Sete Dias com Marilyn: Michelle Williams e Kenneth Branagh honram dois mitos do cinema

Totalmente seduzido pela bela estrela de Hollywood  em um número musical carregado de sensualidade, o jovem Colin Clark está em êxtase na mágica atmosfera de uma sessão de cinema. A beleza  de Marilyn Monroe  ilumina a tela e  atravessa o escurinho da sala para finalmente invadir o universo masculino como um tsunami, deixando todos os homens  aos seus pés e causando inveja e admiração às mulheres. Estamos em 1956, ano que consagra o rock’n’roll e Elvis Presley,  assiste ao clássico “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (que vencerá o Oscar de melhor filme) e  testemunha o triunfo de  Julie Andrews  na Broadway com “My Fair Lady”. Este também é o ano em que Marilyn Monroe decide produzir um filme para  provar para ao mundo que não é somente uma sex symbol,  mas também talentosa atriz,  sob a direção do grande ator shakespeariano, Sir Laurence Olivier, um verdadeiro tesouro britânico das artes cênicas, vencedor do Oscar de melhor ator 1948 por “Hamlet”, também premiado como melhor filme.  Mal sabe o elegante, educado e gentil Colin, um bem nascido inglês  boa pinta de apenas 23 anos, que em breve sua vida vai se entrelaçar com o maior dos mitos femininos do cinema, o qual no momento vê  na tela, dançando, cantando e encantando.

Imediatamente empatizamos com Colin Clark, interpretado com leveza e sensibilidade pelo ator Eddie Redmayne, nascido numa família de classe alta, mas cujos pais parecem não levar seus objetivos profissionais tão a sério, preferindo dar toda a atenção aos de seu irmão. O motivo é simples: Colin quer seguir carreira trabalhando em produção de filmes, algo nada auspicioso, ainda mais se lembrarmos que trata-se da década de 50. O jovem Colin ganha nossa simpatia  ao demonstrar grande perseverança e determinação na busca de seu sonho, que acaba tendo um início bem modesto: um pequeno emprego no lendário estúdio da Inglaterra, o Pinewood, sem remuneração. Sua garra, esforço e perfil discreto acabam conduzindo-o ao cargo de assistente de assistente de diretor.

Colin tem sua grande chance quando é anunciado que o grande Laurence Olivier vai dirigir o longa “The Sleeping Prince” (e que receberia novo título – “The Prince and the Showgirl”,  intitulado no Brasil como “O Príncipe Encantado”), no qual também atuará ao lado da superestrela Marilyn Monroe. O fato de Olivier ser amigo de sua família proporciona a grande chance para Colin mostrar todo seu potencial. E eis que aterrissa no aeroporto de Heathrow, em Londres, o avião trazendo a sexy loira platinada, acompanhada pelo marido, o  respeitadíssimo escritor americano Arthur Miller. É impactante a presença de Michelle Williams, ótima atriz, três vezes já indicada ao Oscar (por “Brokeback Mountain”, “Namorados Para Sempre” e por este filme). Sua interpretação é sublime e transcendental; sua entrega é total e hipnotizante. Temos a impressão de que estamos diante da verdadeira Marilyn Monroe, não somente pela incrível caracterização física, com maquiagem e enchimentos perfeitos, mas principalmente pela fascinante metamorfose de uma atriz que, à primeira vista,  não seria  considerada viável para o papel, fosse pelos critérios de aparência física ou pelas exigências dramáticas, cômicas e musicais exigidas pela complexa personagem mítica.

Dirigido com  paixão, elegância e competência por Simon Curtis, o filme não se limita ao universo de uma filmagem de um longa daquela época, mas mergulha fundo nos aspectos psicológicos de seus personagens principais. Ao chegar no set de filmagem com sua personal coach, Paula Strasberg, constantemente  a protegendo como se fosse sua  mãe e mentora, Marilyn,  grande admiradora e seguidora de Lee Strasberg e seu “studio method”, bate de frente com o estilo formal  de  Laurence Olivier, magnificamente interpretado por Kenneth Branagh, na vida real também  um ator shakespeariano e fã do grande lorde inglês. Percebe-se que  Olivier aceita dirigi-la para dar um  sopro de juventude a ele próprio e à sua carreira, uma vez que já enfrentava a transição para uma idade ingrata no cinema, os 50 anos. Interessante saber que, na peça teatral em que o filme de Marilyn se baseia, o próprio Laurence Olivier atuou com sua esposa Vivien Leigh, a lendária estrela de “…E o Vento Levou”. Interpretando Vivien, está a atriz Julia Ormond, há algum tempo afastada das telas, que retorna fazendo um correto e sutil trabalho ao mostrar a elegância, educação, tristeza e, principalmente, ciúmes de atriz e esposa ao se ver substituída por Marilyn.

