Bibi Ferreira: histórias e canções

Incríveis 90 são os anos vividos pela grande Bibi Ferreira, que se apresenta no Teatro Frei Caneca de salto alto, vestido superelegante (de alça, com os ombros nus!), sem sentar ou se apoiar na quase hora e meia de estupenda performance, em frente a uma orquestra fantástica, composta de 21 músicos que sabem que estão se apresentando num momento: antológico do teatro brasileiro. Sim, porque a trajetória de Abigail Izquierdo Ferreira, ou simplesmente Bibi, filha do lendário Procóprio Ferreira (1898-1979) é a de um cometa nos palcos.

“Bibi, Histórias & Canções” é uma viagem sentimental e artística da grande diva por sua  extraordinária carreira de nada mais nada menos, que sete décadas – 71 anos para ser mais preciso – de trabalhos em peças, concertos, filmes e  televisão que se misturam à  própria história do show business brasileiro.

Depois da overture, a entrada triunfal da grande estrela se dá ao inesperado som de Frejat e Cazuza, sucesso na voz de Cássia Eller: a clássica “Malandragem”. Ela caminha  para o centro do palco exatamente no momento do verso “quem sabe ainda sou uma garotinha”, demonstrando todo seu  humor e amor à vida e à profissão,  sendo imediatamente ovacionada de pé por uma plateia que sabe estar diante de um verdadeiro monumento do teatro, uma lenda viva. A incrível Bibi irradia energia e exuberância que impressionam e contagiam uma plateia que chega ao êxtase em segundos. A voz da diva é um fenômeno: está ainda mais potente e bonita.  A memória é assombrosa: canta em inglês, francês, espanhol e português – todas com letras elaboradíssimas, verdadeiros poemas musicados de compositores magníficos – de Noel Rosa a Rodgers & Hammerstein, de Chico Buarque a Tom Jobim, de Alan J. Lerner a óperas como “Figaro” e “La Traviata”. Brincando muito com o público,  esbanja bom humor, confessando amar música desde o século 17, “quando tinha 13 anos”. O maestro Flavio Mendes lhe pergunta sobre os musicais de Hollywood, e  ela já arrasa com uma inspirada “Waterfall” – mas antes provoca risos perguntando aos presentes “como a mocinha poderia ouvir o mocinho cantando, se entre eles havia uma enorme e barulhenta cachoeira?”

O maestro então comenta que ela foi a primeira atriz a trabalhar num musical da Broadway montado no Brasil. “Sim, foi  ‘My Fair Lady’ (1962), ao lado de Paulo Autran”, e pede aplausos para o “grande Paulo”.  “Lady” é considerado o maior musical da Broadway até hoje, tendo consagrado Julie Andrews, que o estrelou por quase quatro anos, (e visto por Bibi, inclusive), Após cantar a belíssima “I Could Have Danced All Night” do musical, emenda com “Hello, Dolly” e ”Man of La Mancha”, mais dois de seus grandes sucessos. Conta que ainda planeja fazer “A Noviça Rebelde”, “West Side Story” e “Cats”, e  depois de novas risadas,  solta a voz com a deliciosa “My Favorite Things” (outro hit de Julie), “America” e “Memory”.

http://www.youtube.com/watch?v=QMf5uWveAKo Entrevista de Bibi ao Jô 

”Mamãe nasceu na Argentina, e com ela aprendi espanhol”, e mandou ver em um tango. “De papai, herdei o gosto pela ópera, mas não entendia nada do que cantavam, então o jeito era cantá-las com versos  como ‘O teu cabelo não nega, mulata’’ ou ‘nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia’, ‘meu coração quando te vê, bate feliz…’”. Depois encerra o ”tour-de-force” mandando ver num ”Figaro” com a dificílima letra original e, claro,  outra ovação. Alguém grita, “Bibi, você é o máximo!” e ela dispara espirituosamente: “E você é a razão!”

A atriz então conta que conheceu Noel Rosa – “eu tinha só treze anos”, diverte-se, no set de filmagens de “Cidade -Mulher” (1936), de Humberto Mauro, que ”se desintegrou de tão antigo, não existem mais cópias”, e cai na risada. Ela não comenta, mas trabalhou em mais três filmes: “The End of the River” (1947), ”Almas Adversas” (1949), “Leonora dos Sete Mares” (1955). A filmografia reduzida se deve ao fato de se dedicar intensamente ao teatro e à televisão. Bibi então vai com tudo em ritmo de samba de breque e bossa nova.  São tantos estilos, tantos idiomas, tanto texto, que a impressão que se tem é que ela não pode ter 90 anos, se tem, ela é fenomenal mesmo, como cantava em “My Fair Lady”!

Chega a hora da diva brilhar em dois tremendos sucessos – “A Gota D’Água”, obra prima de Chico Buarque, que ela introduz com emocionante monólogo muita paixão,  e Piaf, muito antes de Marion Cotillard, com “La Vie en Rose” e  “Non, Je ne Regrette Rien”, de arrepiar.  Discretamente, seu empresário surge no fundo do palco, elegante num terno, para cantar um dueto romântico com sua ilustre cliente e amiga. Ele então anuncia que Bibi vai se despedir com outro sucesso de sua  formidável carreira. Tendo feito espetáculo sobre Amália Rodrigues, Bibi emociona  cantando o  mais famoso e conhecido dos fados eternizado pela célebre cantora portuguesa que interpretou,  De quem eu gosto, nem às paredes confesso…” e outra vez faz graça com o público, fingindo ter esquecido a letra – ”como é mesmo a sequencia?  – “’pode sorrir, pode chorar, pode mentir’ ou ao contrário?”

Aproximando-se o momento do grand finale,  alguém grita, “Não se atreva a ir embora!”, intensificando os risos e aplausos emocionados. O empresário anuncia que, após a temporada em São Paulo,  a grande diva viajará pelas capitais brasileiras, irá se apresentar em  Portugal e encerrará a gloriosa turnê em novembro na celebrada Nova York. A voz poderosa de Bibi decreta: “If I can make it there, I’ll make it anywhere, it’s up to you, New York, New Yooooooooork!” e se retira do palco iluminada, deixando o público em delírio.  Acabaram de ver a primeira dama do teatro brasileiro em sua plenitude e foram presenteados  com um novo conceito, o de que aos noventa anos pode-se ainda ter muito a fazer, a entregar, a sonhar. É muito bom ter 90 anos, prova uma magnífica Bibi Ferreira, embora tenha dito  às gargalhadas ao Jô Soares  que, depois que ele anunciou sua nova idade  no seu talk show, ela nunca mais conseguiu namorado, e nenhum homem olha mais para ela.

Bravo, Bibi!

Bibi, Histórias e Canções
Até  30 de setembro
Teatro  Shopping Frei Caneca
Direção: João Falcão

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

One thought on “Bibi Ferreira: histórias e canções

  1. Waldemar mais uma vez está de parabéns, pois com lindas palavras fez uma justa homenagem a esta mulher fantástica que é a Bibi Ferreira. No auge aos 90 anos, ela nos passa uma lição de vida, mostrando que nunca é tarde para cantar e encantar, alegrar, sorrir e fazer os outros sorrirem…Com músicas lindas, Bibi nos leva a sonhar e reviver momentos inesquecíveis…
    Graciana Almeida

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