Batman e o espetáculo da simulação da transgressão, e o On the Road, de Walter Salles, e o entusiasmo artificial da classe média

O vilão da ficção Bane, em “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, e o assassino real James Holmes

Christopher  Nolan não é Harmony Korine. “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é uma engenhosa simulação de uma ruptura que, no fundo, jamais aconteceu: a ruptura com o sistema de apropriação da linguagem publicitária para uso da especulação mercantil de Hollywood. Como nossos políticos do igualmente fracassado e sem nenhuma representatividade real, sistema partidário, Nolan e Hollywood prometem uma ruptura que não são capazes de cumprir, a ruptura com a mentira em profundidade disfarçada de verdade em essência. No caso de Hollywood, a regra é distrair e infantilizar. No sistema político partidário, a regra é simular a transferência de poder que não ocorre, apesar dos inúmeros mecanismos de controle social em vigor.

Merde, começo a falar de cinema e caio no abismo da política. Voltemos ao filme evento: no fundo este filme prova que a profundidade e a transgressão em Hollywood  são acidentes: quem era o verdadeiro autor da segunda parte da trilogia de Nolan?  Heath Ledger? Reproduzo abaixo um fragmento do texto que escrevi no meu blog Teatro Fantasma na época do lançamento de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”: “(…) o conflito do filme não é entre o bem e o mal no sentido ontológico, mas entre uma máscara que aceita o Caos (o Coringa) e uma máscara que tenta encobri-lo com a ética do ressentimento (Batman). O grande trunfo de C. Nolan é jogar com estas duas máscaras dentro dos limites de um filme de ação e transfigurar esse filme em uma tragédia, onde as duas máscaras se fundem para formar uma só máscara trágica, a máscara da inadequação, onde a única lógica é a da fuga constante. Mas o filme vai mais longe do que isso e voltarei a escrever sobre ele.”

Pois bem, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é uma redução da dimensão trágica  do filme anterior a uma farsa que imita perfeitamente um ‘filme cabeça’. Este filme funciona como uma boa imitação de um poema, é a estilização de um vazio provocado pela crise econômica do mesmo modo que o anterior era uma exposição de um caos semi niilista como um poema criado pela queda do World Trade Center. O terrorismo do Coringa é gratuito como o horror incalculável de um psicopata dentro de um cinema, não por acaso, o episódio terrível e ao mesmo tempo banal, onde um atirador entrou no cinema e atirou em várias pessoas na estreia deste “Batman”. Nisso vemos que a simulação é emblemática – reproduzo um trecho de uma noticia sobre a tragédia: “Segundo o chefe da polícia de Nova York, Richard Kelly, Holmes, o atirador, estava com o cabelo pintado de vermelho e disse que era o Coringa, personagem rival do Batman, no momento em que foi preso.”.

O atirador disse isso como se evocasse um sentido real para a tragédia reescrita como um “poema” em “Batman – o Cavaleiro das Trevas”, a mais terrível crítica a uma simulação é esta feita pelo atirador. Existe muito mais transgressão nos episódios da série “The Walking Dead”  criada por Frank Daranbont. Os zumbis de “The Walking Dead”  são  uma crítica nada sutil da situação da classe média norte-americana, a matriz da nossa patética classe média sul-americana. O personagem Carl Grimes, interpretado pelo garoto ator Chandler Riggs, com seu enorme chapéu de caubói atirando nos zumbis no mundo-símile do nosso da série, refaz a mesma “crítica macabra” do atirador Holmes dentro do cinema durante a estreia de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Ouso aqui chamar um ato terrorista de ‘crítica’, utilizando a mesma licença poética do grande K. Stockhausen, que chamou a queda das torres do World Trade Center de “A maior obra de arte de todos os tempos”.

Ao invés de tecer um comentário sobre o artificialismo e falta de vitalidade das cenas de “On the Road”, de  Walter Salles, prefiro propor um exercício de imaginação a partir da seguinte pergunta:

E se Wim Wenders fosse o diretor do “On the Road” no lugar de Walter Salles?

*****

Quanto vale um poeta?

Reproduzo abaixo um artigo que escrevi sobre a poesia e os poetas hoje, onde está escrito poesia leiam cinema – na verdade o cinema acabou e só existe a poesia.

