Blues Funeral, Mark Lanegan Band – 2012

Nos sete minutos e sete segundos da faixa que encerra o álbum “Blues Funeral”, Mark Lanegan apresenta angústia e um leve desespero nos versos que conduz sobre uma base quebrada e de clima carregado. Nas frases da canção rasga revistas e livros, mantêm a mágoa por perto e tenta extrair alguma verdade dos fatos em sua volta. É difícil para ele assumir o que quer que tenha feito, apesar de saber que não tem mais volta. “Tiny Grain Of Truth” é a última dose servida em uma noite repleta de incertezas.

“Blues Funeral” é o sétimo disco solo do ex-Screaming Trees e exibe no conteúdo a mesma carga intensa que permeou não somente os tempos com a ótima banda de Seattle, como também os projetos com o Queens Of The Stone Age, Isobel Campbell, Soulsavers e Gutter Twins. Lançado com o nome de Mark Lanegan Band (que não utilizava desde “Bebblegum”, de 2004) é o primeiro pelo selo 4AD, casa onde nomes como Bon Iver, Tv On The Radio, Pixies e Cocteau Twins já passaram ou ainda habitam.

http://www.youtube.com/watch?v=dCa9BBVeTjo  Quatro  músicas do álbum com outra pegada em apresentação ao vivo

Produzido pelo amigo Alain Johannes (Eleven, Them Crooked Vultures) e com participações de outros como Jack Irons, Greg Dulli e Josh Homme, o músico optou em mudar a forma com que exibia suas canções. O novo trabalho esquece os violões tão utilizados em outrora e resume as guitarras a coadjuvantes (ainda que fundamentais), deixando a linha de frente ocupada por sintetizadores e programações eletrônicas, rememorando assim a música mais soturna que o pós-punk dos anos 80 (Joy Division e afins) produziu.

“The Gravedigger’s Song” usa inglês e francês para falar de um amor que serve como alívio, enquanto “Bleeding Muddy Waters” homenageia o bluesman e faz Lanegan sentir e sangrar. “St. Louis Elegy” emerge com morte e religião e “Riot In My House” é um dos raros rocks do disco (o outro é “Quiver Syndrome”), com guitarras gritando ao fundo do caos e tumulto citados na letra. Em “Ode To Sad Disco” temos um dance que foi deposto do seu lugar e “Phantasmagoria Blues” se assemelha mais com as coisas antigas.

Mark Lanegan

Esse novo registro mostra um artista que apesar dos anos de carreira, ainda se mostra interessado em confrontar a si mesmo. Pode-se até dizer que os assuntos são repetitivos, porém a vida sempre será rica em dores, sofrimentos e aflição. Da sua geração, Mark Lanegan é aquele que mais sabe criar em cima desses temas. Essa habilidade (boa ou má, quem saberá dizer?) continua a gerar uma obra que foge da obviedade e serve como ferramenta para acalmar as próprias inquietudes. “Blues Funeral” é o mais recente exemplo disso.

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

One thought on “Blues Funeral, Mark Lanegan Band – 2012

  1. Bacana. “Blues Funeral” também me impressionou bastante. Como não acompanhava o trabalho solo de Lanegan há tempos, confesso que para mim foi uma grata surpresa. Valeu a indicação.

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