Uma Noite na Ópera: Um dos maiores clássicos do cinema americano, uma das comédias mais famosas da História

Uma Noite na Ópera” é um dos maiores clássicos do cinema americano, uma das comédias mais famosas da História. Feito três quartos de séculos atrás, num outro tempo, num outro mundo, continua fascinante – e engraçadíssimo.

Não sei, não dá para saber o que pensaria de “Uma Noite na Ópera” uma pessoa de 20 e poucos anos. Não uma pessoa especial, com curiosidade imensa e respeito pela História, como minha sobrinha-neta Sarah, por exemplo – mas um jovem “normal” (se é que isso existe), padrão. É possível que não achasse muita graça, que não compreendesse os códigos, por causa do gigantesco abismo que separa a época em que o filme foi feito do nosso tempo.

Será?

É, não dá para saber. Outro dia um texto da Veja sobre fotos de Marilyn Monroe – seguramente escrito por um jovem, desses que acham que o mundo começou no dia em que nasceram – dizia que “Quanto Mais Quente Melhor”, o grande clássico de Billy Wilder de 1959, hoje parece “farsesco e forçado como tantos filmes do passado”. Sou um tanto otimista, e ousaria crer que os jovens “normais”, padrão, de 20 e poucos anos, são mais sensíveis e inteligentes e menos presunçosos do que o garoto que escreveu isso na Veja.

Uma das seqüências mais engraçadas da história

Bem. Eu – que nasci apenas 15 anos depois que “Uma Noite na Ópera” foi feito, já estou velhinho e faz uns 50 anos que vejo clássicos – ainda tenho grandes lacunas no conhecimento de cinema. Os Irmãos Marx são uma dessas feias lacunas. Não me lembro de ter visto filme deles antes – um absurdo.

Fiquei observando o filme assim de longe, distanciado, nos primeiros minutos. Gostei das piadas rápidas de Groucho, certeiras, flechas disparadas a torto e a direito, enquanto ele faz aquela cara meio de sonso, meio de esperto demais. Na sequência da cabine, quando o filme está aí com uns 20 minutos, comecei a gargalhar. O distanciamento foi pro brejo – entrei de cabeça no clima louco, nonsense, rebelde, anárquico do humor dos Irmãos Marx.

Claro, já tinha ouvido falar na sequência da cabine, seguramente já tinha visto trechos dela em clips – mas, quando se está vendo o filme e se chega nela, é bom demais, é uma maravilha. É, de fato, uma das seqüências mais antológicas da história do cinema.

Não é só ela que é hilariante, claro. Há muita coisa engraçadíssima – e toda a série de seqüências finais, na ópera de Nova York, é um brilho absoluto. Mas a seqüência da cabine é demais – é, como reparou acho que foi o diretor Carl Reiner, do nível da sequência da Corrida do Ouro em que Carlitos-Chaplin faz a sopa de suas velhas botas. São, muito provavelmente, as duas seqüências mais extraordinárias da história da comédia, neste um século e tanto de cinema.

A cabine do navio é pequeníssima, absolutamente mínima. Na primeira vez em que a vemos, Groucho tem dificuldade para botar dentro da cabine o grande baú com o qual entrou no transatlântico. Ele até pergunta se não seria o caso de botar a cabine dentro do baú. Bem, estão dentro da cabine pequeníssima o baú, Groucho, Chico e Harpo Marx, mais Allan Jones, que faz o tenor Ricardo. Harpo está dormindo profundamente; botam-no de pé quando chegam as duas camareiras, para que elas possam arrumar a cama, e ele continua dormindo, agora apoiando-se numa das camareiras. Chega o engenheiro para desligar o aquecimento. Groucho vai abrindo a porta da cabine, sempre sorridente, sempre segurando o charutão com a mão esquerda. Chega a manicure, pergunta se era daquela cabine que a haviam chamado, e Groucho diz que não, mas por favor entre. Um dos pés de Harpo, sempre dormindo, cai na bandeja da manicure, Groucho tira o pé dele. A manicure pergunta se ele deseja as unhas longas ou curtas, e ele pede: – “Melhor curtas, porque aqui está ficando um tanto cheio”. Chega o assistente do engenheiro – camarada altíssimo e gordão. Chega uma moça procurando por um telefone. Chega a faxineira, também parruda, e Groucho sugere: – “Melhor começar a lavar o teto, é o único lugar que não está ocupado”. Aí chegam quatro garçons, cada um com uma grande bandeja de comida.

Os quatro personagens, duas camareiras, o engenheiro e o assistente, a manicure, a moça que vai telefonar, a faxineira, quatro garçons – 15 pessoas dentro da cabinezinha mínima! E todos em ação, a manicure fazendo as unhas de Groucho, as camareiras mexendo na roupa de cama, Chico e Ricardo tentando botar Harpo de pé – é sensacional!

