Uma Vida Melhor: Drama forte sobre a vida dos mexicanos ilegais nos EUA

Uma beleza de filme, este “Uma Vida Melhor”. Um drama pesado, triste a não mais poder, sobre a vida de mexicanos imigrantes ilegais nos Estados Unidos e uma relação de pai e filho. A realidade que mostra é extremamente amarga, mas o filme não é amargo: passa uma imensa simpatia por aquelas pessoas pobres, sofridas.

É um olhar profundamente humanista, de solidariedade por aqueles infelizes seres.

E é espantosamente simples, direto, sem firulas, sem frescuras. Embora seja em cores, e se passe na Los Angeles de hoje, às vezes a narrativa faz lembrar o neo-realismo italiano, tamanha sua simplicidade – e o humanismo com que os realizadores contam a história.

Demián Bichir está excelente como o trabalhador honesto, esforçado – e ilegal

Uma das grandes qualidades do filme é a atuação excelente, maravilhosa, do ator Demián Bichir, que lhe deu uma indicação ao Oscar. Ele faz o protagonista da história, Carlos Galindo. As primeiras sequências do filme mostram Carlos trabalhando como jardineiro em luxuosas casas de Los Angeles. Trabalha em dupla com um outro mexicano, Blasco (Joaquín Cosio). Blasco é mais velho, e está bem melhor de vida; tem sua caminhonete, que carrega as ferramentas de trabalho; é ele que é contratado pelos ricaços para cuidar de seus jardins – mas o trabalho duro fica todo por conta de Carlos.

Blasco quer voltar para o México; comprou uma pequena propriedade lá, e se prepara para retornar ao país natal. Quer vender para Carlos a caminhonete e as ferramentas. Mas Carlos tem dúvidas; suas economias não permitem que ele pague pelo instrumento de trabalho; teria que pedir dinheiro emprestado à irmã mais nova, Anita (Dolores Heredia), que está casada com um americano e teve sua situação regularizada.

Carlos continua ilegal: tentou obter o greencard, ou encaminhar o pedido de cidadania, mas o advogado que contratou levou um dinheiro e desapareceu.

E a falta de documentos é outro motivo que o deixa indeciso sobre a compra da caminhonete: se for pego em alguma batida de trânsito, sem papéis, sem carteira de habilitação, será certamente deportado.

Um adolescente criado sem mãe, cercado por gente de gangues

Carlos é um homem bom. É extremamente trabalhador, trabalha feito um mouro, é honestíssimo. Mas é um imigrante ilegal.

Mora numa casa humilde – humilde, mas decente, não miserável. A casa só tem um quarto, e o quarto é do seu único filho, Luis (José Julián), adolescente de 14 anos de idade. Depois de trabalhar duro o dia inteiro, Carlos dorme no sofá da sala, para que Luis tenha conforto, possa estudar e ter uma vida melhor.

Mal se falam, pai e filho adolescente. Luis não dá espaço para que haja diálogo.

São demais os perigos da adolescência, e perigos sérios rondam Luis bem de perto. Sua namorada é de uma família de gangue, seus amigos querem pertencer às gangues. A delinquência está muito próxima para os jovens imigrantes pobres.

Fica bem evidente para o espectador que Carlos criou Luis sozinho, sem a mãe, desde praticamente sempre.

Um clima forte de angústia, tristeza, pavor

Toda a narrativa é absolutamente simples, direta, quase como no neo-realismo italiano, repito. Há apenas dois momentos em que o diretor Chris Weitz e seu diretor de fotografia Javier Aguirresarobe (sujeito competentíssimo, registre-se) fogem dessa simplicidade absoluta. Uma delas é quando está para acontecer uma tragédia na vida duríssima, barra pesada, de Carlos, num momento em que ele escala uma palmeira alta e pára por um momento para admirar a vista linda de um trecho rico, cheio de verde, de Los Angeles. A câmara, em uma grua, faz um movimento deslumbrante.

