Almas Perversas: Noir de Fritz Lang

Na sua fase de exílio nos Estados Unidos, Fritz Lang fez dois filmes com o grande Edward G. Robinson e a bela Joan Bennett: “Um Retrato de Mulher”, de 1944, e este “Almas Perversas”, no original “Scarlet Street”, de 1945. Todos os dois noir até a medula. “Um Retrato de Mulher “ me pareceu extremamente interessante, quando o vi, em 2000.

“Almas Perversas” não é um grande filme, na minha opinião – mas tem qualidades, sem dúvida nenhuma. Ou não seria uma obra de Fritz Lang.

Um homem, uma mulher, um filme noir – e então já sabemos, desde antes da primeira tomada, que ela fará dele gato e sapato. Ou não seria um filme noir.

A mulher, a femme fatale – também chamada de dame, broad, ou ainda doll, ou de todos os três nomes, dependendo da situação e do roteirista –, nesta trama aqui, faz gato e sapato do homem, o tolo, o pato muito demais da conta. É exagerado, exageradérrimo, como a personagem da linda Joan Bennett maltrata, machuca, prejudica, humilha o pobre personagem de Edward G. Robinson, como ela o conduz ao mais cruel dos infernos.

Acho que esse exagero, essa overdose de maus tratos da femme fatale contra o tolo, o pato, é parte dos defeitos do filme.

Um homem absolutamente solitário, casado com uma megera dominadora

O pato se chama Christopher Cross. É caixa de um banco em Manhattan – sujeito simples, humilde, tímido, recatado, extremamente solitário. Uma viúva de um policial, Adele (Rosalind Ivan), tinha um quarto para alugar, em seu apartamento no Brooklyn, e Cross o alugou. Por ser solitário, por Adele estar viúva, acabaram se casando, mas o casamento é uma porcaria absoluta. Adele é mal-humorada, dominadora, e Cross se deixa dominar por ela.

A única coisa boa na vida de Cross é que ele tem um hobby: aos domingos, pinta quadros. Adele não gosta disso, implica com os quadros – Adele, além de ser um tribufu, implica com absolutamente tudo que o marido faz -, mas Cross continua a pintá-los. Gasta o pouco dinheiro que sobra do salário minguado comprando tintas e pincéis.

Quando a narrativa começa, há uma festa em um salão de hotel em Manhattan, promovida por J.J. Hogarth (Russell Hicks), o dono do pequeno banco, patrão de Cross. A festa é em homenagem a ele, Cross, que está fazendo 25 anos de trabalho na firma. O patrão dá de presente ao humilde caixa, aquela pequena figura cinzenta, um belo relógio de ouro.

O patrão sai mais cedo da festa: vai se encontrar com a amante loura que o espera lá embaixo. A homarada – só há homens na festa – se comprime junto das janelas para ver a dame, broad, doll, com quem o patrão está pulando a cerca.

Daí a pouco saem juntos da festa Cross e um colega, Charles (Samuel S. Hinds). Chove, e Cross, o único que carregava um guarda-chuva, leva o colega até o ponto do ônibus dele, antes de procurar uma estação de metrô para voltar para o distante Brooklyn.

(Homens cinzentos, simples, humildes, em geral saem de casa com guarda-chuva. Nos filmes, pelo menos, é assim.)

O pato se apaixona perdidamente pela femme fatale na primeira vez que a vê

Depois que Charles entra no seu ônibus, Cross se perde naquelas ruas do Village. Pede informações a um policial, e vai caminhando pelas ruas desertas na direção da estação quando vê um homem batendo numa mulher. Aproxima-se deles, dá uma guarda-chuvada no homem, que cai no chão. Pergunta se a mulher está bem, e em seguida sai correndo à procura do policial.

Quando Cross e o policial chegam ao lugar da briga, a mulher está sozinha. O policial pergunta para onde foi o homem que a atacara, ela dá a informação errada – é óbvio para o espectador que ela aponta para a direção contrária.

Assim que o policial vai atrás da pista errada, a mulher pede que Cross a acompanhe até sua casa.

Não o convida para subir – diz que mora com uma amiga, não pode incomodá-la àquela hora da noite. Mas há um bar bem ao lado, e Cross a convida para um café.

O pato se apaixona perdidamente pela femme fatale naquele momento.

Chama-se Katharine March, mas os amigos a chamam de Kitty, a personagem da belíssima Joan Bennett.

Durante a conversa no bar – regada não a café, mas a rum, pedido por ela –, dá-se um duplo erro de identidade. Cross está com seu melhor terno; quando ela pergunta o que ele faz, ele diz que pinta, e ela acredita, então, que ele tem dinheiro.

Quando Cross pergunta o que Kitty faz, ela sugere que ele adivinhe, e ele, tolo, pato, acredita que ela é uma atriz.

Não é atriz coisa alguma. Trabalhou um tempo como modelo, mas é preguiçosa, não chegava na hora, tinha sido demitida. É amante de Johnny (Dan Duryea), o homem que batia nela quando Cross os viu pela primeira vez. Johnny é um pequeno bandidinho, um traste, um pustema – e ela também é um traste, uma pustema, que além de tudo gosta de apanhar.

