A história do Batman no cinema

O 1º homem morcego das telonas não foi o Cavaleiro das Trevas

2014 não é só ano de Copa e eleição. Para os fãs das histórias em quadrinhos, há outra data a ser lembrada: Batman completa 75 anos desde sua primeira aparição, na revista Detective Comics #27, de maio de 1939. No entanto, as polêmicas em torno de sua criação são várias. Há quem diga que Bob Kane teria trabalhado no personagem com outros profissionais, e levou o crédito sozinho. Pois bem, 13 anos antes da primeira aparição do herói nos gibis, foi lançado um obscuro filme mudo chamado “The Bat”.

Diferente do famoso vigilante de Gotham, o protagonista não combate o crime, mas rouba joias. Porém, tem várias semelhanças com aquele que viria a se tornar o Cavaleiro das Trevas: registra seus feitos com um cartãozinho assinado por “O Morcego”, tem máscara, cinto de utilidades e anuncia a presença com um sinal luminoso no formato do mamífero voador. Ou seja, Bob Kane deve ter sido o maior cara de pau da Era de Ouro dos gibis.

O longa em preto e branco foi baseado no livro The Circular Staircase, escrito por Mary Roberts Rinehart (1876-1958), publicado em 1908 e que fora adaptado ao cinema em 1915, também como “The Bat”. No entanto, o tal homem-morcego viraria protagonista da história somente em 1920, quando a obra literária teve nova adaptação, desta vez para os palcos, onde foi encenada 867 vezes. E em todas as apresentações, o nome do vilão era omitido, com o objetivo de manter o interesse do público até o fim.

As matinês dos anos 40

Lewis Wilson e Douglas Croft: os primeiros atores que interpretaram a dupla dinâmica

Se você acha o “Batman” dos anos 60 engraçado, não viu nada. Adam West foi, na verdade, um sucessor de Lewis Wilson (1920-2000), que duas décadas antes vestiu o uniforme no cinema. O primeiro de vários atores que encarnariam o herói. Em junho de 1943, “Batman” (“O Morcego” no Brasil) chegou às matinês cinematográficas dos EUA em 15 episódios, quatro anos após o personagem ganhar as páginas das HQs.

Produzida pela Columbia Pictures, responsável pela primeira versão live action do Superman, em 1948, a série teve direção de Lambert Hillyer (1889-1969), sujeito incansável, que entre 1917 e 1949 dirigiu mais de 160 filmes!

A abertura já provoca risos. Batman, melancólico, está em sua escrivaninha, na Batcaverna. Morceguinhos de papel voam pra lá e pra cá até um serelepe Robin dar as caras. A dupla sai de cena abraçada, dando vazão àqueles comentários maliciosos que duram até hoje.

Era só o começo. O uniforme é nitidamente mais folgado que o corpo nada convincente do ator. Os chifres do capuz ficam caídos. A máscara de Robin lembra a do Zorro, com elástico prendendo-a ao redor da cabeça. Durante a trama, Batman deixa a capa cair (e ela volta intacta na cena seguinte), cigarros (!!!) voam do cinto de utilidades, o protagonista ressurge inteirinho depois de quedas mortais e, ainda por cima, o carro utilizado pelo Cruzado de Capa é a mesma limusine de Bruce Wayne! Sem contar a história em si. Batman e Robin não atuam na clandestinidade. São agentes do FBI. E combatem uma figuraça: Dr. Tito Daka.

Momento íntimo em 1949

Nada disso obviamente impediu o sucesso da produção, que, inclusive, influenciou os gibis: pela primeira vez na mitologia do personagem a Batcaverna foi mostrada e Alfred retratado como alguém magro e de bigode fino.

A obra está disponível no Brasil pela ClassicLine, empresa especializada em vender DVDs de filmes que, por algum motivo, não possuem detentores de direitos autorais.

A distribuidora também lançou por aqui “Batman and Robin”, de 1949, que repetiria o sucesso e as esquisitices do seriado anterior. Apresenta um total de 15 episódios e foi distribuído pela Columbia Pictures, sendo lançado nos Estados Unidos em 16 de maio de 1949. Os roteiros dos episódios são assinados por Bob Kane, George H. Plympton, Joseph F. Poland e Royal K. Cole. Agora, o antissocial Professor Hammil cria um controle remoto capaz de controlar todos os veículos da cidade. Um misterioso sujeito conhecido como Mago rouba o aparelho. Batman e Robin ajudam o comissário Gordon e a polícia de Gotham na captura do vilão Mago, além de salvar a repórter Vicki Vale dos mais diversos perigos.