Mais tarde, em outro momento de grande tensão, Carlos entra em um gigantesco restaurante-night club. Um conjunto mexicano está cantando no palco do lugar uma canção que fala em balas, tiros, mortes. Enquanto Carlos, mal vestido para aquele lugar, deslocado, caminha entre dezenas de pessoas que bebem, dançam, se divertem, o som da canção em espanhol vai abaixando, e ouvimos alguns acordes pesados de piano, que anunciam um clímax. É uma maravilha de sequência.

O filme cria um clima forte de angústia, tristeza, pavor: o espectador é envolvido pelo drama de Carlos, simpatiza com ele, torce por ele, sofre com ele.

Um diretor que mostra sempre preocupação com os jovens tristes, solitários

Vejo que Chris Weitz, bem jovem – nasceu em Nova York em 1969 –, tem trabalhos como produtor, ator, roteirista e diretor. Como diretor, este “Uma Vida Melhor” é seu quinto longa-metragem, e seu primeiro drama. Fez em 2001 “O Céu Pode Esperar”, refilmagem da velha história do sujeito que morre antes da hora e tem nova oportunidade de voltar à vida, com Chris Rock no papel que já foi de Warren Beatty num filme de 1978 que teve o mesmo título em português, e já era uma refilmagem.

Em 2002 fez na Inglaterra “Um Grande Garoto”, uma simpática, gostosa comédia em que o personagem de Hugh Grant, um sujeito rico, inconsequente, babacão, acaba se afeiçoando a um garoto solitário, triste.

Em 2007 fez “A Bússola de Ouro”, uma aventura infanto-juvenil, e em 2009 dirigiu “Lua Nova”, da saga “Crepúsculo”, que não deixa de ser também uma aventura infanto-juvenil.

http://www.youtube.com/watch?v=55uC5DQFHls

Essa filmografia um tanto irregular tem, me parece, algo que é um traço comum: a preocupação com os jovens tristes, solitários.

O cerne deste “Uma Vida Melhor” é a questão da imigração, sem dúvida – mas o filme vai fundo também na relação entre o adolescente à beira dos perigos e seu pai trabalhador, esforçado, homem bom, reto, honesto.

A vida do ator Demián Bichir de alguma forma lembra a de seu personagem

E é fascinante ver que há alguma relação entre o protagonista da história, o imigrante mexicano Carlos Galindo, e o ator que o interpreta, esse Demián Bichir que nos dá uma interpretação soberba, maravilhosa.

Demián Bichir tem sangue de ator. Nascido na Cidade do México em 1963, é filho de um diretor de teatro e uma atriz. Aos 14 anos, fez sua estréia como ator numa novela. Mudou-se aos 22 anos para os Estados Unidos, passou por Nova York, viveu quatro anos em Los Angeles, trabalhou como auxiliar de garçom e tentou obter alguma oportunidade como ator. Sem sucesso. Aí teve um convite para trabalhar em um filme em seu país, “Hasta Morrir” – e ganhou um Ariel, o Oscar mexicano. Sua carreira deslanchou; participou de filmes importantes. Em 1991, estrelou “Sexo, pudor y lágrimas”, um tremendo sucesso de bilheteria no México, que quebrou recordes na época. Steven Soderbergh o escolheu para fazer o papel de Fidel Castro no díptico “Che”, de 2008.

E agora, por sua interpretação em ‘Uma Vida Melhor”, tem no currículo uma indicação ao Oscar, além de uma indicação ao Independent Spirits Award, o prêmio do cinema independente americano, e ao do Screen Actors Guild, o do sindicato dos atores.

Uma belíssima atuação de Demián Bichir, uma muitíssimo bem sucedida estreia do diretor Chris Weitz no mundo do drama.

E que drama, que vida dura a que o filme mostra.

UMA VIDA MELHOR
(A Better Life, EUA, 2011).
Direção: Chris Weitz.
Roteiro: Eric Eason, baseado em história de Roger L. Simon.
Elenco: Demián Bichir (Carlos Galindo), José Julián (Luis Galindo), Joaquín Cosio (Blasco), Dolores Heredia (Anita), Gabriel Chavarria (Ramon), Chelsea Rendon (Ruthie Valdez), Isabella Rae Thomas (Linda), Carlos Linares (Santiago).
Drama.
98 minutos.

Lançamento direto em DVD e Blu-ray: Março/2012.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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