E agora apanhou um trouxa.

Estamos aí com uns 15 minutos de filme, e a trama que virá em seguida terá algumas surpresas, e muita coisa fácil de se prever, de se adivinhar.

Kitty é cadela demais da conta; ama o bandidinho que bate nela, é preguiçosa e porca

O roteiro – assinado por Dudley Nichols – baseia-se em um romance e peça franceses, escritos por Georges de la Fouchardiere, cujo título original é La Chienne. Chienne, cadela.

Kittty é cadela demais da conta. Não apenas apanha do amante Johnny; não apenas gosta de apanhar, e quer apanhar mais; está perdidamente apaixonada pelo bandido que bate nela. O bandido que bate nela é a razão da sua existência.

E não é só. Kitty é porca. O lugar em que mora é porco, cheio de louças por lavar, cheio de roupas displicentemente espalhadas por todo o chão. Kitty joga as bitucas dos cigarros no chão de sua casa. Ora, raios.

O exagero do roteirista Dudley Nichols em mostrar uma femme fatale tão cadela, tão porca, e um pato tão absolutamente tolo, quase idiota, prejudica o filme. Mas prejudica mais ainda o descompasso entre as interpretações do grande Edward G. Robinsdon e da bela Joan Bennett.

Edward G. Robinson é soberbo. Está acima dos diretores. Poderia ser escalado para uma novela da TV Record, e teria atuação irrepreensível. Está perfeito como o pequeno homem cinzento tolo demais.

Já Joan Bennett… Joan Bennett, neste filme, tem uma interpretação de novela da TV Bandeirantes, ou da TV colombiana de pior qualidade. Beira o ridículo.

E Dan Duryea, que faz Johnny, esse fica abaixo de qualquer possibilidade de crítica. Sua interpretação é grotesca, para dizer o mínimo.

Há coisas difíceis de compreender. Na teoria, não seria possível interpretações tão absolutamente ruins em um filme do grande Fritz Lang.

Teoricamente, não. Mas elas estão lá, para todo mundo ver. Como se dizia no tempo do meu pai, quero ser mico de circo se alguém me demonstrar que as interpretações de Joan Bennett e Dan Duryea são, digamos, aceitáveis.

Nem tudo que é noir brilha

E, no entanto, há momentos soberbos no filme. Como, por exemplo, o discurso do jornalista a respeito da culpa, da culpabilidade. Ele assegura que o culpado paga, mesmo que a Justiça eventualmente erre.

É Fritz Lang puro. E é um brilho.

Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo, deu 3 estrelas em 4: “Robinson, humilde, dominado pela mulher, é levado para o mundo do crime e da fraude pela sedutiva Bennett e seu namorado manipulativo Dyryea. Os astros e o diretor de ‘Woman in the Window’ mantém o filme interessante, mas não chegam a igualar a obra anterior. Dudley Nichols adaptou essa história, filmada anteriormente por Jean Renoir como ‘La Chienn’.”

Epa: não sabia, ou não me lembrava (o que dá no mesmo), que o grande Jean Renoir havia filmado a história.

Dame Pauline Kael lembra isso de cara:

“Fritz Lang dirigiu esta versão americana de ‘La Chienne’, de Renoir; no cenário americano, vira um melodrama sórdido e miserável, sobre um amor ilícito, que não conduz a coisa alguma – não é um dos melhores filmes americanos do diretor. (Foi originalmente proibido no Estado de Nova York – isto é, negaram-lhe a licença – como ‘imoral, indecente, corrupto e tendendo a incitar ao crime’, um julgamento que pareceu excêntrico mesmo na época. Edward G. Robinson faz um caixa grisalho, frustrado, casado com uma megera (Rosalind Ivan); seu único prazer é a pintura aos domingo. Apaixona-se por uma prostituta e instala-a num apartamento em Greenwich Village com dinheiro roubado. Mas a prostituta ama um jovem brutamontes (Dan Duryea), que bate nela. O roteiro, de Dudley Nichols, é malfeito e o estilo enfático de Lang encaixa a martelo as ironias e os macetes da trama de…”

– e aí eu censuro Dame Kael porque ela revela o fim do filme.

Para mim, é assim: nem todo noir brilha, nem tudo que fazem os grandes nomes – como Fritz Lang – presta.

E belas atrizes, como Joan Bennett, às vezes trabalham mal como se estivessem na Escolinha do Professor Raimundo.

ALMAS PERVERSAS
(Scarlet Street, EUA, 1945).
Direção: Fritz Lang.
Roteiro: Dudley Nichols, baseado na novella e peça La Chienne, de Georges de la Fouchardiere, Mouezy-Eon.
Elenco: Edward G. Robinson (Christopher Cross), Joan Bennett (Kitty March), Dan Duryea (Johnny Prince), Margaret Lindsay (Millie), Rosalind Ivan (Adele Cross), Jess Barker (Janeway), Arthur Loft (Dellarowe), Russell Hicks (Hogarth), Samuel S. Hinds (Charles Pringle), Lou Lubin (Tiny).
Drama / Noir.
Preto e branco.
103 minutos.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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