Olhares

A passarinha… O termo está correto. Não, “pássara” não dá; até porque, depois do “acordo” ortográfico, é pejorativo.

Só podia ser uma fêmea, a ave curiosa que ontem se achegou à porta do quartinho (depois de percorrer toda a área de serviço) para candidamente ficar espiando aqui para dentro com aquele olhar pesquisador, um misto de interessado e interesseiro.

O mesmo olhar notei, há pouco, quando Maria Isabela se aproximou – como sempre faz, enquanto corto a barba – para pedir um pouco do meu sabão, espalhar no próprio rosto e se dizer Papai Noel.

O eletricista deve vir substituir o capacitor do ventilador de teto, que já não dá conta desse calor de verão em primavera e eu preciso trocar o dinheiro; aproveito e vou fazer uma fezinha na loto.

Ana Clara vai comigo (Maria Isabela é peralta demais!).

Vamos caminhando devagar e é sempre ela a puxar a conversa com esse avô meio absorto nas coisas da vida ao derredor. Comentou do calor intenso, contou algumas coisas do colégio e lá fomos nós, cruzando a Conselheiro, a caminho da lotérica.

Na porta do boteco meio fuleiro – de bairro ainda não chegado à classe média de verdade – deparo-me com um velho conhecido, de costas para a calçada, sentado entre outros homens antigos.

Conheci-o quando ele ia ao asilo visitar a mãe; depois do desencarne dela, foi ele a ocupar o seu lugar. Não se ajeitou e voltou a morar fora, sozinho, no morro do Marapé, em uma casa de cômodos, mas volta e meia aparece pelo nosso pedaço.

Parei às suas costas e disse à minha neta que iria beber um pouco de cerveja, daquela garrafa que estava sobre a mesa. Ele se volta, dá conosco, sorri e o papo vai em frente. Do outro lado da mesa, um senhor muito bem apessoado pergunta o nome dela, que responde prontamente, mas ele não compreende; ela repete e acabo sendo eu quem diz o nome, para que ele entenda. Ele quer saber da vida dela na escola e, por alguns instantes, ela faz parte do grupo, deixando aquele bando de gente antiga interessado em sua história.

Despedimo-nos entre sorrisos.

Da lotérica, eu vejo na porta do outro botequim um carrinho de mão cheio de bananas.

Paramos por ali, compramos uma penca de brancas e ela ainda ganhou um presente, do negro sorridente. Bananas talvez do morro e com gosto de Guarujá; daquele sítio no fundão do Perequê, há bem mais de cinqüenta anos.

Voltamos papeando, atravessamos uma das pistas “no vermelho” (com atenção), para podermos concluir a travessia do outro lado, onde o sinal já andava verde para os pedestres.

Expliquei-lhe as razões da infração e ela complementa – inteligente e observadora – que, no bairro do Gonzaga, todos os semáforos também são assim, descompassados; propositada e absurdamente descompassados.

Obtusidades da atividade pública e do desinteresse pelo que é de todos.

Mentalmente estrábicos; só “eles” não vêem o óbvio.

6 thoughts on “Olhares

  1. Coisa bonita, Gama. Não se sabe até quando nossos filhos e netos poderão lançar seu olhar inocente e tão sábio a esta cidade bucólica que você pinta, de botequins arejados, velhos estivadores, quitandas, bancas de frutas, maresia, árvores e sombras. A Santos que ainda resiste em rincões de Marapé, Embaré, Macuco, e que vai sendo sepultada por um deserto de torres de concreto sem alma, verdadeiros cemitérios verticais.

  2. Tudo que você escreve eu gosto.as vezes nem respondo por falta de tempo.Mas leio.Obrigada.Um abraço e bom feriado.

  3. Esse é o lado poeta do nosso Carlos Gama. Mas nem por isso deixa de beliscar, no final, o poder público sem propostas e ações. Seu domínio do texto, a intimidade elegante com as palavras, sempre certas, precisas e sonoras, mostra um grande escritor com perfeito domínio da língua pátria.
    Temos que nos vestir com dignidade para andar nos texto do Gama. Não de fraque, nem de bermudas, mas num esporte fino podemos entrar no texto e enxergar sua beleza, sentir seu perfume e entender seu sentido. Falta uma Editora ver o que o Erzog, que fez um ótimo comentário, bem à altura do texto, declarou: “Coisa bonita, Gama”. Frase curta e prenhe de significado.

  4. Bem-vindo, Herzog!
    É tão bom compartilhar a imagem das pessoas e das coisas simples da nossa cidade, especialmente com quem as vê assim, também, com os olhos da alma.
    Realmente não se sabe até quando e nem se conseguiremos manter vivas, além do campo das palavras, essas belezas todas que a cidade e sua gente tem.
    Restam ainda muito poucos desses pontos em rincões no Marapé e no Macuco, mas também estes já estão sendo abafados, sufocados ou sepultados pela ganância desmedida e nas sombras das torres de concreto.
    Sete de meus netos e meus quatro filhos ainda estão tendo a oportunidade de ver algumas dessas imagens; espero que eles as guardem no coração e na memória, pois é um restinho da nossa história.
    Fraterno abraço.

  5. Ah, minha tão cara amiga Francisca, como é bom sabê-la por aqui, ainda paciente, lendo os meus escritos, passeando nas minhas histórias.
    Amigos – insisto – são aqueles que, não importa quanto tempo haja passado, me recebem hoje como se nos tivéssemos visto ontem. O tempo não passa para os que têm guarida no coração.
    Receba o meu carinhoso e saudoso abraço.

  6. O que seria do homem se não fossem os seus amigos, essas jóias (geralmente raras) de valor incalculável?
    Meu querido Marcos Jansen, você bem sabe o poder do estímulo ao trabalho, da percepção das pequenas coisas que nos alimentam a essência, os sentidos e nos incitam a continuar, a tentar mostrar o belo, sem deixar de lado as mazelas da sociedade humana mais moderna.
    Falar das coisas bonitas é muito fácil se você as vê ou as pressente, mas é difícil falar das máculas irreparáveis com que se fere uma cidade, toda uma sociedade, porque o coração sangra (quase literalmente), mas é preciso continuar, é preciso que cada um interprete adequada e convincentemente o seu papel e aí, quem sabe, alguém ainda colha os frutos, sem importar quando, nem quem.
    Continuemos, pois é essa a nossa estrada…

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