV de estrondoso sucesso “Glee”, em 2011.

Esse enorme sucesso possibilitou que Julie Andrews e Blake Edwards realizassem mais dois longas juntos, “Meus Problemas com as Mulheres” (83)  e  “Assim é a Vida” (86). Também sonhavam  com uma adaptação do filme para um musical da Broadway, o que finalmente aconteceu em 1995 (ficando até 1997, um sucesso). Tive a felicidade de assistir ao musical no Great White Way algumas vezes e a oportunidade de conhecer a grande estrela e seu marido. Fiz uma pintura retratando o casal em frente ao Marquis Theatre, onde  Julie triunfava mais uma vez em “Victor/Victoria. E, ao ver a obra, fui convidado pela própria Julie a visitar seu camarim no dia seguinte. Falar com o mito dos musicais foi um sonho realizado, e ainda pude conversar com Blake sobre seus famosos filmes. Os dois esbanjaram simpatia e bom humor e o diretor me disse que minha pintura decorava a sala de jantar da casa deles em  Upper East Side, New York. Dois meses depois do fato histórico, recebi em minha casa uma caixa com presentes de Julie – uma belíssima foto preto e branco com dedicatória e autografada, uma biografia, seu novo CD com músicas da Broadway, também autografado e uma carta em que me agradecia pela pintura e pelo cartão engraçado que havia escrito para os dois, falando dos meus tormentos de carregar o quadro em minha viagem aos EUA, que mais pareciam as novas aventuras do Inspetor Clouseau de “A Pantera Cor de Rosa”..

“Victor ou Victoria?” continua sendo uma delícia de filme. É atrevido, subversivo, bate de frente com tabus, e acima de tudo, é humano. Vai divertir todo mundo, fazer o público chorar de tanto rir, deixar as pessoas com  um pensamento ou dois para refletir no dia seguinte e, possivelmente, acomodar-se  num cantinho de muitos corações, como aconteceu comigo. Os trinta anos lhe fizeram muito bem e Julie Andrews continua vitoriosa.

VICTOR OU VICTÓRIA?
(Victor Victoria, EUA / Reino Unido, 1982).
Direção: Blake Edwards.
Roteiro: Blake Edwards, Hans Hoemburg (conceito), Reinhold Schünzel (roteiro de 1933).
Elenco: Julie Andrews, James Garner, Robert Preston, Lesley Ann Warren, Alex Karras, John Rhys-Davies.
Comédia musical.
132 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

2 thoughts on “Os 30 anos de Victor ou Victoria?

  1. Nossa, como é maravilhoso ler o seu texto. Parabéns! Acabei chegando aqui através do site 50 anos de Filmes Sou eternamente apaixonado por Victor e Victoria e mês passado decidi comprar o dvd. Incrível! O que mais gosto na Julie é o fato dela ser uma artista completa. Gostaria de uma resenha sua sobre Mary Poppins. Nunca pensou em fazer?! Foi o primeiro filme dela que assisti.

  2. Caro Thiago Lopes, muito, muito obrigado por suas palavras generosas que me deixaram tão feliz e orgulhoso deste texto que escrevi com muita paixão sobre essa obra maravilhosa que é “Victor/Victoria”, estrelado pela magnífica Julie Andrews, ícone dos musicais. Concordo plenamente com você: Julie é uma artista completa! E seu sonho vai se realizar: em breve minha resenha sobre o megaclássico ”Mary Poppins” será publicado em CineZen. Se puder, procure por mim no Faceboo. Grande abraço

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