Blunderbuss, Jack White – 2012

Entre aquelas pessoas que produzem algo de esplêndido na vida, algumas atingem essa façanha logo nas primeiras investidas, outras demoram a vida toda e só conseguem obter esse resultado já nos últimos anos de existência. Contudo existe um terceiro grupo. Esse grupo é composto por indivíduos que gradualmente crescem a cada ano, a cada nova empreitada, a cada novo projeto e que vez ou outra preenchem os espaços com acessos de brilhantismo até chegar ao ápice tão desejado. Jack White faz parte desse time.

Prestes a completar 37 anos, esse norte-americano nascido na industrial cidade de Detroit no estado do Michigan, apareceu verdadeiramente para o mundo da música em 1999 com o registro de estreia do White Stripes. Uma década de discos depois alcançou o reconhecimento dentro do mundo alternativo e fora dele ganhou respeito de nomes de peso do rock internacional como retratado no documentário “A Todo Volume”, de 2009, estrelado por ele em conjunto com Jimmy Page (Led Zeppelin) e The Edge (U2).

Sempre inquieto, Jack White encabeçou outros projetos (The Racounters/The Dead Weather), montou uma gravadora e começou a produzir no atacado. Com o anunciado fim do White Stripes ano passado, chegou então a hora de um trabalho solo. “Blunderbuss” tem lançamento pela Third Man Records e em pouco mais de 40 minutos mostra a mesma essência anterior, porém com leves mudanças na apresentação, como também um preenchimento mais completo, onde todos os instrumentos (tocados por ele mesmo) aparecem.

“Blunderbuss” não evidencia o artista andando por outros caminhos. As preferências batem ponto com frequência como o blues, country, rock setentista, garage rock, folk e bluegrass, estes dois últimos com uma participação maior que outrora, mas nada tão incisivo. A mudança chega por outro viés. Como o escritor C.S. Lewis disse: “Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento”, o que cai como uma luva para Jack White nesse momento.

http://www.youtube.com/watch?v=dSLem5hLxLc& “Love Interruption” ao vivo no programa Saturday Night Live 

As 13 faixas do álbum refletem claramente a pequena mutação que Nashville exerce atualmente sobre suas composições e não fogem, obviamente, de apresentar letras pessoais que tratam tanto do final da ex-banda, quanto do casamento com a modelo Karen Elson que igualmente se foi em 2011. Com pianos e violões mais presentes, Jack White proporciona ao ouvinte uma pequena jornada pelos estilos que admira, indo desde as repetições da abertura de “Missing Pieces” até as variações finais de “Take Me with You When You Go”.

O meio desses dois pólos é preenchido por faixas que remetem a antiga banda como “Sixteen Saltines” e “Freedom at 21”, essa com um riff simples e marcante. Se estende por “Love Interruption” que remete a fase “III” do Led Zeppelin e apresenta uma das letras mais significativas, com o amor sendo requerido de modo quase que desesperado. Os anos 70 também estão vivos na balada da faixa-título e na absolutamente vintage “On and On and On” que apresenta um riff notável em cima da bela melodia que lembra Paul McCartney.

As baladas comparecem em número relevante e vão desde o piano com ecos de Tom Waits de “Hypocritical Kiss”, onde Jack White busca esquecer o que passou na letra, até a experimental “I Guess I Should Go to Sleep”, com alguns interessantes toques de jazz. Para compensar na energia surgem do outro lado coisas como “I’m Shakin’”, um rockabilly dos anos 50 clássico, porém sujo, com direito a palmas, backing vocals e guitarras distorcidas, além do pop grudento com raízes tradicionais de “Hip (Eponymous) Poor Boy”.

“Blunderbuss” é um disco que mostra um artista no apogeu da sua carreira profissional. Seguro e abarcando todas as etapas de concepção, partindo da criação e chegando até a distribuição, mostra que é possível se adequar aos tempos modernos usando bases mais antigas. Almeja (e consegue) revigorar o rock atual privilegiando sonoridades passadas e corresponde às expectativas, corroborando a assertiva de que grandes realizações sempre acontecem em uma estrutura de grandes expectativas. Uma assertiva que Jack White tirou de letra.

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

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