O primeiro longa do cinema

Quando revista hoje, a série criada para televisão dos anos 60 é, talvez, mais engraçada do que os produtores gostariam. E o filme feito como derivado do seriado, “Batman, o Homem Morcego” (1966), foi fiel ao nível de “tosquice”. Os diálogos continuaram bisonhos, assim como os figurinos e aquelas cores super saturadas. No entanto, se trata de um reflexo das HQs do herói na época, repletas de histórias engraçadinhas, e da própria década em questão.

http://www.youtube.com/watch?v=tCz_eIMXr6k A cena “antológica” do spray anti-tubarão

Na história, Batman e Robin precisam enfrentar, em uma tacada só, ninguém menos que Coringa, Charada, Pinguim e Mulher-Gato. Memoráveis, para o bem e para o mal, são as presenças da bela modelo Lee Meriwether, na pele da personagem felina, e a cena que mostra Robin tirando do armário o “bat spray antitubarão”. Curiosidade: Pinguim era interpretado por Burgess Meredith, que ficaria famoso como o treinador de Rocky Balboa no cinema, Mickey.

Tim Burton

Mais de vinte anos se passaram da primeira “batmania”, nos anos 60. E coube a Tim Burton, que até então não era grande nome em Hollywood, resgatar o personagem nas telonas. Se atualmente seus dois filmes soam mera diversão perto dos feitos por Christopher Nolan, naquele período soaram darks perante o visual camp de duas décadas antes.

http://www.youtube.com/watch?v=VRqa47-jv0M Trailer do filme de 1989 

Em “Batman” (1989), Michael Keaton, que trabalhara com o cineasta em “Os Fantasmas se Divertem”, no mesmo ano, dá vida a um Bruce Wayne amargurado. Há quem diga que o ator não tinha o porte para ser Bruce Wayne/Batman. O intuito, segundo o cineasta, foi mostrar alguém de aparência comum. O inimigo é o Coringa vivido com energia por Jack Nicholson. Há ainda a repórter Vicky Vale, interpretada pela “bonitinha, mas ordinária” Kim Basinger. O roteiro, esquemático, faz do Palhaço do Crime o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne. E o vilão tem mais tempo em cena que o herói. Valem mesmo a pena a trilha de Danny Elfman, intercalada por canções de Prince, e o visual gótico de Gotham City. Não à toa, levou o Oscar de Direção de Arte. O grande sucesso transformou Nicholson em multimilionário: ele abriu mão do cachê por uma porcentagem dos lucros do filme.

Pinguim e a Mulher-Gato, versão de 1992

Três anos depois, veio a continuação, novamente estrelada por Keaton. Dessa vez, o herói enfrentou dois vilões: a Mulher-Gato, em encarnação sexy e memorável de Michelle Pfeiffer, e o Pinguim, em ótima caracterização de Danny DeVito. Se o roteiro não ajudou muito (a transformação de Selina Kyle em Mulher-Gato é nonsense),  Tim Burton apresentou uma Gotham de visual arrebatador. E fez uma história até mais divertida e menos irregular que a anterior, deixando Batman mais tempo em cena e com momentos marcantes. Novo sucesso de bilheteria. Pena que o diretor deixaria a direção da franquia…

Uma animação decente

http://www.youtube.com/watch?v=530zqkDKjno Trailer da animação

Os sucessos dos filmes de Tim Burton fizeram a Warner/DC planejarem a famosa e celebrada série animada do Batman. Também foi produzido um longa de animação distribuído em circuito selecionado nos EUA, para o Natal: “Batman – A Máscara do Fantasma”, de 1993. Mais sombria, a animação, por incrível que pareça, conseguiu captar melhor o espírito das histórias do personagem que os filmes live-action.

A trama apresenta um misterioso vilão que assassina os mafiosos de Gotham. Enquanto isso, o Coringa também está à solta. Com flashbacks que mostram sua origem e o treinamento para Bruce Wayne se tornar o herói, o longa inclui um interesse amoroso e antecipa um pouco do que seria mostrado em “Batman Begins”. Até hoje, é uma das histórias preferidas dos fãs fora dos quadrinhos.

O quase adeus às telonas

Pois é. Tim Burton deixou a direção dos filmes, e assinou somente a produção de “Batman – Eternamente” (1995), deixando a cadeira para Joel Schumacher. Michael Keaton também deu adeus ao papel, para dar lugar a Val Kilmer. Robin surgiu em cena, incorporado por Chris O’Donnell. E o affair do protagonista foi ninguém menos que Nicole Kidman. Mas as atuações caricaturais de Jim Carrey, na pele do Charada, e Tommy Lee Jones, como o Duas Caras, mais o excesso de cores, as piadinhas sem graça, a armadura com mamilos e a inexpressividade de Kilmer, apontaram o declínio da franquia. No entanto, o pior estava por vir.

