Da ironia como uma ilusão de poder ou o efeito Wuthering Heights

"Wuthering Heights", de Andrea Arnold

Em minha última coluna neste site, tratei de um assunto irrelevante, apesar de seus efeitos devastadores em nossas vidas – entendam o paradoxo: o tema da última coluna foi a política partidária e suas relações com a indústria cultural. Prometo não sujar mais este espaço com um tema tão repugnante.

Quando for prefeito de Serra do Mar, ex-Cubatão, tratarei a cultura com o devido respeito que ela merece: começo aqui, uma campanha para mudar o nome de Cubatão para Serra do Mar.

Voltemos a falar de cinema, a última arte, Wuthering Heights ou “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Andrea Arnold permanece inédito nos cinemas brasileiros – é um filme carregado de simbologia panteísta, no sentido que o grande filósofo Vicente Ferreira da Silva dava ao termo, um elemento de nossa interioridade que, através da exterioridade do mundo, leia-se Natureza, nos une ao que podemos chamar de energia atemporal da vida. (Ver “A Transcendência do mundo”, Vicente Ferreira da Silva, É Edições).

Andrea Arnold constrói uma partitura de imagens que tentam um efeito cinestésico, quer nos colocar dentro dos personagens do extraordinário romance clássico de Emily Bronté. No cinema brasileiro, temos “Inocência”, de Walter Lima Jr. , um precursor do simbolismo no cinema brasileiro e certamente um filme que podemos identificar como a gênese desconhecida desta versão de “O Morro dos Ventos Uivantes”.

Grandes projetos que poderiam melhorar nossas vidas estão em estado de coma político nos gabinetes do nada e grandes filmes permanecem inéditos em nossos cinemas – devo agradecer ao mercado paralelo dos filmes piratas da Rua Augusta, o fato de ter visto alguns dos mais expressivos filmes realizados nos últimos tempos. É óbvio que vou ao cinema, ao espaço XXXX (nome de banco) e louvo as exceções que entram em cartaz no Posto 4 Cinearte. Deveria haver um cinearte em todos os bairros de todas as cidades do Brasil! Zil! Zil! Zil! Zil!

Retornando ao filme de Andrea Arnold, já disse que o cinema caminha para uma espécie de simbolismo panteísta e que no Brasil temos vários exemplos desse tipo de abordagem da última arte: “Inocência”, de Walter Lima Jr., “Limite”, de Mário Peixoto, “Barravento”, de Gláuber Rocha, e outros. Nosso cinema se perdeu no meio do caminho e apenas em alguns raros momentos se reconecta com a sua grandeza épica e sua vocação para o simbolismo panteísta: por exemplo, na última cena de “Paraísos Artificiais”, de Marcos Prado, o mar se corporifica como um símbolo do inconsciente, este filme, aliás, nada tem a ver com Baudelaire, sua visão do uso das drogas cai no moralismo sutil, um tipo de coisa que iria matar de raiva Kieslowski e Rogério Sganzerla, para citarmos apenas dois gênios.

Vamos chamar a guinada do cinema mundial para uma poética dos símbolos panteístas de ‘Efeito Wuthering Heights’. Quando nesta coluna vocês lerem isto, saberão do que se trata, basta que os dez ou doze leitores que me acompanham aqui, se lembrem de seus sonhos com a Natureza, com o fim do mundo e etç, e relacionem isso com o sentimento do sagrado nas coisas naturais e não no abstrato, não no Culto da personalidade das celebridades migrando para políticos, padres cantores e pastores evangélicos. Andrea Arnold associa em seu filme a paixão a uma força da natureza, isto está no cartaz do filme e é “verdade” – não estranhem, escreverei essa palavra verdade sempre assim entre aspas, a “verdade” do filme é esta. A versão de William Wyler está carregada de um mistério insondável e de uma atmosfera de sonho, que Andrea evoca, mas não materializa completamente. Ver as duas versões pode ser uma experiência mística e seria pedir demais se em algum lugar do Brasil, as duas fossem projetadas lado a lado? Seria o mesmo que pedir para transferirem novamente a sede do governo para o Rio de Janeiro? Creio que não. Façamos um plebiscito!

Quando “Luz nas Trevas”, o grande e belo filme de Helena Ignez &  a Spiritual Presence de Sgarnzerla entrará em circuito comercial em nossa província, em nossa Vila Mentale?

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Lanço em agosto na Pinakhotéke, ou na Disqueria ou no Café Millôr, se possível nos três lugares, meu livro  “O Doutor Imponderável contra o Onirismo Groove” (Edições Caiçaras). Convido todos a curtirem a coisa no tempo real da presença humana e na no Facebook.

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Livro sobre cinema do mês: “À espera do tempo – filmando com Kurosawa”, de Teruyo Nogami. (Cosac & Naif).

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Gosto muito do capítulo final que descreve encontros de Kurosawa com outros cineastas, o silêncio de Godard sentado na mesa com Kurosawa é equivalente ao silêncio de Marcel Proust diante de James Joyce. O desencontro entre Kurosawa e John Cassavetes em um festival de cinema é equivalente ao desencontro entre Orson Welles e Mário Peixoto durante as filmagens de “Its All True”, no Brasil. Silêncios equivalentes e desencontros equivalentes são uma regra e não uma exceção.

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Como nas colunas sociais, leia-se jornalismo cultural de província, encerro com uma citação de Oscar Wilde:

“ O valor de uma ideia nada tem a  ver com a sinceridade do indivíduo que a exprime. Na realidade, a probabilidade é que, quanto menos sincero for o indivíduo, mais puramente intelectual deve ser a ideia.”

Até o mês que vem, na próxima coluna: Nanni Moretti & Pirandello e outras duplas sertanejas.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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