Da impossibilidade de uma quase síntese ou da realidade como um filme ruim

Em seu ensaio “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica”, o psicanalista Tales AB’Saber realiza aquilo que João Moreira Salles tentou  em seu documentário sobre Lula, um análise original da doença social chamada culto da personalidade. “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica” é um livro que equivale ao melhor filme  sobre Lula jamais realizado, tem a mesma importância para a política brasileira que o “A Sangue frio”, de Truman Capote, para a criminologia. Não me confundam, senhores quase cidadãos, “Lulismo”  não é uma reportagem, mas  se utiliza dos recursos historiográficos de uma grande reportagem. Tales é também um cineasta, realizou um belo filme documentário sobre Telê Santana, mas é com esse seu pequeno grande ensaio “Lulismo, Carisma  pop e cultura anticrítica”, que ele mata a cobra e mostra o pau e fornece subsídios para uma abordagem mais profunda e audaciosa da política brasileira, que poderia ser realizada pelos cineastas atuais enquanto pensadores sociais e não apenas  como repórteres-cronistas do social viciados na organização para efeitos simulatórios, publicitários ou jornalísticos de um repertório de imagens.

Aí está o discurso de “Terra em Transe” que deveria ser sutilmente aprimorado como uma análise acurada e original dos fatores que internamente – e até subjetivamente – ajudaram a construir nosso atual estado de coisas.

Ao associar uma crítica da sociedade do espetáculo a uma  análise do culto da personalidade, ligando de forma surpreendente o universo da política partidária ao processos de construção da imagem  na música pop. Mas o livro não é apenas isso e avança para uma sutilíssima psicanálise do público que os produtores culturais e políticos chamam de “Alvo”.

O livro pode ser lido neste link.

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Por falar em documentário, “Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio”, de Walter Carvalho, é um filme que se sustenta sobre uma tese furada: a de que as mulheres são o vetor principal da obra de um artista. A arte não se alimenta prioritariamente da esfera amical-afetiva-amorosa.  Raul era um pagão-cristão-panteísta em suas melhores canções e tinha um apuro com a produção de seus discos raro até nos dias de hoje. Senti falta no filme de uma exploração maior da dimensão crítica, em alguns momentos a coisa beira a hagiografia piedosa.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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