De fato: como foi que aqueles loucos conseguiram filmar essa seqüência?

Naturalmente, a sequencia está no YouTube. Quando ela termina, dá vontade de ver de novo. Confira:

Em um texto muito pessoal, editor do Le Monde lembra da infância

Um quarto de século depois de “Uma Noite na Ópera”, em 1960, na sua melhor fase, Jerry Lewis, um grande comediante cujo valor foi mais reconhecido pela crítica francesa do que pela americana, fez uma pequena variação da sequência da cabine, em “O Mensageiro”, escrito, dirigido e estrelado por ele. Seu personagem, o mensageiro do título, funcionário subalterno de um gigantesco hotel em Miami, está na porta, recepcionando um grupo que sai de um carro. E vão saindo do carro cinco, seis, dez, 20, 30 pessoas.

Naturalmente, não é só Jerry Lewis que deve muito aos Irmãos Marx. O tipo de humor de Mel Brooks, e muito do que veio depois dele, é calcado no de Groucho, Chico e Harpo.

O texto sobre “Uma Noite na Ópera” no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, assinado por Jean-Michel Frodon, editor de cinema do Le Monde, é absolutamente pessoal. Começa contando que foi levado por um adulto para ver o filme quando não tinha mais que dez anos. “Nessa idade, ler as legendas ainda era muito difícil para mim, especialmente com aquele sujeito de bigode e charuto gritando palavras para a platéia como uma metralhadora enlouquecida. No entanto, tive muito pouco tempo para me preocupar com esse problema: logo eu estava deitado no chão, rindo tanto, de forma tão incontida e, se me permitem, tão absoluta, que passei a maior parte do filme lá, entre os assentos. Desde então, tive o prazer de reverUma Noite na Ópera várias vezes, juntamente com o restante das obras dos Irmãos Marx. (…) Ainda sinto – no meu íntimo e também na pele – a incrível força inventiva e transgressora que este filme em particular transmite.”

Bom texto – e que delícia ver textos pessoais sobre filmes, que não perseguem uma inexistente, porém defendida por alguns, objetividade jornalística. A definição sobre como Groucho fala é perfeita: uma metralhadora enlouquecida.

Leonard Maltin dá 4 estrelas, sua maior cotação, e diz: “Os Irmãos Marx invadem o mundo da ópera com resultados devastadores. Provavelmente o melhor filme deles (ao lado de Duck Soup, Diabo a Quatro), com boa música e romance bem interligados. Um momento cômico sem preço segue outro: a cena da cabine, o contrato da Parte da Primeira Parte, etc. É o melhor que se pode esperar.”

Pauline Kael discorda sobre ser o melhor filme deles: “Os Irmãos Marx diziam que este era seu melhor filme; não é, mas foi o maior sucesso deles. Dois alvos americanos lindamente emproados – a grande ópera e a alta sociedade – são desmantelados, drapejando como espantalhos. (Quem algum dia conseguiu ouvir ‘Il trovatore’ de cara séria jamais poderá voltar a fazê-lo.) Muitos autores tentaram analisar o humor dos Irmãos Marx, produzindo pequenas monografias sobre ‘pensamento dissociado’, ‘protesto social disfarçado’ ou ‘commedia dell’arte’. É só pensar muito, que a sanidade, como uma folha de alface, começa a murchar e drobrar nas bordas.”

E conclui: “Esta comédia tem sua seqüência clássica: a cena do camarote, considerada por muitos como os cinco minutos mais engraçados da história do cinema. Faz-nos agüentar os duetos pavorosos”.

Ela não tem jeito, Dame Pauline. Destroça tudo. Mas tem razão: os duetos do tenor Allan Jones e sua namorada, interpretada por Kitty Carlisle, são de fato pavorosos.

Mas é um filme deliciosamente engraçado.

Todo mundo deveria mostrá-lo a seus filhos.

UMA NOITE NA ÓPERA
(A Night at the Opera, EUA, 1935).
Direção: Sam Wood.
Roteiro: Al Boasberg, Bert Kalmar, George S. Kaufman, Harry Ruby, Morris Ryskind, baseado em história de James K. McGuinness.
Elenco: Groucho Marx (Otis B. Driftwood), Harpo Marx (Tomasso), Chico Marx (Fiorello), Kitty Carlisle (Rosa Castaldi), Walter Woolf King (Rodolpho Lassparri), Sig Rumann (Herman Gottlieb), Allan Jones (Ricardo Baroni), Margaret Dumont (Mrs. Claypool).
Comédia / Musical.
Preto e branco.
92 minutos.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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