Do poeta-evento como símile

Cubatão, por Marcelo Ariel

Durante alguns dias do ano trabalho de graça como dublê de poeta-evento, lendo poemas em lugares públicos e privados. O fato de ter trabalhado como poeta-evento não acrescenta nada ao tipo de poema que escrevo – chamada poesia metafísica não foi feita para ser lida em voz alta e o melhor que um poeta poderia fazer nos dias de hoje seria se afastar o máximo que puder do chamado ‘mundo dos eventos culturais’, esse apêndice reluzente da sociedade do espetáculo.

Num dos eventos eu e outros escritores lemos poemas em voz alta para algumas mesas vazias enquanto o público lotava a calçada: obviamente o público nos ouvia de longe por causa do microfone, mas não havia realmente nenhuma comunicação autêntica acontecendo. Participei de uns oito eventos desse gênero, nos últimos meses. A coisa serviria como um bom ‘biscate’ apenas, mas em nossa sociedade a Poesia com P maiúsculo não vale nem os R$ 200, por hora cobrados pelo psicanalista.

Na minha cidade natal, não existo  nem como Poeta e paradoxalmente o efeito disto é jamais me convidarem para ler em público, coisa que não lamento, moro em uma vila dentro de uma imensa zona industrial chamada Cubatão,e onde moro não existe vida cultural, salvo alguns concertos de piano para as famílias dos alunos do conservatório.

De qualquer modo, considero a vida cultural identificada apenas com a promoção de eventos, uma farsa estúpida. Sou pela extinção das Secretarias de Cultura, patéticas agências de eventos que servem apenas para distribuir dinheiro público para parasitas disfarçados de produtores culturais, na verdade agenciadores de Eventos e Megaeventos. Eles e o sistema de quadrilhas de oportunistas montado para promovê-los são totalmente inúteis e servem apenas para distrair os analfabetos funcionais da classe média alta e os miseráveis incultos. Exemplo de “miserável culto’: Cartola, Pixinguinha, Cruz e Souza e Marcelo Ariel. Vejam me coloco entre os mortos reluzentes.

Voltando ao poeta-evento, para mim ele é um complemento do filme-evento e da peça-evento. Vejam, não sou pela extinção do filme-evento, nem pelo fim do poeta-evento, defendo o fim das Secretarias de Cultura, inúteis como as antigas Secretarias de Segurança Pública dos municípios, havendo os Conselhos de Cultura Comunitários, as secretarias se tornam inúteis. A própria comunidade, através da frequente participação em massa nos Conselhos, pode  transformar a política pública para a promoção da diversidade cultural em fatos. A comunidade deve ser e agir em oposição aos grupos, como todos nós sabemos, todo grupo é uma máfia.

E o que tudo o que digo acima tem a ver com o advento  do poeta-evento? O poeta é reduzido a  evento pela ação política organizada das máfias que sustentam os sistemas viciados de promoção do culto à personalidade que, por sua vez, perpetuam a ‘sociedade do espetáculo’, o poeta não é um evento e o Poema e não o poeta é um acontecimento. Faço sempre uma distinção  entre evento e acontecimento: o acontecimento não pode ser controlado e nem serve aos interesses dos grupos A ou B ou C. O evento sempre serve a interesses alheios ao  propósito do acontecimento.

O que digo acima pode ser aplicado ao filme-evento. Obviamente, o acontecimento existe independente da quantidade de pessoas que estão nele, os eventos só existem em função de uma quantidade X de pessoas que estão ali para assistir e não para participar. Para mim,  bater palmas não é um modo de participar de uma manifestação é só um modo de aderir a aprovação da maioria: a  falsa democracia é uma enorme claquete! Mesmo que eu me disfarce de poeta-evento, serei sempre um poeta obscuro que escreve uma poesia difícil mas ao meu ver tão necessária quanto uma equação da matemática avançada que explica o movimento do Sol. A autêntica poesia não é inútil como apregoam alguns colegas meus. Inútil é a poesia transformada em evento. Obviamente um Sarau pode ser um acontecimento se acontece dentro de um presídio, de uma escola na favela, dentro de uma agência bancária lotada em dia de pagamento, na porta de uma fábrica…

Um Sarau reduzido a um evento é inofensivo. Atenção, tudo o que digo aqui pode e deve ser aplicado aos filmes, onde escrevi ‘poeta’ leiam ‘ cineasta’, onde quero dizer Poema leiam Filme, onde escrevi ‘Sarau’, leiam ‘ Mostra de cinema’.

Talvez a leitura no bar tenha sido um acontecimento, por causa das cadeiras vazias e do dono do bar que parecia estar em estado de graça.  Na mesma semana li alguns poemas no bar de uma favela em Cubatão, motivado pelo comentário de um dos frequentadores, que quase gritou no meu ouvido: Você só gosta de ler poesia para os burgueses de Santos, leia para os burgueses aqui da favela também…

http://www.youtube.com/watch?v=PlXgjnU83S8 “Fausto”, de Sokurov 

Filme-acontecimento que não entrou ainda em cartaz nas províncias: “Fausto”, de Sokurov, aliás, acaba de ser lançado o DVD de “Elegia de uma Viagem”, obra-prima deste continuador da obra de Andrei Tarkovski, Alexander Sokurov. Procurem na Paradiso!