Val Kilmer dançou. O galã George Clooney, ainda sem o sucesso de hoje, aceitou vestir a capa e o capuz do homem morcego. Triste armadilha. É o maior arrependimento de sua carreira. Joel Schumacher elevou à enésima potência suas fantasias com o personagem e concebeu uma paródia ridícula do seriado dos anos 60. Plumas e paetês deram um toque de desfile carnavalesco. E um emaranhado de vilões deixou a história sem sentido, esquizofrênica: Arnold Schwarzenegger, estático, viveu o Mr. Freezy, Uma Thurman, mais parecida com um travesti, foi a Era Venenosa e, até Bane, apareceu, uma espécie de Hulk, capanga da vilã. A bonitinha Alicia Silverstone foi a Batgirl, que virou namorada do Robin (O’Donnell novamente)! Uma lástima. Fracasso de crítica, público e que fez a Warner repensar seriamente se valeria continuar investindo no Cavaleiro das Trevas no cinema.

O curta que impressionou os fãs

http://www.youtube.com/watch?v=_QlMmY3XFNM O curta completo

Para muitos dos fãs de Batman, até o filme que reiniciou a franquia do personagem no cinema, dirigido por Christopher Nolan, e lançado em 2005, a melhor adaptação do homem-morcego para as telas foi o curta-metragem independente “Batman Dead End”, do até então pouco conhecido do grande público Sandy Collora, mas que já possuía uma carreira bastante respeitável, tendo realizado o cultuado curta-metragem “Solomon Bernstein’s Bathroom” (feito pela produtora que ele abriu em 1999, Montauk Films) e   trabalhado nos storyboards e na arte de longas como “Robocop 2”, “O Predador 2”, “Jurassic Park”, “O Corvo”, “Homens de Preto” e “Dogma”.  O filme foi realizado sem a permissão da Warner Bros. e, e em seus oito minutos, mostrou ser possível, sim, criar uma trama cinematográfica que se aproximasse do tom sombrio e soturno das melhores estórias do Cavaleiro das Trevas, colocando Batman (Clark Bartram) frente a frente com seu maior inimigo, o Coringa (Andrew Koenig), e trazendo para o universo do personagem duas figuras conhecidas dos fãs de terror e que já haviam figurado em gibis do homem-morcego: Alien  (Jake McKinnon) e o Predador (Kurt Carley). A repercussão na Comic-com e posteriormente na internet, mais um curta no formato de trailer (“World’s Finest”, 2004), que reúne Batman e Superman, levaram pessoas nos quatro cantos do planeta a perguntarem por que o cineasta não era escolhido para dirigir produções inspiradas nas HQs.

Enfim, Christopher Nolan

“Batman Begins”

A trajetória do Cruzado de Capa começou a ser contada de forma decente somente em “Batman Begins” (2005). O diretor Christopher Nolan finalmente realizou uma produção digna do personagem, dando uma “cara real” à história do herói, contando sua origem de forma muito próxima daquela narrada nas HQs, e mesclando ação bem feita com drama. Sem contar o elenco fabuloso que reuniu atores consagrados e outros jovens de talento: Christian Bale, o melhor ator a incorporar o Batman, Morgan Freeman, Gary Oldman, Michael Caine, Katie Holmes, Liam Neeson, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Cillian Murphy e Ken Watanabe, todos em boas e ótimas interpretações. Depois desse, o cinema de super-heróis tomaria outro caminho, intensificado na continuação, “O Cavaleiro das Trevas”.

Novo clássico

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) expandiu as qualidades de seu antecessor, mesclando drama policial, conflitos psicológicos (influência de “Fogo contra Fogo”, de Michael Mann), ótimas sequências de ação, excelente elenco e uma atuação antológica do falecido Heath Ledger na pele do Coringa, fazendo o palhaço do crime de Jack Nicholson, tão comemorado na época de “Batman”, de Tim Burton, parecer brincadeira de criança. Ledger acabou ganhando o Globo de Ouro e o Oscar (entre outros prêmios) de Ator Coadjuvante.

Elogiado pela crítica, o filme levanta inúmeras questões sobre segurança e privacidade, critica com inteligência o governo americano e fez mega sucesso de bilheteria, se tornando o quarto longa da história a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão ao redor do mundo. Aqui não existem comparações com “X-Men” ou “Homem-Aranha”. A obra foi um verdadeiro divisor de águas no gênero de super-heróis, transcendendo o estilo e sendo comparada a “O Poderoso Chefão 2″ e o próprio “Fogo Contra Fogo”. Um novo clássico.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

6 thoughts on “A história do Batman no cinema

  1. andré, muito bom.
    há duas matrizes de heróis, o Superman e o Batman. Superman, herói divino, descende de Hércules e Jesus. O Batman vem na linha de Perseu e Ulisses. Tem a ver com os santos, com a capacidade do homem se superar. é o meu preferido. obrigado por me lembrar dele.

  2. Obrigado pelo Texto, realmente muito bom, li coisas das quais não sabia, ficou bem completo !!

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