Sombras na Memória

Texto escrito originalmente em 26/07/2000

Há pouco, no banheiro, procurava levar adiante a leitura de um livro que me deixa intrigado, é o último dos livros de autoria do Ignácio de Loyola, recém publicado.  Intrigante, digo, porque cada trecho da leitura acaba suscitando reação e impressão diferentes.

Há momentos, como o de hoje, onde a leitura é agradável, lógica e cativante. Assim como há longos trechos, onde persiste a dúvida a respeito de ter ou não o livro sido escrito numa segunda-feira. Ou, se segunda-feira foi o dia em que adquiri o livro.

É quando ocorre este prejulgamento sobre a qualidade do trecho que será lido, que eu levo o livro para ler no banheiro. Faço-o, sem certeza sobre a motivação, pois é instintivo. Não sei se é por associação com a qualidade do texto ou se em função da leveza que acompanha a mente nesse ermo local.

Na realidade, boa ou má a qualidade do texto, jamais alterou este hábito arraigado em mim. É um hábito da infância. Um dos lugares mais agradáveis para ler sempre foi para mim o banheiro. Daí meu pai quando estava furibundo, após uma longa espera pela minha saída, costumar dizer: “Até que enfim, senhor… ilustrado!”.

Voltando à leitura. O trecho lido hoje, interessante, versa sobre a sombra projetada pelo personagem. Ou melhor, pela sombra não projetada pelo corpo deste personagem.

Interrompi a leitura para conjeiturar a respeito de nosso alheamento das coisas mais comuns, daquelas singelas coisas que dão colorido à vida das crianças.

Crescemos em tamanho, adquirimos “cultura” inútil e “conhecimento” sobre nada, aprendemos a acumular bens materiais, mas em troca perdemos a sensibilidade e o poder de observação naturais.

Divagando a respeito da leitura, apesar de todo o esforço feito para não perder a infantilidade, não sei em realidade se ainda possuo uma sombra. Aquela sombra projetada que o menino Ignácio descreve com sensibilidade e maestria. A mesma sombra com a qual brincávamos, quando crianças. As vãs tentativas de riscarmos a nossa própria sombra no chão de terra; a sombra arredia que não permitia ser fixada pelo próprio projetor.

Tantas outras lembranças podem ser reencontradas dentro das sombras da memória, se nos permitirmos abrir a arca de nossa infantil sensibilidade.

O tempo passa, crescemos em tamanho e regredimos em pureza. Perdemos, para uma lógica sem lógica a nossa capacidade de observação natural.

Envelhecemos… Parece que o termo é inadequado, hoje em dia. Não existem mais velhos, são todos de terceira idade. Eu me empenho, para permanecer na primeira idade, sempre que possível. Às vezes me perco e avanço um pouco no tempo, mas logo desperto.

De terceira é a qualidade mental daqueles que criam estes termos falsos. Como se a mudança de terminologia pudesse corrigir os erros, o desrespeito e o desamor para com os mais velhos. Ao invés de criarem estes termos tolos, que façam por divulgar as reais condições em que vivem os anciãos deste país: abandonados sem assistência médica, sem aposentadorias dignas e sem qualquer vislumbre de melhorias futuras.

É realmente um país sem memória, o que abandona aqueles que construíram o seu presente.

É realmente um país sem futuro, aquele que relega ao abandono os construtores de seu amanhã.

Sombrio o futuro de um país que relega seu passado ao esquecimento e ao abandono o seu presente.

 

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