” O Brasil ainda está num regime de formatação, o que é um signo de atraso grande. Primeiro é preciso localizar nossa singularidade no processo geral de andamento do mundo capitalista. Segundo, lamento muito como recentemente o processo de sedução para uma cultura de consumo de massa e de cultura de massa tem desmobilizado a percepção verdadeira da vida ruim.”

*Tales Ab ‘Saber em entrevista para a Revista E-Sesc de julho de 2012.

Notas breves:

– “O doutor imponderável contra o onirismo groove”, livro do autor desta coluna, sai em Agosto  pela Edições Caiçaras, uma editora artesanal de São Vicente, capitaneada pelo músico e escritor Márcio Barreto.

Carlos Reichembach

– Uma lágrima no orvalho para Carlos Reichembach!  Seu extraordinário Filme “Demência” não deve nada ao Fausto de Sokurov!

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

4 thoughts on “Do poeta-evento como símile

  1. Ariel você sempre provoca, faz pensar. Eu que participo de tantos saraus estou com as orelhas ardendo: sou um poeta-evento? Talvez o meu consolo seja ser poeta e vento soprando em escolas, ONGS, praças, bibliotecas… a leitura silenciosa faz-se antesmente, eu sou como o cão virando a lata. Não me acomodo, farejo e escrevo. (re) escrevo o mundo nessas andanças e busco ouvir a poesia que é, que aí está. Ai, suas palavras, considerações lá em sua oficina no Rolidei foram um afiado gume, um despertar do não ser…
    Secretarias e qualquer instituição inerte ou de conchavos não tem razão de existir.

  2. Regina O poeta-evento é uma formatação da sociedade do espetáculo que está nas entrelinhas da maioria das políticas de incentivo ao livro e leitura, mas os modos artesanais que estão na origem dos encontros e leituras públicas, o amadorismo e sua poderosa ética do encontro dentro do não-esquematismo, do envolvimento de todos os centros que formam um indivíduo nos atos coletivos, as ações não formatadas, tudo isso ainda existe e é acessível, é acessível para todos a invisibilidade sutil e a obscuridade como forças de um entusiasmo que não depende de patrocínio e de vínculos com os interesses das máfias, sejam elas públicas ou privadas.

  3. Caro Ariel, agudas palavras, como tem que ser. Quando se diz que a poesia não tem utilidade, diz-se porque essa é uma qualidade dela, muito forte, de não ter valor monetário, de uso, como todas as coisas fabricáveis e descartáveis da sociedade de consumo. Sua utilidade e seu uso possíveis portanto, não monetário, esse que você ressalta e que existe, agem justamente contra essa sociedade. Compartilho com você o mesmo sentimento. Tenho falado em muitos lugares como um cadáver-evento ultimamente, numa bilioteca pública em evento oficial falei apenas para os bibliotecários que afinal estavam lá pra trabalhar… noutro falei para apenas uma pessoa, ficando lá sentado, tal como o touro sentado, o poeta sentado, um não-ser. Isso está me fazendo bater recordes e quase estou atingindo o silêncio e a reclusão,como você sugere.

  4. Ariel,

    A espetacularização da arte mata até a arte-espetáculo [Teatro, Show, Circo, Dança], tornando-a, frequentemente, “espetaculosa” e, raramente, espetacular; o que dirá a poesia e a escrita. A poesia não-performática, mesmo que não-metafísica [ intimista ou litúrgica, por exemplo, além-aquém espetáculo, como o “orar em segredo”] é “patetizada” pelo formato dos saraus. Que se leiam para os interessados fora dos saraus, olho no olho, em círculos pequenos. Que se abaixe a voz para que se preste atenção nas nuances, pois só os interessados nestas saberão acolher a voz baixa. O púlpito reconfigura a palavra escrita [seja metafísica, intimista ou filosófica], só enaltecendo, eventualmente, alguma forma mais retumbante e ruidosa de fala: a humorística, a histriônica, a panfletária. O meio reformata o fundo. No que diz respeito à palavra levada a contextos onde por ela não se esperaria e/ou é negligenciada [como propõe vc], teríamos outra atuação: a da irrupção de um “algo” sem preparação de palanques, e sem os viéses dos cumprimentos de praxe: superficiais, como todo protocolo [e o protocolo é, sempre, guardrail para os inseguros]. Essa interlocução “deslocada da espera” [ deslocada da “cadeira cativa”] despertaria, eventualmente, a indagação, a dúvida, a curiosidade [essas agudezas-da-espreita, intercambiáveis em alguns de seus graus]; ou a indiferença, categórica e expressa. Não a inexpressiva indiferença dos aplausos entre “colegas” ou “acolegados” [permita-me o neologismo] por força de ofício, hábito ou aliança institucional [a agudeza-das-espertezas]. Reforços de alianças, lenitivos ao “desamparo de ofício”, na melhor das hipóteses; “reserva de mercado entre os mais chegados” [quando ao mercado se chega] ou “rede de proteção ao status [ainda-não contábil] do ofício de ser escritor entre escritores”, no caso mais comum. O lugar do pensamento é onde haja interessados na interlocução bem calibrada: a do ouvido interessado. “Jogar pra galera” ou para “pares” é programa de auditório.

    Abraços!

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