Os Estados Unidos e a América Latina sob o olhar da sétima arte

"Estado de Sítio"

Já faz um tempo que eu não escrevo para o CineZen, pois estou bem atarefada com o meu novo trabalho e na reta final da pós-graduação. Este semestre há uma disciplina sobre a América Latina e o professor teve a ideia de acrescentar filmes e documentários como “lição de casa”. Ele trouxe diversos filmes e uma representante de classe coordena essa “locadora” de DVDs. Em uma das primeiras aulas, debatemos sobre a relação dos Estados Unidos e a América Latina. Por coincidência, os dois primeiros filmes que eu vi, “Estado de Sítio” e “A Revolução Não Será Televisionada”, têm tudo a ver com a discussão. Juntando o útil ao agradável volto a escrever para compartilhar minhas descobertas.

O filme de Costa-Gavras, “Estado de Sítio”, retrata um Uruguai sob a ditadura militar. A história conta o sequestro do embaixador do Brasil no Uruguai, Roberto Campos, e do funcionário da polícia norte-americana Dan Mitrione pelo grupo guerrilheiro Tupamaros em 1970. O grupo exige que o governo solte os presos políticos em troca dos sequestrados. O caso gera uma crise política internacional que coloca em evidência a participação dos Estados Unidos na estrutura repressiva dos regimes militares da América Latina.

Apesar de ter sido baseado em fatos reais, o filme não é um documentário. O roteiro é bem amarrado e prende nossa atenção. Os diálogos entre Dan Mitrione e seu sequestrador nos faz entender uma parte da história de nosso país. Especialista em arrancar confissões de presos mediante tortura, Mitrione prestou “seus serviços técnicos” para alguns países latino-americanos e deu aulas de tortura.

Por sua vez, o documentário a “A Revolução Não Será Televisionada” relata a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, na Venezuela, no início do século XXI.

Os roteiros são bem distintos. Mas é inevitável não relacionar a influência dos Estados Unidos na política de muitos países da América Latina e sua intervenção (muitas vezes indireta) quando há ameaças à sua política externa. Antes de qualquer coisa, deixo claro que não sou simpática ao populismo de Chávez e acredito que a imprensa deve ser livre.  Entretanto, sabemos que, muitas vezes, há uma certa ideologia por detrás de algumas notícias ou “nem tanto” em todos os meios de comunicação. É claro que há quem vê teorias da conspiração em tudo e deixo essa discussão para aqueles que estudam análise de discurso. O fato é que os dois filmes trazem um visão bem interessante do papel da imprensa, tanto em uma ditadura, como numa democracia.

http://www.youtube.com/watch?v=MTui69j4XvQ&feature=youtu.be “A Revolução Não Será Televisionada”

O documentário “A Revolução Não Será Televisionada” mostra a manipulação ocorrida nos meios de comunicação venezuelanos para mostrar que a população estava insatisfeita com o presidente. Vale lembrar que os Estados Unidos importam petróleo da Venezuela e estávamos na época do governo de George W. Bush, pós-11 de Setembro. Apesar de esse documentário ter um discurso pró-Chávez, ele tem o mérito de mostrar outra visão daquela que acompanhamos na grande imprensa internacional.

Há alguns anos, uma amiga venezuelana descreveu Chávez como um político que passou a ver as pessoas mais necessitadas de seu país. Como faltava muito para aquelas pessoas, o pouco que recebiam era já uma grande mudança.  Ela me explicou que mesmo com os abusos do presidente e até mesmo suspeitas de corrupção em seu governo, o povo preferiu fechar aos olhos. Pois, pelo menos, “ele fazia algo que ninguém fazia”.  Aliás, ser jornalista não é uma das tarefas mais fáceis na Venezuela.

http://www.youtube.com/watch?v=kW3OmH5g0N4&feature=youtu.be “Estado de Sítio”

Olhando para o passado, é patético ver a cena do presidente uruguaio negando a existência dos tupamaros e os jornalistas terem de chamá-los de “os inomináveis”. Mas, mesmo hoje, temos de aprender a não aceitar a primeira versão. Perguntar-se de onde veio aquela informação e mais importante não ter preconceitos contra quem é a favor da esquerda ou da direita. Ora, são apenas pontos de vista diferentes. Devemos buscar o olhar do diferente para entendê-lo, mesmo que a gente não concorde com ele. Buscar ver o todo e não somente a parte. Pois, é a consciência que modifica a realidade. E a sétima arte não é uma deliciosa maneira de nos tornamos mais conscientes?

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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