A poesia é, hoje, algo que foi completamente estuprado e esquartejado pelo marketing literário? Ela é um fantasma impotente da tradição poética, sem nenhuma conexão com o ‘em torno’?

(O fantasma de Haroldo de Campos dormindo com os mendigos na Casa das Rosas, o de João Cabral tentando encontrar o caminho de volta para o Brasil em Sevilha, o de Gonçalves Dias caminhando através das árvores e atravessando o corpo dos índios assassinados no Xingu, o de Mário Faustino confundindo um smog de fumaça de maconha com uma nuvem…)

Os poemas escritos e publicados nos últimos vinte anos não possuem luz suficiente pra iluminar o inferno da nossa miséria…

(Sim, a poesia deveria ser a luz do mundo, ao contrário do Marcelo Rodrigues dos Santos sou extremamente pretensioso, eu e John Ashbery). Os poemas escritos e publicados nos últimos vinte anos tem servido ao menos para converter nossa solidão em um oceano parado com metáforas congeladas afundando na nostalgia da delicadeza e profundidade perdidas ou engaioladas dentro da burocracia nadificante do varejo miserável do cotidiano? Infelizmente não, discordo de Manoel de Barros; (Um poeta 24 horas como Carpinejar), para mim, a poesia deve ter uma utilidade, ela é o cão-guia dos cegos-açougueiros metafísicos e ratos fosforescentes dos Prêmios Literários, feiras de livros e demais campos de concentração da egoidade, vaidade dos Pavões sem rabo, doa Pavões albinos que frequentam praticamente toda as tais feiras… A poesia pode ter se convertido em uma traição do real?

Embora ninguém saiba o que ele é, o Real, reduzido a um jardim de signos e símbolos ainda resiste, obviamente ele é a pergunta da esfinge proustiana…

Em uma luta absurda e patética contra o sentido da linguagem, que como intuímos, não nos devolverá à vida real, os poetas viciados em dar socos na linguagem, continuam gritando seus próprios nomes para os fantasmas do cânone-lápide?

Sim, a maioria dos poetas de hoje nada tem a dizer de essencial ou interessante, a linguagem é apenas um campo de auto-referência e de irradiação para um tedioso jogo de “Olhem para mim, sou o novo Kerouac, o novo Rimbaud e etc…” Sei que, ao citar alguns nomes, estou dando corda no mecanismo do marketing pessoal dos poetas de plantão. É fácil notar que boa parte da poesia escrita e publicada nos últimos vinte anos tem como centros: a anulação, o tédio e a mistificação, que por sua vez, acabam por encobrir, a autêntica emoção ou singularidade, que deveria estar nos poemas.

Quantos poetas surgidos nos últimos vinte anos e com livros publicados não sofrem de uma doença chamada esquematismo?

Poucos e raros têm realmente algo a dizer e o conseguem fora desse lixão do marketing literário, onde empresários e pseudocríticos ergueram uma espécie de Shoping Center do espírito que distribui cânones sem conteúdo que não se sustentarão na cruel verticalidade do tempo, desse tempo correndo cada vez mais rápido, na velocidade do semianalfabetismo e do analfabetismo funcional patrocinados pelo personalismo político-partidário (irmão siamês do marketing literário, VER Gabriel Chalita e suas falsas Nêmesis no catálogo das editoras que monopolizam as vitrines das megalivrarias).

Estive anteontem na maior favela de Cubatão-SP, a Vila Esperança, fui lá vender meu livro TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS, e um menino de aproximadamente 14 anos, que estava ouvindo funk e segurava uma pistola semiautomática, ao ver a palavra poeta escrita na contracapa do livro, me disse:

– Ah, mas o maioral da poesia é o Mano Brown, tá Ligado?!

Concordo com o pequeno soldado do Hipercaos, Mano Brown é o “Lula” da poesia contemporânea e isso não deve ser lido como um elogio, mas como um sintoma.

Para encerrar ouso afirmar que meus poemas não estão fora desse mapa da esfinge raquítica e de suas perguntas-problema.

Na verdade não existem “os meus poemas”, apenas os seus…

E quando a esfinge raquítica lá na Vila Esperança perguntou meu nome, respondi:

– Meu nome é Ninguém… agora me diga, desde quando os mortos costumam andar por aí de arma na mão?

Nota breve:

Neste mês ou no início do próximo lanço meu novo livro artesanal

Teatrofantasma ou o doutor imponderável contra o onirismo groove

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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