Os ensaios para o filme estão condenados a interrupções e tumultos. Olivier, talvez intimidado pela beleza estonteante de Marilyn no apogeu de seus 30 anos, chega a humilhá-la na frente da equipe durante as filmagens, quando demonstra não estar dominando o texto. Isso acaba revelando a elevada carência e insegurança da atriz, trazendo à tona seus tormentos e por fim levando-a a  crises emocionais,  pioradas com a frieza cortante do marido. Interessante notar que os dois atores, Marilyn e Olivier, de uma certa maneira representam o confronto de seus respectivos países – os Estados Unidos e a Inglaterra, e sua relação de fascínio e admiração misturadas a  ressentimento e inveja.

É nesse momento delicado que Colin surge para Marilyn como um anjo guardião, e a estrela, acostumada a relacionamentos com homens mais velhos, encontrará um sentimento que jamais imaginava conhecer em sua vida ao se envolver pela primeira vez com alguém mais jovem que ela. O diretor Curtis mostra a delicadeza dessa relação com suavidade em imagens lindíssimas embaladas pela inspirada  trilha sonora, que inclui a voz de veludo de Nat King Cole. As interpretações perfeitas do elenco ainda incluem Dame Judi Dench, formidável  num papel que lhe cai como uma luva – uma grande e generosa atriz condecorada Dame, e ainda uma adorável Emma Watson pós-“Harry Potter”.  Eddie Redmayne está perfeito como o jovem Colin Clark e juntamente com Michelle Williams no papel título,  emocionam a ponto de provocar uma lágrima discreta  no expectador mais sensível. Michelle tem neste papel um verdadeiro tour de force – atrevo-me a afirmar que seu trabalho tenha sido ainda mais difícil que o de Meryl Streep interpretando Margaret Thatcher,  pois ao contrário de Margaret,  Marilyn é um ícone pop que atravessa gerações, tendo sua imagem estampada em pôsteres, camisetas, canecas, etc. Todos já viram a imagem da estrela  inúmeras vezes e têm uma forte referência dela e de seu mito. Um grande desafio para qualquer atriz experiente, e ela finca os dentes numa interpretação fabulosa e inesquecível,  que, se tivesse vencido o Oscar, não teria sido injusto. Foi reconhecida na premiação do Globo de Ouro, vencendo também o Spirit Independent Award. Aliás, ela e Kenneth foram merecidamente indicados a praticamente todos os prêmios do ano de 2012.

O cineasta Curtis  trabalhou com um roteiro afiado baseado no livro autobiográfico de Colin Clark, cheio de lembranças fantásticas, com diálogos inteligentes e espirituosos.  Também teve a felicidade de rodar o filme em locações belíssimas, especialmente nos lugares onde Marilyn realmente esteve, como seu camarim, o lance de escadas onde ela lê as tristes palavras que o marido escreve sobre ela, Parkside – a casa onde o casal Monroe/Miller se hospedou, o famoso Windsor Castle e a conceituada Eton College. Tudo no filme funciona perfeitamente e emociona profundamente. No final, é pungente ver o ácido Laurence Olivier, após  ter impiedosamente criticado a estrela de seu filme,  assistindo  junto ao jovem Colin a algumas cenas filmadas, e reconhecer o talento natural de Marilyn e como ela brilha intensamente na tela, ofuscando a tudo e a todos ao seu redor.  As imagens de Marilyn ficam povoando nossos pensamentos e levamos um pouquinho dela nos corações: trazemos na lembrança um  rápido brilho de felicidade no olhar daquela bela atriz que durou apenas sete dias.  Sob o glamour hollywoodiano, vestida em grifes caras, distribuindo frases de efeito, bom humor, sorrisos e autógrafos aos fãs e jornalistas, escondia  suas tragédias e lágrimas, sendo a sua vida  uma das mais comoventes histórias do cinema, que em breve chegaria ao fim. Um momento antológico para Michelle. Bravíssima!

SETE DIAS COM MARILYN
(My Week With Marilyn, Reino Unido / EUA, 2011).
Direção: Simon Curtis.
Roteiro: Adrian Hodges.
Elenco: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Julia Ormond, Kenneth Branagh, Toby Jones, Dougray Scott, Dominic Cooper, Judi Dench, Zoë Wanamaker, Emma Watson.
Drama.
99 minutos.

Estreia no Brasil: 27/04/2012.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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